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22/4/2008 19:05:00
Nós, e os Manuéis



Por Dóris Fleury



... e depois de tudo eles vão para casa, ressentidos é lógico; um pouco de ressentimento sempre fica nas almas de estatueta desses pobres Manóeis. Antes de chegarem em casa seu ressentimento já se transformou em raiva, emoção que não combina com ônibus lotados dirigidos por motoristas aventureiros, pois no auge da sua raiva os Manuéis são arremessados de um lado pro outro feito projéteis otários, até caírem no colo de velhinhas enfezadas que os olham feio e às quais eles pedem desculpas abjetas, pois nada amedronta tanto os Manuéis quanto uma velhinha de maus bofes. E ao chegarem em casa eles estarão furiosos, mas é muito tarde, amanhã é dia de branco, e como vocês já devem desconfiar, nossos Manuéis precisam trabalhar. Abrirão a geladeira e nada encontrarão para comer, no máximo um pedaço de queijo duro ou uma cebola abandonada; pois uma das provações da vida de um Manuel é nunca ter tempo nem dinheiro para fazer um supermercado decente, e assim sobrevivem de coxinhas e sanduíches de pernil duro, e da eterna salada de alface com tomate do restaurante de quilo perto do serviço. E se um dia os Manuéis morressem e fossem pro céu a primeira coisa que solicitariam ao Criador seria a felicidade de nunca mais ver a salada de alface e tomate. Ao que o Criador responderia, vou pensar no caso, já imaginando o que fazer com aquela montanha de alface e tomate que adquiriu no Carrefour celestial, como provisão para a chegada dos Manuéis a um plano superior. É possível até que a salada maldita continue perseguindo os Manuéis na eternidade. Mas esse assunto não nos interessa. Os Manuéis roerão um naco de parmesão endurecido e irão dormir exaustos porém não conformados. Quando acordarem no dia seguinte a primeira coisa de que se lembrarão é do insulto que lhes infligimos, e de como algum dia pretendem se vingar de nós; mal responderão às suas esposas que lhes desejam bom-dia. O que? Acharam que os Manuéis fossem solteiros? De onde vocês tiraram isso? de forma alguma, os Manuéis são casados, depois de anos de economia pra dar a entrada nas prestações dos apartamentinhos merrecas onde atualmente residem, e para que sua noiva pudesse comprar um vestidinho cafona na Rua São Caetano, e convidar todos os seus parentes insuportáveis para a festa de casamento. Festa de casamento à qual aliás não comparecemos, inventamos desculpas furadíssimas, visivelmente falsas, sequer nos demos ao trabalho de contarmos uma mentira jeitosa.

(Inclusive o estado civil dos Manuéis é importante para essa história).

E lá se vão os Menuéis, desculpe, Manuéis para o trabalho, malditos erros de digitação! mas temos mais o que fazer além de corrigir os nomes desses sujeitinhos. Não dispomos de muito tempo para contar essa história, vários afazeres importantes e vitais para a segurança e o bem-estar da nação nos esperam, inclusive a maldita dor na coluna piorou muito, depois que sentamos em frente ao computador, e a culpa é toda dos Manuéis, ou Menuéis, se preferirem e acharem que o nome assim soa melhor.

Não vamos entediá-los com a narrativa aborrecida de como os Manuéis pegarão seu ônibus, ou de como chegarão ao seu empreguinho precário e chulé em alguma dessas lojas populares. E já chegarão uniformizados com gravatinhas de dez reais, e passarão o dia se esforçando honestamente para vender artigos de segunda a perder de vista para uns manés que não têm onde cair mortos. (E para que ninguém nos acuse de menosprezar os Manuéis, devemos apontar que eles se situam um patamar acima de seus clientes; já que, na hora em que lhes apetecer caírem mortos, só precisam pegar o ônibus Vila Desgraça que os leva ao bairro distante onde conseguiram comprar o apartamentinho, e lá efetuarem seu óbito. Ao contrário de seus fregueses que não dispõem nem mesmo desse duvidoso privilégio). Não vamos contar detalhes da deprimente bronca que os Manuéis levarão dos seus chefes, os quais têm apartamentos um pouco maiores para caírem mortos; e os quais também consideram uma política sábia de Recursos Humanos dar um esporro diário em seus empregados, para que eles adquiram a percepção, aliás muito correta, de que são todos uns merdas.

E merda não pede aumento.

Mas nada disso será objeto de nossa narrativa. Entretanto, podemos assegurar que, lá pela uma da tarde, quando os Manuéis estarão sentados no Mac Donald, procurando escapar pelo menos por um dia da deprimente rotina do alface e tomate, nós apareceremos à sua frente, ou seja, à frente deles, maldito pronome possessivo da terceira pessoa que só nos dá problemas.

Por essa, nem vocês, nem os Manuéis esperavam! vocês, porque, distraídos, e sem notar alguns pormenores essenciais do texto, achavam que éramos apenas autores e não personagens; e os Manuéis, porque acharam que, depois do mico que tinham pago no dia anterior, estavam livres de nós pelo menos por uns tempos. Doce ilusão: de vocês, e dos Manuéis. Pois nós, que somos desembaraçados, elegantes, cheiramos a uma boa colônia, e usamos gravatas que custaram MUITO MAIS que dez reais, nos sentaremos, cheios de picardia, em frente aos pobres Manuéis... bem que estamos tentando não usar muito esse adjetivo, pobres, mas não tem jeito, já é a segunda vez que ele volta.

