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17/8/2008 09:22:00
Boas novas



Por Vera Helena Rossi



 

Ela só precisava de um empurrãozinho. Sem muita força. Apenas um empurrãozinho. “Ah”. Só mais um pouquinho. “Ah”. Feito. A caixa estava no canto da sala. Escondida. Sentou-se um pouco para descansar as costas. Era segunda-feira. Sua enfermeira chegaria naquela manhã, pela cozinha, e não poderia ver a novidade tão depressa. Antes teria tempo a se acostumar com algo que não cheirasse a passado.

         Dona Fina sempre quis ter um gato, mas, somente naquele dia descobriu que poderia ter um de fato. Na realidade, dois, pequenos, um preto e outro branco. Acomodados na caixa, ao canto da sala. A miarem à exaustão. “Calados, bichanos, que Cicil descobre vocês!”, disse em uma voz ressequida.

Amarrou com mais força a camisola preta, enquanto se levantava. Ajeitou a franja caída de seu cabelo ralo e procurou enganar sua ansiedade pelos gatos com um pedaço de pão. Tentou molhar o pão no café com leite, mas o cheiro da bebida estava felino demais. Mastigou seu café da manhã seco mesmo. “Mas que se ela descobre! Minha Nossa Senhora, não quero nem pensar”

Circulou pela casa fingindo-se despreocupada. Como se os gatos não estivessem lá. Às vezes, jogava alguns olhares oblíquos a eles, como se a lhes dizer que não se sentissem desprezados, era apenas um truque, a fim de enganar a enfermeira.

“Que diabos! Nove horas e nada dela!”

 A enfermeira chegaria às dez. Mas, àquela altura, nove horas da manhã já era tarde. Ligou a televisão. Adorava mudar os canais pelo controle remoto. Na realidade, não gostava dos programas matutinos. Preferia experimentar emoções mais fortes com novelas e filmes de terror.  

A sacolinha de crochê ao lado do aparelho a lembrá-la que gatos brincam com novelos de lã. “Bichanos, aqui está. Para vocês brincarem, meus filhos.” Realizou-se com a diversão dos gatos. Entretanto, preferiu voltar sua atenção à receita de brevidades ensinada pela apresentadora loura. “Mas que se ela chega.”

O fio se desembaraçava levemente das garras dos gatinhos, que o puxavam novamente para perto de si, a se parecerem o ioiô de Dona Fina. “Mas que se ela descobre.” Sorriu satisfeita com seu novo segredo. Sua pequenina aventura estava bem guardada. Os gatinhos nada iriam falar a Cicil. Precisavam apenas parar de miar. “Shhh. Quietos”.

Abriu um terceiro sorriso arteiro naquela manhã. Agora tinha um segredo. “Hihihi” Quem mais de suas amigas tinha um mistério guardado em uma caixa? Ermengarda Cunha? Imagine! Aquela lá... Além do reumatismo, nenhuma novidade a contar. Naquela hora estaria tomando seu remédio e reclamando da artrite. Sem boas novas. Um certo ar de superioridade conduziu seus passos à cozinha. Espiou o relógio. “Nove e meia. Nada de Cicil”. Teve raiva da Cicil, a perpetuar sua ansiedade. Como se não bastasse, ainda fazê-la esperar. Tem graça! Cuspiu na pia.

Insopitável, odiou a enfermeira. A doce e redonda Cicil. A proibi-la de qualquer alegria em sua vida. Eram apenas gatinhos, por Deus do céu. E ela. Com seu silêncio algoz. A recriminá-la por ter alguma alegria em sua vida. Por Deus do céu. Eram apenas gatinhos.

Mas não. Cicil não queria. A censurá-la com sua muda recriminação ante as coisas que ajudassem uma pobre senhora idosa a ter alguma alegria na vida. Afe, que ela odeia os velhos. A lhes sorrir cruelmente calada. Por acaso saberia ela o que é sofrer de reumatismo? Não, ela nem sabe o que é reumatismo.

Um dia, enquanto estivesse dormindo, Cicil entraria quieta no quarto e a mataria. Sem piedade. “Um dia!”, olhou para o relógio, hesitando entre a raiva e o medo. Cicil entraria sorrateiramente no quarto, e a sufocaria com a almofada. Sem piedade. 

“Preciso me defender”. Procurou por uma pá, e com esta se manteve na espreita da porta. Mas, e os gatinhos? Seriam eles mortos também? Se alguém tem coragem de matar uma pobre idosa indefesa, imagine o que não fará com os pobrezinhos dos gatinhos!

Voltou à sala. Imprecisa, arrastou-se em direção aos gatinhos, com a pá junto ao corpo mole. Demoraria algum tempo para alcançá-los. “Meu reumatismo!” Sentou-se no sofá, exaurida e prostrada. “De nada adianta.” Ela morreria naquele dia, e os pobres gatinhos seriam brutalmente assassinados na encruzilhada. Coitadinhos!

