Parece que Zacharias tropeçou na calçada, antes de ser colhido em cheio pela Kombi. Vinha a Kombi ladeira abaixo feito um embrulho solto, num baticum sem ritmo, andamento desenfreado, rouco timbre, espirrando o que estivesse na frente, esgarçando o caminho dos outros carros, tentando desvios, até alcançar a calçada, fugir do poste, voltar à rua, dar com outro carro e reassumir a mesma calçada um tiquinho adiante, bem onde, assustado com o escarcéu, Zacharias tropeçava. Seguia a Kombi parece que com a intenção primária de encontrar Zacharias. Pois só então parou.
Zacharias, a bem da verdade, não caía: era lançado, arremetido pacote de ossos e nervos por uma força oposta à sua e maior.
Nos estertores da agonia, ainda assistiu contra a vontade ao tal filme do fim para o começo, o fio inverso da sua vida. Viu, ouviu, entreviu figuras tantas que tinham feito conjunto com ele naquele coral desencontrado do seu tempo de respiração pelos pulmões. Depois, sentiu-se corda de violão solta do pinho sem quem prender ou tocar. Sem jeito de ficar, saiu da vida como entrou: com um berro e sem saber por onde.
Acordou noite alta do quinto dia depois, para espanto seu, que tinha como última lembrança um acidente à luz do sol. Estranhou a ausência da Kombi e a distração dos gatos-pingados que passavam por lá, dessabidos dele e de desastres. E, lembrado dos maus-tratos sofridos por força dos encontrões daquela lataria tresloucada, achou de examinar seus ferimentos. Dor, nenhuma. Fraturas, mau-jeito, escoriações, hematomas... Que diabo! Não tinha corpo! Olhou para baixo, para os lados, para cima, para a frente, para trás, vendo sempre o mesmo tudo-nada e não se achando. Procurou a proximidade de uma lâmpada: não se via. Onde caíra não estava. Onde estava não se enxergava. Sentia-se. Havia o medo, mas não a materialização dele: nada batia em seu peito ausente. Ele era o medo, a confusão, a alucinação. Mas não conhecia ser daquele jeito.
Então saiu à procura do corpo.
Chegou em casa nas ondas do frio. Não tinha vindo mas chegava, pois seu corpo inteiro era um membro amputado. Movia-se como quem grita em pesadelo, existindo sem viver.
Era uma daquelas noites de determinados (não se sabe por quem) dias de vaga-lumes. Que voejavam por ele, iluminando-se, enquanto ele achava a casa na curva, à beira de baixadas em morro, de onde, a perder de vista, se via um pedaço abarrotado de cidade.
Sem abrir a porta entrou e sem vaga-lumes para enxergar viu que Zulmira jazia de bruços no leito do casal, perna direita dobrada, cara afundada no travesseiro, boca aberta, babando. Entre as coxas roliças, morenas, uma nesga de calcinha branca. Ao lado, ninguém. A esperança de se encontrar deitado corpo ao lado do corpo da mulher morria ali. Debaixo da cama, nos armários, sobre os móveis, nem sombra de si. Só no banheiro, dentro do armário, ressequido e retorcido como espiga de milho enfezada, o pincel de barba, o seu exclusivo e incompartilhado pincel, confirmava que um dia o corpo dele se havia demorado na frente daquele espelho.
Então resolveu se deixar esperar o amanhecer, esperar aparecer, quando, quem sabe, da boca de Zulmira sairia alguma palavra que lhe servisse de pista sobre o destino de seu corpo. E no tempo que passou ali teve mais nítida uma impressão que já vinha vindo com ele desde algumas horas: era a impressão de só ser. Percebia-se sendo aquela casa, aquelas coisas, sendo até aquela viúva rotunda que ressonava naquela cama. Um ser sem limite ou precisão, um ser doído e doido, um ser sonhado, pouca coisa enfim.