Os Manuéis  são pobres mesmo, fazer o quê? não seremos nós a faltarmos com a verdade.

Antes que eles tenham tempo de se retirarem indignados, de começarem uma briga, de pedirem explicações, já estaremos comendo seu Big Mac e falando pelos cotovelos, pois a vida, essa roleta sem justiça, nos deu muito mais desembaraço e cara-de-pau do que aos Manuéis, e em poucos segundos faremos suas queixas parecerem tão importantes quanto o choramingar de uma criança remelenta. E antes que lambamos a última gotinha de maionese do Big Mac já teremos convencidos os Manuéis de que na verdade somos seus amigos mais dedicados, e que um tesouro de afeição fraternal por estes seres (os Manuéis) habita nossos peitos bem-nutridos e peludos. Chegaremos ao ponto em que os Manuéis se convencerão de sua imensa sorte em ter nos conhecido. É comovente. Mas nesse mesmo momento nos levantaremos de um salto, olharemos nossos Rolex e sairemos apressados para compromissos extremamente sérios e importantes, cuja complexidade sesquipedal Manoel no mundo jamais poderia entender. Antes de sair, entretanto, prometemos pegar os Manuéis às seis da tarde, nos pontos-de-ônibus onde eles aguardam os coletivos para Vila Desgraça, e bondosamente dar-lhes uma carona para suas residências, para desfrutarmos do jantarzinho de sua esposa para o qual nos convidaram. Convidamos quando? perguntarão os Manuéis, perplexos, mas é tarde demais, já zarpamos do Mac Donald.

Pelo sim pelo não os Manuéis telefonarão aflitos para o trabalho de sua esposa, que reagirá irritadamente à perspectiva de fazer jantar para os amigos do marido, quando chegar em casa à noite, cansada do trabalho. É justo, ponham-se no lugar dela. Mas depois de muito resmungar elas acabará concordando.

Ainda incrédulos os Manuéis nos esperarão no ponto-de-ônibus, e não é que de fato apareceremos, em nossos importados do ano. E é claro que os Manuéis apreciarão a viagem até suas casas sentados na poltrona de couro daquele carro de luxo, embora se sintam talvez um pouco envergonhados com a distância que separa o Centro do seu bairro modesto, e do bairro modesto em si. Mas fingiremos não reparar e até faremos alguns comentários gentis sobre a proximidade do metrô e o trânsito satisfatório.

Subiremos dez andares encaixotados num elevador minúsculo ao lado dos Manuéis, falando com nossas vozes ricas e aveludadas de barítonos sobre o Campeonato Nacional e marcas de cerveja, enfim, assuntos que os Manuéis, com sua reduzida inteligência, possam acompanhar. Quando a porta se abrir e formos atendidos pela esposa dos Manuéis, seremos forçado a admitir intimamente que bom-gosto não falta aos Manuéis, que casaram com uma morena da cor de jambo, com lábios voluptuosos e belas pernas, bem no modelo que apreciamos para as nossas horas de lazer.

Enquanto a esposa dos Manuéis pede desculpas pela exigüidade e pobreza do cardápio, e o cheiro delicioso desmente suas palavras, constataremos, já na primeira olhada profunda, que fizemos uma boa impressão. Durante o jantar falaremos sem parar, reservando aos Manuéis algumas falas apenas confirmatórias. Ou, para usar um termo teatral: os Manuéis, naquele contexto de estrogonofe com batata palha e torta de limão, deverão funcionar apenas como “escada” para o nosso talento deslumbratório. Pois sem cair jamais na vulgaridade contaremos várias proezas de juventude, mencionafdmos de passagem algumas conquistas materiais, discorreremos extensamente sobre viagens a pontos turísticos mundialmente conhecidos, e a dona da casa ficará realmente impressionada, e sorrirá um sorriso encantador, já animada pela cerveja que acompanha o seu almoço. Refeição inclusive que se revelará bem razoável, mesmo para o nosso refinado e exigente paladar.

E por falar em torta de limão, no momento em que afundamos nosso garfo na primeira camada da guloseima, antes que cheguemos à camada amarela que mescla a doçura do leite condensado com a acidez da fruta, o interfone tocará. E enquanto eu troco olhares magnéticos com a morena, o porteiro reclamará com os Manuéis do meu importado, que fiz questão absoluta de deixar em frente à garagem. E já sabendo que eles jamais resistirão à tentação de dirigir um carro como o nosso, atiraremos, com ar displiscente, a chave do carro para os Manuéis, e pediremos encarecidamente que os estacione em outro lugar, que eles não encontrarão a menos de umas duas quadras. Saberemos também que isso (a porta que bate, o elevador que vem subindo, o elevador que vai descendo, os sorrisos que se misturam) é mais que suficiente para alguns amassos na morena; talvez até mais, se o sistema de segurança cortar logo o combustível. O que representará, sem dúvida, uma ótima oportunidade para aumentar a intimidade e a proximidade com a Família Manuel.

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dóris Fleury é escritora, tradutora e revisora . Lançou o romance Troquei meu destino por qualquer acaso, editora Planetário e, acaba de sair,  A maldição das cadeira de plástico. Escrevinha no site www.escrevinhadora.com.br e no blog, www.aturmadagroselha.blogspot.com.
E-mail:
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