Café Literário Cronópios











Humor e poesia num livro de Julio Cortázar: Histórias de cronópios e de famas
por Márcio Almeida






 

Monólogo da velha apresentadora
por Marcelo Mirisola




Maria Suástica
por Tetê Martins




Atos atávicos
por Ercilene Vita




SCAR
por Milena Martins




Último encontro
por Paulo Mohylovski




Poeira branca
por Cláudio Feldman




Aprendizado
por Cecília Prada




A morte e o sapateiro
por Márcia Barbieri




O moço tecelão
por Cláudio Costa




A memória dos seres inanimados
por Severo Brudzinski




O aparelho
por Letícia Palmeira




Für Elise com bolachas
por Aleksandro Costa







 
20/7/2008 14:44:00
Dia



Por Jefferson Alves de Lima

Eu comecei escrevendo essa história de maneiras muito diferentes nos últimos seis anos. Nenhuma delas, naturalmente, me interessou. Claro que – dentro de um período de tempo infinitamente menor - isso já havia acontecido com outras histórias. Mas também parece claro que todas elas (não é isso um romance inacabado?) terminaram me levando a desistir de uma coisa que não encontrava forma.

 

Mas não essa. Por um motivo que vocês logo saberão, essa continuou, insistentemente, ocupando-me. E isso de um tal modo que - como nestas lendas sobre histórias que nos desabam num único fôlego - ela terminou desfilando inteira à minha frente, bastando, mesmo, apenas concentração e calma para fixá-la na página.

 

Até então eu não percebia com clareza que era, justamente, o fato de partir de uma cena real o que me mantinha terrivelmente preso a ela. Talvez seja isso o que um autor como Jung chamava de “histórias que precisamos contar”, histórias que para ele pareciam não pertencer apenas a nós, que as escrevemos. Talvez. De qualquer modo, segue-a como me apareceu agora, depois destes anos. Espero conseguir dividir com vocês a mesma impressão que me causou.

 

J.A.L.

São Paulo, julho de 2008.

 

 

 

**

No dia 13 de dezembro do ano de dois mil e dois eu percebi uma rugosidade bastante incomum logo abaixo do meu queixo.

 

Parado em frente ao espelho, e com pouquíssimos segundos de investigação, eu retirava meu rosto da cabeça como a um plástico, deixando apenas diante de meus olhos uma imagem crua, horrenda e em carne viva.

 

De imediato, por curioso que pareça, aquilo me divertiu. Eu via tanto no tecido mole e viscoso caído no chão do banheiro quanto na imagem vermelha e gordurosa refletida no espelho um grande ar cômico.

 

Logo passei, dessa forma, a agitar-me diante do espelho como se meu rosto ainda estivesse ali e, instantaneamente, pensei em procurar minha mulher para observar a sua surpresa diante daquela situação – sem dúvida alguma - incrível.

 

Desci até a sala e encontrei minha mulher atirada no sofá escutando a televisão enquanto folheava alguma revista. Comentei qualquer coisa sem importância sobre as crianças que brincavam no chão da sala, esperando que ela levantasse os olhos e descobrisse, por si própria, a nova surpresa. Mas, ela ainda deitada, respondeu-me sem se virar.

 

Como as crianças começavam já a gritar e a chorar enquanto me olhavam, ela levantou-se assustada. Neste momento, eu próprio já estava bastante assustado e todo o torpor que uma situação como essa poderia provocar desmoronou, então, sobre mim.

 

Ela me olhava e gritava, tomada de horror, enquanto puxava as duas crianças para perto de seu corpo. Eu não sabia o que fazer. Queria socorrer as crianças e a ela que choravam desesperadamente e contar o que acabava de acontecer. Mas, atirado no súbito pavor que me atacava até o mal-estar, comecei a vomitar sobre minhas roupas enquanto procurava minha boca com as mãos. 

 

Entre os gritos que cresciam com violência e a náusea que queimava meus nervos, voltei para a escada e avancei pelos degraus, já quase sem os sentidos, até que, mal cheguei ao banheiro, desmaiei.

 

Acordei já com o banheiro completamente escuro. Ainda sentido-me muito fraco, escorreguei a mão pela parede até o interruptor. A luz feriu-me a vista mas bastou-me acostumar à claridade para reconhecer meu rosto atirado próximo ao vaso.

 

Com os dedos trêmulos, ajustei a pele pouco a pouco sobre a carne viva. Saí em direção ao quarto, desci novamente até a sala e descobri que minha mulher e as crianças não estavam dormindo em casa. Voltei até o quarto e vi que o relógio marcava, em seus números vermelhos, já quase três horas da manhã.

 

No dia seguinte, dia 14 de dezembro, procurei por minha mulher e pelas crianças e, já mais calmo, contei o que havia acontecido. Juntos, decidimos que era melhor não procurarmos por pontos de cicatrização ou marcas incomuns em meu rosto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jefferson Alves de Lima, 33, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e ainda acha que o problema - de verdade - é decalcar as palavras da abundância, já que, pelo que parece, o silêncio, o escuro, o tempo, o azul, o amarelo e o vermelho ainda não sabem das palavras. Escreve pelo blog www.aplenospulmoesss.zip.net  

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