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19/1/2008 16:59:00
O narcobenfeitor de Altamira



Por Reinaldo Cabral

 

         A empreitada ultrapassava alguns limites anteriores. João da Pousada precisava encontrar gente da maior confiança, ágil no gatilho, desconhecido na região e principalmente experiente para detonar o plano traçado. Dessa vez seus ganhos seriam maiores. Os interesses da Still Company consolidavam-se na porta da Amazônia. A Rainha Elizabeth aliara-se a empresa. Ainda mais quando ninguém negava ter nos documentos da empresa os carimbos do Ministério das Minas e Energia com autorização para exploração de cassiterita e o que mais houvesse no subsolo. E mais: a chancela do Congresso Nacional. Só havia um problema: como as jazidas se estendiam por 20 milhões de hectares, número superior a extensão de vários países europeus, lá se perfilavam, em pé de guerra, cinco tribos que juravam flechar quem se atrevesse a invadir suas terras. Como o dólar mais e mais circulava em Altamira, Cuiabá, Santarém e Manaus, ao lado dele a boataria ganhava fundo de verdade. João da Pousada esperou durante todo o dia a chegada dos pistoleiros prometidos. Com eles seu pequeno exército tragaria garimpeiros e quantas tribos se expusessem em seu caminho. A intermediária da negociata, a Britanic Inc., mantinha uma escola de chacinas. Havia um contrato com seus amigos nordestinos para encaminhar uma breve solução, segundo orientação de Gómez, um colombiano famoso pelas estórias de bravura propagadas desde a formação de Altamira.

         Gómez era um comerciante rico, temível e popular. A riqueza dele se originara de negócios obscuros. Prosperou apoiando traficantes de Cáli. Muitos deles eram tripulantes de aviões promotores de suspeitas viagens turísticas. 

Quando João da Pousada chegou à Altamira, um pequeno povoado perdido na grande mata do Pará, Gómez já recolhia com os dólares guardados nos cofres embutidos nas paredes de sua casa todo o ouro de pequenos e médios garimpeiros. Sua fama atraiu João para seu lado: os homens com quem negociava corriam para a morte, de preferência quando faziam grandes negócios com ele. João entrou no ramo com a simpatia de Gómez, um rigoroso selecionador de caçadores de pedras preciosas. Aquelas pedrinhas quase invisíveis, pequeníssimas quantidades iam diretamente para João. Gómez demonstrava pelo jovem um calor fraternal. Cada vez que a fortuna do concorrente aumentava mais João o pontuava na raia das pessoas mais perigosas da região. A crescente popularidade do colombiano se devia ao fato de ele ter arranjado outro meio de ganhar dinheiro: assassinatos a sangue frio. Instalou a única funerária da cidade. Quando apareceram dois concorrentes comprou as respectivas lojas. Com uma nova estrutura, deu nova dinâmica aos crimes sob encomenda, terreno em que aos poucos somava a experiência de militante político esquerdista de João da Pousada para ampliar sua rentabilidade nos negócios.

         - Gómez, convidei o senhor aqui para uma palestra muito especial. Desculpe não ter ido à sua casa. Lá, o senhor está sempre cercado de muita gente... - disse João da Pousada.

         - Pois não, João. Fez muito bem. Do que se trata, amigo?

         - É o seguinte, seu Gómez. Uns amigos estão com uma boa empeleitada. É fora daqui. Eu sei que nesse negócio de empeleitada o senhor entende muito bem, é um especialista. Então gostaria de ouvir os seus conselhos.

         - Me explique direitinho, que empreitada é essa, João? Você sabe que tenho muitos amigos na área. Se for alguma coisa que atrapalhe meus negócios com os colombianos e bolivianos, aí então eu não posso fazer nada.

         - Não, meu amigo, garanto que nada tem a ver com esses viajantes. Convidei o Severino para comandar um negócio. É o seguinte...

