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30/6/2007 15:02:00
O evangelho segundo satanás



Por Luis Eustáquio Soares

 

 

                                                  1

              Nestas satânicas letras, de corpos, de seres, de afetos,  pomares abertos de frutas maduras, um mistério de signos metamórficos nos perderá de nos achar, num vice-versa de  sedução, no redemoinho do qual o nascimento de uma cabeleira de pecados, num mito de ritos, transformará a solitária Medusa, com a sua visão de pedra, numa  musa de palavras tagarelas: esta escrita,  rabisco  de mediações especulares, de olhos, de vozes, de toques, através das quais gélidas estátuas – amedrontadas metáforas fabulares de homens que se perdem, quando seduzidos –  vão incorporando a feminina força fatal de  infernais céus e de celestiais infernos relacionais, de rebeldes legiões, de profanas religiões e de sagradas ligações, nessa narrativa lúdica de paixões, no decorrer da qual  não encontrará nada, curioso leitor, além de errantes contradições, estas das dicções das multidões, longe de imposições, perto dos corações. 

 Como sempre no nunca e nunca no sempre, verá que ecos de sim se propagarão tanto, assim muito mesmo, que os ilustrados, sensatos e inteligentes  argumentos a favor do não - a tudo que parece impossível –  simplesmente passarão a  soar como, eles sim, como utopias negativas, moralismos realistas, ridículos e risíveis; loucuras do hábito e da normalidade; cansaços institucionais, desistências; simulações de  inúteis símbolos.

  Nos  espaços destes humanos, demasiadamente humanos, formigueiros de sílabas, na abrupta vulnerabilidade dessa milenar ex-tradição humana e não humana de seqüestrados e  inviabilizados, há mais tempo passado que pode haver de tempo passado, que de tão passado, já era futuro e já era presente, e já não era tempo algum, esquecido de tempos, posto que cheio de tempos idos, indo, e a ir, em todos os lugares temporais deste planeta conhecidamente desconhecido, lá, aqui e ali, existirá uma menina cujos cabelos crescerão  a cada segundo, a cada milésimo de segundo, o tempo todo, de tal maneira que os olhos das pessoas, e dela também, poderão ver, os cabelos de Joana – é este o seu nome – crescerem, crescerem, crescerem, alcançando o impossível de outras dimensões, pois, além de crescerem como é o previsível,  os cabelos da menina cresciam também, de algum modo invisível, pra dentro, crescendo, crescendo, crescendo, no mesmo ritmo que cresciam pra fora. 

             Quando alguém pegasse na ponta de alguns fios de seu cabelo, já no momento mesmo que prendesse entre os dedos a ponta deles, e levantasse os fios horizontalmente, então, entre o milésimo de segundo de pegar os fios e de levantá-los, as pontas deles já não estavam mais entre os dedos da pessoa, pois já tinham crescido, crescido, e continuavam a crescer, sem parar, como um rio que corre, pra dentro e pra fora, de tal modo que cortar a exterioridade dos fios de cabelo, diminuí-los, controlá-los, apenas aparentemente seria possível, porque, sem que possamos ver, conforme está dito, os fios invisivelmente continuam a crescer, pra dentro, diabolicamente, expandindo fronteiras, acumulando-se de dejetos, de lixos, de depósitos, de aluviões de caspas, húmus, umidades, ciscos, poeiras, misturando a tudo, formando outros modos de ser invisíveis fios, insubmissos, inconscientes de suas pulsões púbicas, nas praças públicas de fios entrançados em fios, formando acumulações de gerúndios, a multiplicar  lençóis freáticos, irrupções de cachoeiras, no burburinho volumoso de fios internos e externos.

Assim crescendo, os cabelos de Joana se lançarão na borda das irradiações multicoloridas, formando novas cores, matizes de toda sorte, por isso os tempos verbais não sossegarão, aqui, ora sendo presente, ora sendo passado, ora sendo futuro, porque esta estória pretende brincar, satanicamente, com os limites e com as fronteiras, seja se perdendo num mais adiante de toda frente, seja se esquecendo num mais atrás de quaisquer costas, podendo ser um mais na frente e um mais atrás, como um mais pra dentro e um mais pra fora cabeludos, nessas explosões implosivas, repleta de presentes.

