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Exercício
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Pequenos delitos
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2/9/2007 19:14:00
Dalí no busão



Por Claudio Parreira

 

MADRI, 1922

Os jovens Luis Buñuel e Federico Garcia Lorca estavam sentados diante de uma belíssima jaca quando notaram uma figura se aproximando pela linha do horizonte.
- Há uma figura se aproximando pela linha horizonte - disse Buñuel.
- O narrador já falou isso, sua besta - ralhou Lorca. - E o que é que há demais em uma figura se aproximar pela linha do horizonte? As pessoas sempre vêm e vão pela linha do horizonte. O que há de tão importante nisso?
- É que a figura que está se aproximando pela linha do horizonte é o Salvador Dalí.
- Dalí? Não é de lá?
- Dalí, Lorca, Salvador Dalí. Esse nome não lhe diz algo?
Lorca comeu mais um bago de jaca, cuspiu o caroço (não sem antes chupá-lo devidamente até deixá-lo lisinho e brilhante, como manda o Manual de Etiqueta à Mesa D`Espanha, Vol. 2, Edições Barcarrola, 1920), e pensou. E pensou novamente. Daí falou:
- Sinto muito, querido, mas não conheço nenhum Salvador Dalí.
- Eu também não - falou Buñuel - mas está registrado na História que foi aqui que o conhecemos, nós dois.
Lorca apertou os olhos e se deteve na figura ainda distante.
- Ele está montado no quê? - quis saber o futuro poeta.
- Aquilo é um jumento, sua besta! Não reconhece mais os irmãos?
Lorca sentiu uma pontada de veneno na fala de Buñuel, mas decidiu relevar. Seus nobres sentimentos de poeta já se mostravam presentes, e além do mais não seria producente assassinar um cineasta que nem cineasta era ainda.
- Um jumento! - continuou Lorca. - Que maneira mais extravagante de viajar...
"Extravagante é esta jaca que não acaba nunca", pensou Buñuel, mas isso pouco ou nada contribui para o pleno andamento desta história que se quer contar. Voltemos pois ao texto:
- Um jumento! - continuou Lorca. - Que maneira...
- Você já falou isso, meu filho - falou Buñuel. - Que tal irmos aos finalmentes?
- E o que seriam, aqui, ao lado desta jaca, os finalmentes?
Dalí, já bem mais próximo, conversava com os seus botões:
- Lá estão aqueles dois, o Buñuel e o Lorca. Vou conhecê-los agora. Com certeza vou me encher com ós de espanto e ahs! de surpresa, afinal eu não suspeito nem de longe quem eles são e eles não sabem lhufas a respeito de quem eu sou. Ou sabem, tanto faz. Mas vai ser, certamente, um grande encontro. Eu ousaria até dizer que mais tarde esse encontro tão comum (afinal, as pessoas se encontram em todos os lugares todos os dias) vai ser registrado nas biografias tanto minha quanto deles, e disso vai se fazer uma conversa fiada da porra, estudiosos e mais estudiosos vão tecer considerações e argumentos delirantes sobre esse momento tão banal, porque assim são as coisas e os escritores gostam mesmo é de registrar esses encontros como momentos iluminados da existência - o que é pura bobagem, na minha opinião. Mas de fato mesmo é o seguinte: aqueles dois terão a inenarrável oportunidade de conhecer o Salvador Dalí aqui, modestamente. O que não é pra qualquer um.