         Gómez ouviu atento, mas não se pronunciou. João aparentava não compreender ainda que ele, Gómez, era o idealizador de Severino, o articulador de chacinas.

         Dezessete dias depois, os jornais do Pará noticiaram: num conflito armado, um número incalculável de posseiros e garimpeiros foram trucidados numa emboscada por supostos soldados do Exército. Todos foram atingidos com flechas e bordunas. A matança foi atribuída aos índios. Em revanche um outro exército invadiu as terras indígenas e matou milhares deles. A imprensa nacional enviou seus repórteres especiais porque com grande alarde a embaixadora da comunidade indígena, Pena Branca, comparou a chacina às ações do general Cluster contra os índios norte-americanos.

 

 

                                           * * *

 

        

         Monturo de lixo urbano. Algazarra interminável. Correrias. Satãs empanados desembestados pelas ruas estreitas. Vertigens dominando pernas de jovens carcomidas pelo brutal apetite de homens envelhecidos pela ansiedade e pelo trabalho estafante. Mãos, cabeças, rancores, pele enrustidos. As vozes não traziam uma identificação - podiam ser de homens, velhos, crianças, mulheres, corvos e sopros em um gargalo de garrafa de cachaça à base de mandioca. Os estopins a que todos se acostumaram não se originavam de fogueiras incendiadas para assar milho verde mas de bocas de espingardas de canos curto e longo: ali estava a entrada para o inferno. As cantilenas disparadas pelos arredores em noites turvas derivavam não dos salões onde os pequenos assassinatos eram planejados mas de casebres, de mansões onde as viúvas se despediam dos vizinhos e saíam em disparada atrás dos restos dos seus homens. Os ziguezagues da política traçada pelos poderosos seguia um curso natural - quem estava do outro lado eram os inimigos do crescimento e da prosperidade. Essa prosperidade só poderia existir se cada um cuidasse de ficar milionário com as dádivas da terra, não perturbasse o acúmulo das maiores quantidades de pedras preciosas dos estrangeiros, não atrapalhasse a passagem dos viajores, aqueles cujos aviões cruzavam diariamente os céus de Cáli, Caquetá e Mitú antes de cruzarem a fronteira brasileira; ou se originavam da Bolívia através de Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra. Desventurados aqueles que contraditassem as orientações dos deuses de um olimpo habitado por Gómez, cujo pai conhecido reinara durante anos como ferrenho ditador em Bogotá.    

         Felizes daqueles que se aproximavam e sobreviviam à convivência desse leitor de Pigarretta, o andarilho dos sete mares e maior viajor do continente, em cuja fonte de alfarrábios Gómez abastecia sua sapiência e criara por conta disso ao seu redor a imagem de mago dos magos: sempre tinha uma solução para todos os problemas, do corpo e da alma, da vida e da morte. Oráculo dos pioneiros, há muito a conduta do colombiano servia de bússola à vida e à conduta de milhares de desamparados oriundos de todas as partes do Brasil. O que o governo  não fora capaz de fazer, nem mesmo os militares todo-poderosos,  Gómez fazia: os milagres recebiam sua chancela. As proezas só comuns aos santos canonizados se erguiam em torno da imagem majestática do pensador e historiador magnânimo. Quem, entre os recolonizados, quisesse refúgio dos azares, escapar dos infortúnios dos substratos mais marginais dos despossuídos de todos os países amazônicos bastava se inscrever no beija-mão da narcoinfluência e logo estava salvo. Antes de provar as delícias de um epitáfio - “sua vida vale menos do que um prato de comida” - haveria de submeter-se a rejeição da parábola dos hereges condenados pela corte: nada melhor na vida do que o prazer de servir ao Gómez. Havia, por isso mesmo, uma rede de amizades,  prazer,  compromissos,  sabedoria. Gómez administrava essas redes bem distante da influência dos malévolos paulistas que certa vez tentaram se aproximar das florestas onde o ouro jazia submerso. As histórias absorvidas das lendas de Pigarreta sobre as conquistas dos bandeirantes eram  repugnadas com tanto fervor que bastava se citar a origem desse ou daquele novo migrante e logo o recém chegado se evaporava como uma bolha. Truncava-se a delegação de poder. As aparentes ausências de Gómez eram justificadas como um mergulho no passado. Diziam suas dúzias de asseclas que ele tomara o avião, sempre à disposição dele, no campo de pouso do cartel para visitar mulher e filhos em Cartagena. Como utilizava aviões moderníssimos de fabricação norte-americana e jatos usados pela Força Aérea da Colômbia quase ninguém suspeitava que ele quase nunca deixava a cidade. Vivia entocado. Aprofundava cada vez mais sua cova de dólares e ouro maciço, de tal forma que, de sua mansão até o campo de pouso mais próximo, já havia um túnel por onde escoavam as mercadorias. Mas isso era pouco: a densidade do município elevava.