Mudando de tempos e de espaços, perceberemos que os cabelos da menina, além de multicoloridos, são milagreiros, e que, para cada fenômeno de ser e de estar, no mundo, sempre existiram, existem e existirão matizes e tons espectrais, em desconcerto, orquestrando novos atos nascentes, de singularidades de batuques presentemente ancestrais.

            Seus cabelos, porque milagreiros, agitarão consistências de estar, partindo da dupla condição de serem crespos e de serem lisos, investindo a favor de todas as variações que podem existir entre o liso e o crespo, cabelos muito lisos, o mais que se pode ser, pois de tão lisos quase pareciam água de cabelo, ou mesmo quase pareciam ar, ar de cabelo, ou cabelo em estado gasoso, em cada fio muito liso, como se não fossem fios de cabelos, mas fios de ar ou fios de água, ou infinitesimais fios de fios, ou de uma outra coisa qualquer muito leve, muito lisa, o mais que é possível, ou impossível existir.

            E disse impossível, porque também os fios muito lisos de seus cabelos, a cada instante, inventavam novos fios mais finos, de tal maneira que, pra vê-los, era preciso enxergá-los com lente de aumento, num momento, e, depois, com microscópio. E quanto mais potente fosse o microscópio, mais se descobriam novos fios de cabelo em Joana, como descobrimos mais novos planetas e estrelas no céu, ou menores, invisíveis criaturas, ou partículas de matéria, na terra.

             Por outro mesmo lado, determinados fios de cabelo de Joana podiam ser tão crespos, tão crespos, que se enrolavam entre si tanto, que mais pareciam raízes dentro de raízes, com as linhas rizomáticas intrincavelmente misturadas entre si, ou quase uma cebola de fios de cabelos, com suas partes dentro de suas partes, ou ainda como enroladíssimas nuvens dentro de nuvens, que a cada momento, como as nuvens, adquiriam novas formas, novos modos de ser crespo, como nenhum outro cabelo crespo do mundo, ou como quase todos, ou como todos, simplesmente: tempestades e trovões de cabelos insurgentes, em suas igualdades e disponibilidades de presenças, cabeludamente varrendo o rés-do-chão dos poros das respirações.

            Por serem muito, muito crespos, alguns fios de seus cabelos eram muito pesados, e cada vez mais ficavam mais pesados, em velocidade inacreditável, chegando ao ponto de versões cada vez mais inverossímeis serem criadas por aplicados estudiosos, como as que produzem big-banguescas teorias de radiação de fundos, alegando o que chamam de locusdiversidade fiante a remontar ao começo do universo, em que uma matéria muito pequena tinha, em si, todo o peso dos mundos, porque continha tudo que é possível ser matéria, em qualquer lugar do cosmo, pluriconcentrada.

            Mas, então, como Joana faz pra ficar de pé, com tanto peso na cabeça?

            Simples: da mesma forma que Joana tinha fios de cabelo muito pesados, porque muito densos, que cada vez mais ficavam mais pesados e mais densos, ela também tinha fios muito leves, que cada vez mais ficavam mais leves, e mais leves que se possa imaginar, de tal maneira que os fios muito leves, como uma balança, criavam uma relação de equilíbrio com os fios muito pesados, e o muito leve compensava o muito pesado, ficando, na sua cabeça, cabelos que não eram nem leves e nem pesados, embora seja dito, incrédulo leitor machadiano, que a balança da justiça, entre o pesado e o leve, bem mais que equilibrar forças, neutralizá-las, exala o pesado do leve e o leve do pesado, assim como o dentro do fora e o fora do dentro; o visível do invisível e este daquele.