Um silêncio pontuado de verdes e azuis cercou o momento em que os três enfim se encontraram. Olhos questionando olhos, cada um tentando apreender do outro o máximo de informações naquilo que sabiam ser o mínimo de tempo. É claro que quando a gente conhece outra pessoa as coisas não acontecem exatamente assim, ninguém fica observando os silêncios pontuados e nem de longe pensa em apreender coisa nenhuma. O negócio se dá mesmo é de maneira animal: gosto dele/não gosto, fui com a cara/não fui. Simples assim. Lorca mais tarde se referiria ao encontro da seguinte forma: "Desde o primeiro momento vi nos olhos daquele homem a figura de um louco. Um louco iluminado, admito, mas ainda assim um louco. Um Quixote montado naquele jumento esquálido, morto de fome certamente há dias, um fedor de sol e cansaço. Em outras circunstâncias não teria dado a ele a menor atenção. Mas era Salvador Dalí, como vim a saber, e pertencia àquela rara espécie de homens que não se pode ignorar. Não o fiz. Pelo contrário: senti-me imediatamente atraído por ele, por aquela chama doentia que emanava de seus olhos enigmáticos, pelo futuro que já se desenhava na sua figura esguia e ao mesmo tempo imponente".
Viadagens à parte, o próprio Lorca quebrou o silêncio, com delicadeza:
- Vai uma jaca aí?
Dalí recusou a oferta. E falou:
- Prefiro buchada de bode à provençal com tubaína. Tem jeito?
Buñuel e Lorca se entreolharam. Até mesmo o jumento estranhou.
- Que que foi? - continuou Dalí. - Falei algo que lhes feriu as suscetibilidades?
- O que são suscetibilidades? - perguntou o jumento.
Dalí gargalhou.
- Já viram algo parecido em suas vidas? Na minha presença, até mesmo os seres desprovidos de humanidade ganham espírito. Em alguma outra parte de Espanha já viram um jumento ignorante questionar o seu amo?
Ignorante é a sua mãe, pensou o jumento, e só não lhe cravou as duas patas traseiras bem no meio do peito porque, de acordo com o projeto deste texto, essa não seria a hora mais apropriada. Em todo caso ficou ali ruminando idéias, guardando planos para um coice futuro, experimentando as delícias de um possível relincho de triunfo jubiloso.
Bem longe desses pensamentos rancorosos estava Dalí, o peito estufado por suas fabulosas realizações, presentes e futuras. A Buñuel e Lorca causou mais efeito a buchada de bode à provençal do que a fala do jumento, mas isso, se levado em consideração, também nada significava. Era parte do Grande Teatro de Dalí, que ainda não era grande mas já se sentia, uma coisa que poderia ser até considerada medíocre diante de tudo o mais que prometia o futuro. E Dalí, sem meias palavras, foi logo se adiantando:
- Pois saibam vocês, Buñuel e Lorca, que estão diante do mais fabuloso pintor já visto nestas terras e noutras mais, o homem de realizações inacreditáveis, o artista perfeito de um século ainda em fraldas....
Lorca atalhou:
- Artista? Pintor? E onde, aonde as suas obras? Qual quadro traz no lombo deste jumento, quais maravilhas esconde nos bolsos desta sua calça rota feito peneira?
Buñuel foi menos delicado:
- Você não tem pinta de artista. Parece mais um mendigo faminto. Vai jaca?
- Às putaquelospariuses essa maldita jaca! - gritou Dalí. - Pois saibam os senhores que eu, ainda que a contragosto, quando vejo alguém de espírito nobre e altivo sei muito bem reconhecer. Sei, por exemplo, que você, Buñuel, será o criador de polêmicas cinematográficas mais aclamado deste século! E você, rapaz, teu nome, García Lorca, será um dos maiores entre os maiores das letras de Espanha, também do mundo. E isso eu sei não por ouvir dizer ou para lhes bajular. Isso eu sei porque sei e pronto!
Lorca e Buñuel se entreolharam novamente. E desataram a rir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 






 

 

Claudio Parreira, segundo o próprio: é contista, cronista, chargista & vigarista. Foi colaborador da Revista Bundas, O Pasquim 21, Caros Amigos Online e Agência Carta Maior, entre outras publicações. É acionista majoritário do BLOG PPC! www.blogppc.blogger.com.br Recebe de tudo - menos cobrança e Mensalão. E-mail: blogppc@yahoo.com.br

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