Não. Ao menos eles precisavam ser salvos. Ela, nem tanto. Estava velha. Não fazia outra coisa senão esperar pela morte. Todos os dias. Mas, e eles? Pobrezinhos. “Se tivesse mais força nos braços.”                              

Ao menos, ela teria forças para contar aos policiais, que chegariam no dia posterior ao crime, o que acontecera. Mas, como!? Se estaria morta!? Oras, bastava escrever em uma carta o que aconteceria com ela e com os pobres gatinhos. “Qual o nome completo da Cicil?” Também precisava saber direitinho onde morava, para escrever no bilhete. Cuspiu no chão.

Os gatinhos continuavam a brincar com a lã, alheios ao desconfortável olhar de Dona Fina. “Coitadinhos, mal sabem o que vai acontecer com eles.” Quase chorou. “Não. Tenho que ser forte!” Triste, olhou para os gatos, confortáveis na felicidade gorda de serem filhotes. Por um certo momento, teve raiva deles. Enquanto se esforçava por salvá-los, eles sequer se importavam em agradecê-la. “Ingratos!”

Saberiam eles o que é passar pelo que ela passava? Todos os dias. A perder um pouco mais de vida, presa aos fios de cabelos brancos. A ver seus amigos morrerem. A presenciar a fugacidade do tempo, perene na pele flácida de seu corpo. A não mais se reconhecer no espelho. A sofrer com sua vida gasta. Não, eles desconheciam o sofrimento copioso de uma velha exaurível. Provavelmente ririam de sua cara, se soubessem rir! “Ah!”

Se soubessem, estariam a gozar de sua cara caída, quando estivesse distraída. Tentariam colar um cartaz escrito “Bata-me” em suas costas, quando estivesse distraída. Inevitavelmente, apontariam um chute daqueles, quando estivesse distraída. Inopinadamente, sentiria uma dor ardida, quando estivesse distraída.  

Endiabrados, os gatinhos continuavam a miar, e se arranhar sobre o fio de lã. “Ah!” A pá estava ao seu lado, como que pronta àquela ocasião. Precisava, num fôlego só, buscar forças. Eles, a se embolar no fio de lã. Dez horas. “Ai, que Cicil não chega” Por um momento, esqueceu o que faria com aquela pá.  “Ai que Cicil não chega!”

A porta da cozinha rangeu um barulinho de chave.

      Olá!

“Vai pro inferno!” resmungou.

      Dona Fina. Cheguei! Cadê você?

“Vai pro inferno”.

      Ah, você está aí.

      Vai pro inferno!

      Ah, estou vendo que está muito bem hoje!

Percebeu um som fino da caixa ao canto da sala. Aproximou-se um pouco mais, e lá estavam eles, os dois gatinhos, preto e branco, a brincar com um quase não mais fio de lã. 

      E esses gatinhos?

A enfermeira ternamente voltou-se para ela, em um carinho quase estéril. “E esses gatinhos?” Dona Fina arriscou um olhar afiado para os endiabrados.

— Como eles vieram parar aqui?

Não sabia. Queria uma resposta. Assim, como quem quer biscoito com chá. Mas, não tinha, oras bolas!

      Muito bonito, hein, moça! De quem são eles?

“Vai pro inferno, oras bolas!” Os gatos continuavam a miar sua condição de filhotes.

      Nossa, e essa pá? Pelo amor de Deus, Dona Fina. O que você ia fazer com esta pá? Não me diga que... Soltou a pá e colocou as mãos na cabeça, a se desesperar pela quase morte daqueles gatos.

“Vai pro inferno, oras bolas!”

A campainha tocou, cortando os prováveis sermões daquela insólita manhã.

     Pois não? Assustou-se Cicil, ao abrir a porta.

     É a Ermengarda Cunha, deixa ela entrar! Dona Fina sorriu sarcasticamente.

A pretensa convidada permaneceu estática. Lívida, flébil. A olhar seus dois filhotinhos, sumidos na noite anterior, brincando em uma caixa de sapato. Na sala velha de sua vizinha de porta.   

 

 

 

 

[Este conto ganhou menção honrosa no 3º Concurso Guemanisse de Contos e Poesias]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vera Helena Rossi é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC / SP e doutoranda em Comunicação e Semiótica também pela PUC - SP. Tem participações na Revista Língua Portuguesa (ver Carlos Drummond de Andrade, matéria capa da edição de setembro de 2007 e 80 anos de Macunaíma, matéria capa de abril de 2008). Escreve no blog Palimpsesto (http://verahelena.blogspot.com). E-mail: verossi@uol.com.br

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