Café Literário Cronópios











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por Letícia Palmeira




Für Elise com bolachas
por Aleksandro Costa







 
16/2/2008 16:10:00
Procedimentos



Por Claudio Parreira


 

Não quero descer agora, mas sei que é preciso. Porque já faz dois dias que ele está lá embaixo, à espera. E não é à toa: tudo isso já foi escrito, está nas cartas, faz parte do procedimento. Sabemos, eu e ele. Não é por acaso, portanto, a sua cara de descontentamento, que eu percebo tão bem daqui. E ele tem razão: há séculos cumprimos o procedimento dentro da mais estrita ordem, o nosso trabalho se assemelha mesmo ao de um relógio. Mas algo, percebi, saiu do lugar. Essa minha sensação incômoda. Se eu não desço ele não sobe, simples assim. E aí a coisa toda não funciona. Como agora, talvez, agora que eu não quero descer. Se ao menos eu soubesse... mas é apenas essa sensação. O súbito perceber que algo está fora dos trilhos. Sei apenas que existem outros, mas isso não me foi dado conhecer. Soube apenas, senti; então eles vieram e chamaram de intuição o meu sentimento. E bateram em mim, muito, porque era proibido. E riscaram da minha língua a intuição. E o sentimento. Esqueceram que essas coisas se escondem em outros lugares menos prováveis. Ou talvez careçam eles mesmos de intuição e sentimento. Mas nem isso, posto assim, atenua: o procedimento é uma máquina de pedra, dentes que cospem resultados. Agora que não quero descer o procedimento é um tronco entalado na garganta. Deles. E na minha também. Porque daqui de cima o que vejo primeiro é a pressa nos olhos dele, uma raiva silenciosa. Haverá por trás disso alguma ternura? Dei agora pra pensar nessas palavras, ternura, intuição, sentimento, palavras que brotam nos meus lábios, indiferentes aos meus esforços por contê-las. Mas contê-las pra que, por que, pra quem? O procedimento é um tambor quase inaudível quando cumprido. Quando alguém sai da linha começa a pulsar nos ouvidos, tum, tum, até explodir em verdadeiras pancadas. Sei porque já vi. Numa desatenção dos outros eu vi homens esmurrando a parede, suas cabeças explodindo, o tambor cumprindo o seu papel. O tambor, é claro, também segue o seu procedimento. Só não me foi dada ainda a oportunidade de ver tambores explodindo, embora ache possível. Essas coisas ditas assim parecem inofensivas, não oferecem perigo. Mentira. Eu corro perigo, e nos olhos dele, que está lá embaixo e impedido de cumprir o procedimento, o perigo sou eu. Ele deve pensar: melhor cumprir o procedimento sem perguntas, sem questionar, afinal quem sou eu para lutar contra aqueles que tão bem instituíram o procedimento que funciona desde sempre? Ele certamente não se deixa perturbar por questões tão urgentes. Ainda não adoeceu como eu, sim, porque sofro agora de uma doença, só pode ser, o sentimento brotando dos meus lábios como flores de sombra e luz. Em breve o tambor nos meus ouvidos, tum, TUM, mais alto, a minha cabeça contra a parede e depois mais nada, o vazio silencioso. Dois dias, já. Eu sei, ele sabe. Os outros certamente já sabem também. Só não entendi ainda por que é que não tomaram nenhuma providência. Estão me testando, acho, querem saber até onde eu sou capaz de chegar. Ao ver os olhos dele lá embaixo, no entanto, só me resta fazer cumprir o procedimento: não quero descer agora mas vou, a ternura, porra, nossos olhares se cruzam no caminho, seus olhos são um misto de alívio e agradecimento, obrigado obrigado, foi mesmo o melhor a fazer, fiquei com medo de que você tivesse enlouquecido. Não, não, eu não enlouqueci, apenas senti, ousei, fui mais longe do que todos vocês, a liberdade, ah!, a liberdade, a liberdade TUM!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 










 

Claudio Parreira é escritor e chargista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Mantém na Internet o BLOG PPC!www.blogppc.blogger.com.br

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