É dessa forma então que Joana podia ficar de pé, sem problemas, e andar, e correr, pra todo lado, sem medo de cair, de ser amassada, como se um elefante tivesse pisado sobre ela, de repente; ou mesmo sem medo de voar, em função da leveza etérea e aérea de alguns outros fios de cabelo, contrariando as gravidades, engravidando absurdos de nascimentos primeiros, segundos, terceiros, sem rumo, por aí, mas essenciais em suas fragilidades, volubilidades, instabilidades, plasticidades, mutabilidades de fios pesadamente leves, pois suas levezas os tornarão viscerais e suas  concentrações pesadas os tornarão etéreos, sem pátria, soltos pelo mundo, como um corpo sendo alma e como uma alma sendo corpo, singulares e comuns, um texto dentro de outro texto, um hipertexto, cheio de pretextos e de contextos.

Algures de aqui: lá e ali e acolá.

 

 

                                                  2

 

Joana não era uma menina feliz. Tinha apenas seis anos, e sua vida parecia se resumir a cortes de cabelo, embora seja preciso dizer que estamos ainda na fase do susto, uma época de sua vida em que ela precisa forçar a barra da normalidade, incomodar Deus e o povo, pra poder viver com seus cabelos multicoloridos, crescendo pra dentro e pra fora, descontroladamente, fato que a tornava indefinível, nas mais banais situações do seu cotidiano.

Quando tomava banho, por exemplo, ela saia do banheiro sem que alguns fios de cabelo tivessem sido lavados, pois nasceram depois. Só não estavam sujos porque eram novos.

Quando tinha que parar de cortá-los, pra almoçar, tomar café, lavar as mãos, seus cabelos tinham que ser cortados por sua mãe, que ficava com tesoura na mão, cortando, enquanto ela fazia o que era necessário.

Assim também era quando Joana estudava, e mesmo quando ela dormia, pois sua mãe, ou sua tia, ou sua prima, ou sua irmã, ou seu pai se revezavam, cada noite era uma, ou um, para ficar cortando seu cabelo, quando ela dormia.

Um dia, pra você ter uma idéia, ninguém pôde ficar acordado pra ir cortando seus cabelos enquanto ela dormia, e então seus cabelos cresceram tanto, que quando ela acordou, se cobria, não com a colcha, ou com o lençol, mas com seus cabelos, que estavam tão grandes que se espalharam por todo quarto.

- Mãe, mãe! – Gritou Joana.

A mãe ouviu um grito longe, abafado, e imaginou que Joana estivesse brincando, como costumava fazer, debaixo da coberta. De qualquer forma, foi dar uma espiada.

- Nossa mãe, não fique nervosa, já vou pegar a tesoura, e cortá-los.

O mínimo de tempo que a mãe demorou já foi o suficiente pro cabelo se estender pelo corredor e invadir os quartos mais próximos, pois quanto mais longos fossem os cabelos de Joana mais pareciam sentir forças pra crescer e crescer, vertiginosamente.

            - Olha mãe, já estão no quarto de papai, e entram por debaixo da porta – disse Joana, olhando por uma janela que abriu, com as duas mãos, entre seu rosto.

            Pude então vislumbrar a leveza e a exuberância delicadas de sua beleza de menina. Sua pele de africana brilhava com tanta maciez que todo rosto parecia flutuar, e a negrura de sua presença física denunciava, como um grito de dor e de alegria, ao mesmo tempo, que a pele negra indicia-nos a todos, pela tragédia de sua humilhação, pela barbárie pirata dos pilantras picaretas portadores de filos fios lisos, embora Joana possuísse estes e outros de outras gradações de fios cabeludos de êxodos, nascendo, nascendo, nascendo, sem parar, ou, ainda, para complicar um pouco mais, porque sua negritude não era branca, ou mesmo negra, ou mesma amarela,  alguma coisa me diz que, por isso mesmo, seu rosto supera, em si e por si, todo e qualquer sistema, toda e qualquer padronização técnica, sexual, etária, e mesmo uma suposta norma negróide, se o mundo se fizesse negrocêntrico, uma vez que só por existir, por estar ali, vulnerável e hesitante, por conter em si a delicadeza e o clamor de não querer ser colonizado pela pirataria genocida de outros rostos famintos de poder, por estar solto, por poder ser vítima de tiros, de tapas, de beliscões, de socos, de facadas, de injustiças bárbaras de toda  sorte, seu rosto é, desde sempre, pré-pós-barbárie, disponibilidade abrupta do aqui e do agora imaculáveis, precisamente porque, ali, lançável no abismo, quer o impossível de voar, sem a interrupção de qualquer mão forte, a interferir, como ave de rapina, na trilha descoberta de cobrir-se de ser e de estar vivo, simplesmente. 