O dia acordou, Zulmira com ele, mas tudo em silêncio. Zulmira atravessa a manhã na reinação do almoço, sem abrir a boca, como num filme mudo e sem graça que naquela cozinha se projeta desde sempre. Vai e vem com aquele corpo rechonchudo e moreno, há anos pesandoum pouco mais a cada mês, barriga persistente roçando o fogão
4.
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com força, pernas a se esticarem para alcançar as panelas do fundo, músculos flácidos dos braços balançando, acudindo o óleo dos refogados que arrotam raivosos de dentro das panelas: tudo barulhento, tudo mudo, tudo ele. Entra Zuel, filho que vai todo dia lá comer.
O almoço é sorumbático, coisa de quem engole quase dormindo.
Só na sobremesa da laranja, um ensaio de conversa. Nas palavras dos dois, nenhuma vez seu nome. Falam, mas os assuntos são só o velho Antônio vendedor de bilhetes de loteria, o cachorro que definha a olhos vistos, asproezas da Diana, piranha mais assanhada nunca se viu, o emprego que podia ser melhor... Zuel solta um arroto e se espreguiça inteiro, gesto seu que Zacharias mais odeia. Ódio que aflora vindo de um fundo invisível preenchido das lembranças todas de uma vida de desavenças, choques e encontrões com aquele rebento indesejado que lhe rouba a mulher na pessoa da mãe... Zacharias não se agüenta, pensa morrer de tanto ódio e resolve sair daquele lugar onde já não cabe enquanto entra Zuleide, vizinha tantas vezes enxotada. Sai Zacharias, sai.
E dentro da carcaça infinitamente ausente chora a raiva de se saber não-acatado, sumido de-com seus objetos, nome não-ressoante naquela casa, nem-lembrança-mais, não-morador perene sequer da memória do gato que agora se lambe ele no sofá da sala.
Mas em que buraco enfermo teria sido enterrado seu corpo, por quantas horas teria jazido naquela calçada, na mesa de um necrotério, na de um velório, quantos e quais amigos teriam chorado sobre ele?
Tudo isso pensa saindo. E, saindo, se lembra sem saber por quê do assombro de gritos que rodava pela casa uns quantos anos atrás, na idade presente-passada daquelas crianças que agora têm vinte e tantos anos, crianças que Zacharias tinha feito com Zulmira, entre gemidos abafados de prazer. Um deles Zuel. E, lembrando, vive o pré-ex-futuro que de fato o tempo sempre é sendo, mas não se diz, e, recordando o tempo que esteve lá dentro, ainda agora já, é o prazer dentro de Zulmira, é no fogão uma panela de batatas, é o pingo da torneira a pingar-se vezes e vezes infinitas, é a cidade toda, enquanto deseja e consegue a custo deixar de ser a casa, estando lá sem estar e sem saber se existe, ou se existir é um verbo que designa um não-fato.
Era uma infinitude que apertava como sapato de pé crescido. Não a queria. Não concebia ser aquilo. Não concebia ser um ser sem a prosaica manifestação de um nariz, uma unha, um gosto da própria saliva. E, não se concebendo assim, agarrou-se ao nada e se encolheu, encolheu, encolheu, virando-se infinitamente num avesso contraído do que era, até se sentir ponto entrado em si, infinito unidimensional que continuava tentando, querendo, deixar-se morrer.
Ivone C. Benedetti nasceu em São Paulo. Fez Letras na USP, lecionou, deixou de lecionar e, depois de algumas peripécias, passou a traduzir em 1987. Fez doutorado em literatura francesa pela USP, tradução de poesia medieval (Charles d’Orléans). Obras publicadas sobre língua e tradução: Dicionário Martins Fontes Italiano-Português (Martins Fontes, São Paulo, 2003), A arte da conjugação dos verbos em português (Martins Fontes, São Paulo, 2004), org. e prefácio de Conversas com tradutores (Parábola, 2003). Para contatar Ivone, clique aqui.
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