As exigências do narcocorretor para quem, aparentemente, assumira o poder municipal alcançavam o descalabro: obras de saneamento estavam proibidas. Elas representavam uma grave ameaça aos túneis do Gómez. O armazenamento dos produtos tornou-se fundamental depois da passagem de Dom Tomazo Buscetta. Gómez ganhou vários presentes do narco-mor. Além dos beijos sicilianos, conselhos para a expansão dos negócios no continente. Os investimentos em educação e saúde passaram a ser prioridade do governo altamirense. Logo logo a mão-obra se especializaria. No subsolo, erguia-se uma cidade, com seus trabalhadores, maquinarias, laboratórios.

Gómez consolida como anfitrião largos investimentos na narcomodernização. A performance crescente do setor buscava mais simpatia dos grandes empresários dos Estados Unidos, Itália, Inglaterra, França. Os mercados asiáticos eram um exemplo e ameaçavam o gigantismo da América e da Europa. Ou este lado do centro produtor mundial de drogas se expandiria a uma taxa superior a 10 por cento ao ano ou seria tragado pelos concorrentes. 

Gómez jamais se vangloriaria das vantagens auferidas com a passagem de Dom Tomazo por poucos minutos no seu aeroporto particular. Mas seu sentimento de expansão de poder extrapolou de tal forma diante da certeza de que  jogava no campo certo dos narcointeresses internacionais a ponto de compelí-lo a tomar  duas providencias: transferiria a João da Pousada seus contatos na área da pistolagem, em substituição a Severino, e que emprestaria nova roupagem e investiria no patrocínio de festas populares.

 

    

                                           * * *

 

         O controle das jazidas de ouro através da Still Company e sua intermediária inglesa, a Britanic Inc., coloca Gómez no centro da conexão do poder econômico e político mundial, a soma dos herdeiros dos herdeiros de compradores de territórios britânicos anexados dos Estados Unidos antes da Guerra da Independência norte-americana de 1776, e herdeiros de herdeiros vendedoras das colônias britânicas infiltrados na corte inglesa e novos donos do poder no continente sul-americano e central.

         Gomez delirava em silêncio...




















Reinaldo Cabral é alagoano de Maceió, onde mora, jornalista, contista, romancista, ensaísta, cronista, autor de Desaparecidos Políticos(reportagens e artigos em parceria com Ronaldo Lapa), Proibido(contos), Matadouro Humano(romance), Promessas do Ditador(romance), Violência Política e Corrupção(reportagens e ensaios,com parceria com Mário Augusto Jacobskind), Literatura e Poder pós-64(ensaios e reportagens),todos esgotados, e tem três originais inéditos:Ainda seremos felizes(romance), Primeiro Amor(romance juvenil) e Caminhos curtos(contos); ex-repórter do Jornal do Brasil e ex-comentarista de economia da Folha de S. Paulo, onde trabalhou na década de 70. Narcobenfeitor de Altamira é um capítulo do romance Ainda seremos felizes. É dirigente de movimentos sociais urbanos. E-mail: reinaldocabral@hotmail.com
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