            Joana começou a chorar.

            A mãe já foi logo cortando bem próximo ao seu couro cabeludo, assim, de modo repicado, de tal maneira que o cabelo assim se desenvolvesse. Sabia que tinha que cortar por bloco, já que se cortasse ou deixasse sair um fio solto, o muito pesado ou o muito leve poderiam causar desastres inimagináveis, conforme o caso.

Se fosse um fio muito pesado que se desprendesse, poderia afundar o apartamento do terceiro andar por cima dos outros apartamentos, até se enfiar, caoticamente, pela terra adentro, buscando desmedidas de possibilidades, no inverso de pesos de paixão. E, por sua vez, se fosse um muito leve, o efeito poderia ser o contrário, levantar vôo sem nunca cair, como Ícaro diverso, embora rumasse cada vez mais para o centro do sol de outras heras, que não foram, não serão e não eram, de tanto pesado presente na memória viva que traz de crespos amores. 

            Enquanto a mãe cortava os cabelos, as duas choravam. Então o pior aconteceu: os fios de cabelos cortados cresciam também, pra dentro e pra fora, e de modo ainda mais veloz que os fios presos à cabeça de Joana. O desespero foi total. Os cabelos adquiriram autonomia. Tiravam força de si mesmos, se espalhando por todo apartamento, cobrindo-o como uma espécie de tapete multicolorido, que gradativamente ia aumentando de tamanho, de tal maneira que poderiam sufocar a todos.

            Abriram as janelas, as portas, e os cabelos se lançaram pra fora, descendo pelas paredes, deixando, em pouco tempo, todo prédio coberto, já que o terceiro andar era o último.

            A Defesa Civil apareceu e simplesmente não sabia o que fazer. E pra falar a verdade, nem eu, que estou contando esta estória, já não sei, pelo menos por enquanto, o que fazer, pra prosseguir com a trama.

 Se você quiser prosseguir com a história, ou simplesmente quiser esquecê-la, ou dizer que o narrador, ou o autor, ou a Vésper, ou José Cemí, ou a Raíssa, ou, sem reticências de três pontinhos a indicar suspensão de pensamentos e de afetividades, não sabem contar estórias, que ele ou ela são traidores, incompetentes, preguiçosos, analfabéticos enganadores de escritas sigilosamente confessionais: fique à vontade.

 No momento me rendo. Vou tomar um café. Depois talvez volte.

 

 

 

                                                  3

               

 

            Poderia ter terminado a história da infeliz Joana ali, ou talvez mesmo nem terminado, mas acabado com ela, deixando-a toda em negrito, no painel do computador, e, em seguida, deletar tudo, ou delatar? Mas não, resolvi  continuar escrevendo, como estou fazendo, agora. Não vou dizer que estou impulsionado por uma força mais forte do que eu, por uma necessidade irreprimível, por um desejo incontrolável de criar, pela autonomia, que me supera, que alcançou esta estranha e bobinha estória, ou ainda qualquer outra besteira de escritor.

