Café Literário Cronópios





[16] Quando o pior cego quer ser visto
por Glauco Mattoso


 

O habitante das falhas subterrâneas - cap.6
por Ana Paula Maia




O habitante das falhas subterrâneas - cap.5
por Ana Paula Maia




Valentina e o laranja intenso
por Marcelo Mirisola




A lição do amarelo
por Álvaro Dias Cuba




O habitante das falhas subterrâneas - cap.4
por Ana Paula Maia




O meu primeiro roubo
por Mirtes Leal




Sobre a calçada
por William Lial




O habitante das falhas subterrâneas - cap.3
por Ana Paula Maia




O habitante das falhas subterrâneas - cap.2
por Ana Paula Maia




Conversa & Acerto
por Emília Barbès




O habitante das falhas subterrâneas - cap.1
por Ana Paula Maia




Inverossimius: um conto juvenil
por Roberto Barbato Jr




O jogo da velha. Contraponto de primeiríssima espécie
por Ivone C. Benedetti




A Estrela Solitária
por Sylvio Back




Céu aberto
por Eduardo Sabino




As mãos mirradas de Deus
por Márcia Barbieri




Das cavalidades
por Tamara Costa




O engraxate: milagre de Natal de uma infância pobre em Itararé
por Silas Corrêa Leite




Mulher na árvore
por Bárbara Lia




Pequenos delitos
por Rodrigo Novaes de Almeida







 
18/5/2009 10:10:00
Dois contos



Por Jeová Santana

 

SP, 2018


Me aproximei devagar e fui recebido por aquele sorriso que não me sai da memória. Fiz sinal de que estava tudo bem. Ela moveu um pouco os lábios, sobre os quais imaginei os beijos mais doidos. Catei umas palavras. Segurei sua mão e pensei no bem enorme que me faria um carinho nessa minha crosta. Tinha me aproximado o mais que pude de sua orelha. Afastei seus cabelos tão bonitos pra dizer: segura a onda, respira fundo, fica comigo esta noite. Você é a primeira mulher que me sorri desse jeito nos dez anos em que picoto os restos dos meus sonhos nessa cidade maluca. Tirei uns vidros moídos dentre suas pernas. Uns cd´s destroçados no piso. E o perfume, meu pai! Aos poucos, ela foi se esvaindo. Já nada mais podia ser feito. Por ter sido num cruzamento, rapidinho se formara uma fila de uns doze milhões. Os sons. As fúrias.  
   

(São Paulo, 7.3.2008)




                                                  *** 



TANTAS ÁGUAS


No começo era apenas um filetinho. Nosso pai, umas vizinhas e ela própria chegaram a um acordo de que as beberagens e infusões de seu Laurindo Rezador resolveriam o problema. Mas o tempo foi passando e nada. Quando aceitaram levá-la à cidade, já estava passado. Cada um de nós, meus irmãos e eu, passamos a nos revezar na troca das latinhas que depois foram aumentando de tamanho. Por esse tempo, ela deixou de caminhar. Ficava ali, pregada na cama, com o olhar penoso. Um dia, pai teve a idéia de criar um carro pra que ela pudesse ser removida pra fora. Ver o mundo, a luz do sol. Passou vários dias no oitão, às voltas com medições, martelos e serrotes. Ao final surgiu uma espécie de cama com rodeiras. O mais interessante é que ele criou uma manivela que permitia regular as posições. Ela tanto podia ficar deitada quanto sentada. Era só girar a manivela e seu tronco começava a subir. Um dia um homem passou por nossa casa e elogiou muito a criação de meu pai. Queria até levá-lo pra dar entrevista numa rádio da cidade. Meu pai não aceitou. Tinha feito aquilo não pra se promover, mas pra diminuir o sofrimento da mãe de seus filhos. Com o tempo, ela foi ficando mais gorda, o que aumentou a dificuldade em tirá-la da cama. O carrinho também começou a dar sinais de desgaste. Então começou a acabar a paciência de meu pai. Meus irmãos inventavam desculpas, já não queriam saber de escola, ficavam à toa, passavam o dia batendo pernas, caçando passarinhos, correndo atrás de bola. Apesar de ser mais pequeno, sempre ia pra casa, sempre estava por perto pra atender seus pedidos. Não conseguia fugir daquele olhar penoso. Quanto mais gorda ela ficava, mais água saía de suas pernas. Um dia meu pai anoiteceu e não amanheceu. Me marcou muito, pois foi num dia que choveu pra caramba. Água como nunca vimos por essas bandas. Não mais tivemos notícias dele. Por esse tempo, já mais taludo, tive que buscar uns serviços pra garantir nosso sustento. A escola ficou pra trás. Meus irmãos nem queriam mais saber de casa, o pouco que ganhavam nuns bicos, deixavam na farra, nas madrugadas em bares e puteiros da cidade. Depois também tomaram o destino de meu pai. Fiquei aqui, mas achando que também merecia seguir o destino deles. O mundo é grande, tanta coisa pra aprender. Se aparecesse quem tomasse conta dela. Hoje mesmo, mais uma vez, cheguei perto pra dizer, olha mãe já fiz a minha parte, preciso ir embora daqui. Tinha que dizer tudo isso sem olhar pra ela. O diabo é esse seu olhar penoso.


(São Paulo, 8.3..2008)  

 

 




 

Jeová Santana nasceu em Maruim, SE, em 1961. É graduado em Letras pela Universidade Federal de Sergipe, mestre me Teoria Literária pela Unicamp e doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUC/SP. É autor dos livros de contos Dentro da casca (1993), A ossatura (2002) e Inventário de ranhuras (2006). Participou da antologia Contos de algibeira (2007). Contatos: jeopoesi@bol.com.br

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