Pessoas à espera do ônibus. Algumas talvez atentassem pras flores roxas caídas do ipê. Prenúncio da primavera – palavra primeva na memória – enquanto se dirigiam para seus diferentes destinos.
- Mãe, olha o rosto do moço no chão! Olha o rosto do moço no chão!
A menininha chegou a tirar os cabelos da frente dos olhos pra ver melhor a cena. O espanto dentro do azul. Seu tipo físico e sua indumentária podem ser vistos em qualquer lugar nesses tempos de igualdade nos gostos e nas expressões. A mãe ficou mais do que vexada pra tirá-la dali. Mas ela parecia pregada. Os olhos esbugalhados, como se estivessem diante da coisa mais horrenda do mundo. E estavam! A mãe tivera que descer pra comprar umas coisas no supermercado, pois a empregada faltara. Infelizmente é isso, não dá pra prescindir dos pobres. Agora tinha que arrancar a filha daquela visão. Distraí-la com os produtos sedutores das prateleiras. Ela anuiu, mas foi caminhando e olhando pra trás. O estrago foi feito. A menininha não só sonhou à noite com o moço estatelado no chão, indefinível entre o que era ele e o que era lixo, mas também passoua se referir à cena entre os colegas de escola. Tudo por causa dos tentáculos da miséria, gente moça na maioria das vezes. Preocupado com possíveis traumas, o pai resolveu agir. Parece que seus apelos entre os administradores surtiram efeito. Desde o dia da cena que ora vos relato, nunca mais viram semelhante criatura, ou outras iguais a ela, rondando o quarteirão. Já não era sem tempo.
ANÁFORA
O escritor tinha sentido uns formigamentos já no quarto do hotel, mas não deu maiores liganças. Cansaço da viagem, com certeza. Agora só precisava subir ao palco e cumprir a maratona naquela cidadezinha distante de tudo. Sim, mais uma vez falaria sobre o processo de criação, as leis do mercado, a relação com os leitores, o mal-estar de ainda não termos um Prêmio Nobel de Literatura. É claro que haveria alguém da platéia pra saber o que ele quis dizer com o título do seu último livro: Nenhuma mágoa na ponta do novelo. Ossos do ofício. Nada demais. Vidinha até mansa depois que se tornara presença nos cadernos de cultura, entrevistado em talk-shows, posando ao lado de grã-finos, tendo livro estampado por personagem de novela. Ah, esses hoteizinhos tão confortáveis; ah, esses cachês tão precisos. Longe do tempo de falar, falar, falar e no final levar pra casa um mísero buquê de flores.Tempo de anonimato numa repartição cujo único consolo era a vista pro porto onde via músculos e máquinas num eterno diapasão. Tudo mudara depois de vencer o Concurso de Contos Vozes da Cidade, quando já adentrara na casa dos trinta.
Precisamente às 20 horas, o escritor estava na mesa como convidado especial para a abertura da Feira Literária de Munganga, na qual era o homenageado da vez. O mestre de cerimônia traçou-lhe a biografia, enchendo o ar com todas as loas, dizendo que ele era uma escritor laureado, bafejado pela crítica, autor de 15 romances célebres, 10 livros de poesias, centenas de ensaios sobre temas refinados como semântica e enunciação, publicados esporadicamente na grande imprensa. Nesse momento, percebeu que o pigarro voltara com mais intensidade. O estranho, contudo, é que era um pigarro invisível. À medida que o locutor oficial se encaminhou pro fim de sua fala, o escritor percebeu a extensão do drama: viu uma a uma, a ruma de palavras, das mais variadas cores descendo mesa abaixo, indo em direção à porta principal. Quando finalmente chegou sua vez de falar, seu rosto era apenas um esgar no meio da luz, uma gelatina a escorrer sobre a toalha de renda. Da sua garganta, saiu apenas um miado gigante, igual aos que os pavões entoam quando o dia abre passagem pra noite, longamente, longamente, longamente.
Jeová Santana (1961) nasceu em Maruim (SE). É autor dos livros de contos Dentro da casca (1993), A ossatura (2002) e Inventário de ranhuras (2006). É mestre em Teoria Literária pela Unicamp. Atualmente é doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política e Sociedade da PUC/SP. E-mail:jeopoesi@bol.com.br