Continuo a escrever porque, neste momento, não tenho nada que fazer, porque comecei a contar esta estória pra minha filha, e ela me pediu que eu a escrevesse, e ela, a estória, tomou outro rumo, porque, como autor vivo e vivo autor devo tentar escrever estórias pós-machadianas, e ver o que dá, no desafio de personagens a não se conter nas pautas ficcionais, porque estas últimas apalpam fios através de fios, cultivando-os em si e pra si, enquanto o que interessa é que, considerando o direito ao segredo e às distâncias entre letras e pessoas, o que interessa é que tudo se entrelace, que tudo compartilhe significados, sonhos, realidades, ficções, porque essas  histórias de papel, com suas incursões nas especialidades, meu diabo!, só plantam letras de tédio, de cinismos, de moralismos epistêmicos, porque, enfim,  quero pressionar as ridículas seriedades, procurando contribuir pra  tornar nem sério e nem ridículo o que é desprezado, através de fios rebeldes a pressionar os limites internos e externos, do papel e do quartel, driblando essa tragédia desses e nesses mundos insulares, em que  estamos tão perto e tão distantes, em que nos conhecemos tanto e cada vez somos mais desconhecidos, em que nos experimentamos tão pouco, ou simplesmente em que o que fazemos é o que não deveríamos, preencher tempos e espaços com nossos vazios e, mesmo que parte da psicanálise assim o diga, que somos vazios, somos cheios, de modo que esta é a intenção desta escrita: um autor diabolicamente intencional, vivo entre vivos personagens e enredos e leitores; vivo entre os demais, que escreve a vida plena de pecados. ou quem vai dar, no abismo de tempos e de espaços, o ar dessas ficçe contextos.ngulares e comuns, o ...

 

Nessas vidas, ganhamos perdemos nossos dias, com nossas mediocridades, campo de barbáries gerais, de modo que, morando também nesses insuportáveis vazios, escrevo também vazios como o de dar/desagradar-me perante os meus ímpares, pra me ajudar no currículo, e, como não sou exatamente um carreirista, ou um imbecil positivista, completamente alienado - olha esta palavra fora de moda, um alienado, quase boto uma exclamação! - e envolvido com seu próprio umbigo, embora seja ou tenha um pouco ou um muito disso tudo, confesso que também continuo a escrever porque tenho, e como não basta, como se fosse vantagem, que apenas eu os tenha, porque temos  aqueles cheios e vitais  mundos ausentes em nós, esses que ausentam as infames presenças soldadescas de escritas meramente literárias, esteticamente consensuais, de ilustrados reacionários e, panfletário que sou, arrivista que sou, engajado que sou, preciso plenamente começar a estar, a tocar as perturbações, pois sei que só a morte é meu limite, e todos morremos.

Dentro do estar, abandono o ser, nesta obviedade inadmissível, aos olhos atrás das cortinas, obviedade  de que a vida é muito curta, o que torna inadmissível a fome, o total desalento, hoje e sempre, das crianças, nos países pobres, e mesmo nos ricos.

Porque a vida é curta, a carne envelhece e apodrece, porque nos acontece morrer,  ver o que vemos nos meios de comunicação de massa, na tevê, no rádio, na internet, nos jornais escritos, seres replicantes porque são absolutamente iguais, são seres replicantes, justamente porque seus controladores têm um mesmo perfil: são idiotas, e gostam mais de dinheiro do que de gente, de mortes que de vidas, e as mortes dos outros são sempre um excelente pretexto pro destaque midiático de seus, ou dos nossos, modos incestuosos de amar os próximos, e nesse momento, sou radicalmente o oposto, eu, o capeta, disto que chamam amar o próximo, pois meu amor, esse que me arrebata e pode me tornar, nos tornar, melhores, esse ama as distâncias e os distantes e, amando-os, não pode fazer o jogo desses francos sérios atiradores, confinados em suas instituições, em suas profissões, em suas vantagens de posses, extorsões e expropriações dos nossos cheios e cheios estes sim, sem sujeitos únicos, sem autores únicos, posto que multiplicados de partes que não são nem partes e nem totalidades, mas o milagre alquímico de metamorfoses nas expansões invisíveis e visíveis de cabeludas heresias. 

            Acho simplesmente que as riquezas humanas, as riquezas econômicas, as riquezas tecnológicas, as riquezas eletrônicas, as riquezas culturais, as riquezas amorosas, as riquezas intelectuais, as riquezas poéticas, as riquezas ornamentais, do beijo, do abraço, do sorriso, do toque, do prazer de comer, de fazer sexo, de correr, de não se preocupar com a prestação disso ou daquilo, de morar bem, de ter o direito de viajar por aí, como qualquer um, de não ficar emparedado entre as necessidades fundamentais e / ou entre as exibicionistas  e de poder contar estrelas à noite, trabalhar pela manhã e não fazer nada à tarde, ou fazer tudo, enfim, acho que tudo isso é de todo o mundo, não só de alguns poucos felizes e bem sucedidos, e mesmo acho que temos que construir alternativas pra dizer isso pros tais felizes e bem sucedidos, que ou somos felizes juntos, ou morremos juntos, mais cedo ou mais tarde, pra fora ou pra dentro, multidesbotadamente.

 

                                                  4

 

 

            Resolvi então a contar esta estória um pouco no estilo de Machado de Assis, através da técnica dos fragmentos, embora confesse que, neste momento, goste mais de Guimarães Rosa.

           

 

 

                                                  5

  

 

            Sei que poderia ter continuado o que vou dizer aqui no fragmento anterior, mas resolvi, pra render espaço, continuar no fragmento seguinte.

 

 

 

             6

  

 

Sei que Oswald de Andrade escrevia também por fragmentos, é o estilo dos preguiçosos, a escrita flui melhor, e você não tem que ficar preso à trama, levando-a demais a sério, enredado na ficção como se a ficção pudesse ser ou estar condenada ao nicho, absolutamente amarrada na pauta de um livro.

E, nessa pauta que muitos chamamos de pós-moderna, desde os anos setenta, não nos esqueçamos, a morte se espalhou como nunca, como se as duas grandes guerras chamadas de mundiais não tivessem terminado e, sim, chegado ao paroxismo a partir das últimas décadas do século passado,  por isso ainda acho que o modernismo fez muito mais ficções, no plural, porque tudo é ficção, cada um de nós, do que o que chamamos de pós-modernismo, o qual, neste momento cafajeste de nosso presente, gosta de dizer que tudo é ficção, que a verdade não existe, que a essência não existe, enquanto o fundamentalismo inessencial do dinheiro campeia implacável, on line, sobre o peso multicolorido, agora multidesbotado, de linhas vitais, reais, considerando que estas lifes lines ou lines lifes são, sim, high lifes, além de viscerais, fundamentais verdades essenciais, intocáveis e inegociáveis, perante qualquer outra ficção, ainda que high tech.

Também não acho que tudo já esteja dito, e de que não seja possível sermos originais, como acreditavam os românticos. Se este texto não é original, é culpa e incompetência minha, de mais ninguém, embora  a competência, e não a in, seja suspeitosa por si só, de modo que se fazer ou se escrever ou escrever incompetentemente pode ser um excelente começo pra desviar essas competências gerais, de mortes gerais, pra manter e reproduzir tanto acúmulo de indiferença, de genocídio  e de narcisismo.

Não devo e não posso ser cínico o suficiente pra dizer que a minha incapacidade é uma questão de época e, de um modo insuportavelmente cafajeste, ganhar dividendos com isto, pra cooptar com a trama que o sistema inventa, como que dizendo ou admitindo, de modo covarde, que só o sistema, o capetalista, o imperial, o dos ricos, o dos poderosos, pode ser inventivo, inventar, se inventar e nos inventar, pra dentro e para fora.

 

 

                                                                             

                      7

 

 

                Os cabelos de Joana já alcançavam a rua em frente, entravam pra dentro dos carros, que tivessem as janelas abertas, se enfiavam por entre os eixos das rodas, impedindo-os de prosseguir seus caminhos, e entravam pelas vizinhanças, os apartamentos próximos, repetindo o mesmo movimento, começavam entrando pelas frestas dos portões, das portas, pelas janelas, e depois trilhavam caminhos opostos, e voltavam sobre si mesmos, cobrindo as paredes dos outros prédios e das casas, deixando tudo coberto, e multicolorido, voltando a se esparramar pelo chão, de tal maneira que nada ficava livre, até as árvores já estavam cobertas, e todos se sentiam muito impotentes pra resolver uma situação tão esquisita.

            A notícia se espalhou por todo o canto do país e do mundo. De toda parte, curiosos apareciam pra ver uma cidade cobrindo outra, que cobria outra, e outra, de tal modo que já não era possível vislumbrar nenhuma cabeça mais, nem a de Joana, pois tudo era só cabeça, os cabelos tinham tanta fome de cabeça, que tudo era transformado em cabeça, e todo estado de Minas Gerais, neste momento, já estava se transformando em cabeça cabeluda, sem rosto.

Era a grande festa dos piolhos. 

             

                                                                             

     8

 

 

 

            Como tenho feito e desfeito, como narrador do autor, e como autor do narrador e ainda como personagem de ambos, poderia, a partir de agora, enxertar narrativas alheias aqui, nestas lacunas, confeccionando uma escrita de colagens, tecida e entretecida por mim, e por colaborações de outros poetas, escritores, nacionais e internacionais, conhecidos ou anônimos, com o intuito de encher o espaço e chegar a número razoável de páginas, o suficiente pra ser ou se transformar, em vir-a-ser, um livro.

 Agora que descobri o estilo de fragmentos, o dos preguiçosos, vou levando na maciota, me deixando contaminar por pulsações contraditórias, pra ir montando essa colcha de retalhos de fomes, de medos, de força, de desajeitadas querências de  convivências comigo e com esses outros eus fora de mim, nesses corpos todos acordados, dos quais sou uma inusitada combinação diabólica e todos de todos somos esses indefinidos e abertos poros de sangue, de dobras, de cores, de formas, de encantos e recantos tragicamente sobre-humilhados pelo peso transcendente da mão de Deus, que, por tanto e tanto tempo, seqüestrou, e tudo fez, pra que o ponto de vista meu, Satanás, não se fizesse presente, por isso chuto o balde com meu desespero e minha lascívia incontroláveis; com minha força de vulnerabilidade, sem garantias celestiais: o caminho da salvação  da  verdade roubada  e da vida diminuída. 

            Vou enchendo, então, os espaços, com fragmentos de fragmentos, pois, assim, mesmo quando nada tiver a dizer, direi simplesmente que nada tenho a dizer, e assim o texto vai se formando, e possa chegar, quem sabe, a ser um livro, e não somente mais um, ou sim.

            De qualquer forma, um livro multicolorido, marcado por essa estranha potência de crescer e crescer, pra dentro e pra fora, a realizar milagres imprevistos, diabolicamente humanos, desesperadamente famintos de lascívias de encontros, fazendo um fio costurar-se noutro, recompondo a rede lançada no rio da multiplicação dos peixes e dos pães de nossos agora agourados pela tremenda sacanagem, a insuportável cafajestice de deixar à sua imprópria sorte, a nossa, uma única lágrima de desalento a cair dos olhos de uma única criança que seja neste planeta.

Assim, neste agora repleto de traições, eu, o anjo caído no chão de tudo,  nas brechas de fios crespos e lisos, nos entrançados de letras garatujas intrusas, eu, o advogado do diabo, denuncio Deus por crime de lesa-liberdade, de lesa-criatividade, de lesa-saciedade, de lesa-afetividade, como o criminoso-mor de todas as formas de vida.

Com fragmentos conectando-se noutros, meu propósito não é de fazer, por si e por si, uma representação metafórica contra Deus, mas  de também exigir, no campo das apresentações, no face a face,  um hábeas corpus pra garantir  o sagrado direito a nossas injunções e perambulações da gente conosco, em todas as situações do cotidiano, deste plano aqui do viver,  surpreendendo Deus em flagrante delito, nas mais diversas formas de autoridade concentrada, divinamente, em fortalezas de umbigos.

 

 

 

 

 





 

 

Luís Eustáquio Soares nasceu em Rio Pomba, Minas Gerais. Atualmente mora em Vitória, Espírito Santo, onde é professor Adjunto de Teoria da Literatura, na Universidade Federal do Espírito Santo. Publicou os livros: Paradoxias, romance, 1999, Cor Vadia, poesia, 2002, Silvo de Luis Caixeiro, biografema, 2003, co-autoria com o poeta mineiro Wilmar Silva. No prelo, o romance inédito em português, El envagelio según satnanás, que sairá na Venezuela. E-mail: artevicio@uol.com.br 

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