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O aparelho
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25/6/2009 00:14:00
Beco sem saída



Por Adérito Mazive


A jornada de Sónia havia, finalmente, chegado ao fim. Valera-lhe o mesmo de sempre, mas não devia queixar-se, sabia de cor o fim do seu trabalho: manter-se viva e palidar as incertezas tão certas que a acompanhavam ao longo da sua biografia. Então meteu-se no autocarro, e pôs-se logo a conversar qualquer coisa com uma mulher que se achava ao seu lado (provavelmente colega sua). A sua interlocutora colaborou vivamente. Talvez por medo daquela estrada que dava ao inferno: quanto mais se aproximavam do destino, menos luz havia e menos gente as acompanhava.

Mas chegaram. E Sónia pôde fugir das meditações em torno de seu ofício e de sua existência que fazia sempre que se achava sozinha e quando sentia que seus companheiros de viagem tinham a mesma cara que a sua, a de tristeza. “O convívio pode não resolver os problemas, mas os adia. E se calhar quando os reencontrarmos estaremos menos frágeis,” pensava.

E então estava na hora de ir para cama. Já não era longe. Andou uns poucos passos e deteve-se num portão. Os seus 1.60 de altura não bastavam para ver, por cima deste, o que acontecia no interior da casa. Mas pôde ver lâmpadas acesas e ouvir vozes de pessoas a conversar. Com destreza de ladrões experientes abriu o portão e dirigiu-se ao cubículo que estava no fundo do quintal da casa. Aqui é que era sua casa. Tirou, do ombro, a pesada bolsa e sentou-se no degrau da porta para apanhar um ar. Mas este estava frio, fustigando suas pernas desnudas e seus bracinhos. Levantou-se, às pressas, para reencontrar o conforto do seu lar (abafado por aquelas alturas), mas a porta abriu-se com facilidade e rapidez espantosas, sem precisar da chave. Assustou-se. E ficou largos segundos com medo de acender a lâmpada. Que seria?

Finalmente colocou a mão o interruptor. Não por coragem: não sentiu a cama que ficava mesmo na entrada. Acendeu aquela lâmpada que mais assombrava que iluminava para confirmar o facto. Não ousou emitir um som qualquer que exprimisse seu desespero. Quem é que o ouviria? Chorou para si mesma tudo que pode, em todas posições, até ver, num dos cantos do cubículo vazio, um papel sujo e amalfanhado, que não teria o convidado para seu pranto se não tivesse pensado no porquê de terem levado tudo e deixado somente aquilo. Arrastou-se até ele e leu: “desculpa-me, Sónia. Deixaste-me sem saída.”

O bilhete não a abalou. Havia carregado tanto peso, que custava acrescentar uns quilinhos? E ficou ali, calma, já sem chorar. Não a assustavam mais aquelas quatro paredes horrendas e aquele tecto decadente, pelo qual via as estrelas sem o brilho habitual. Elas eram ofuscadas pela cacimba e ela nunca se desembaraçara de suas coisas, as coisas da vida.

Ao amanhecer, dona Joana, a proprietária do cubículo e da casa grande, dirigiu-se aos fundos do seu quintal para cobrar mensalidades atrasadas. A sua paciência esgotara-se, estando decidida a expulsar a inquilina. Aliás, nenhuma das desculpas de Sónia a haviam convencido. “Como é que ela não pode me pagar se faz dinheiro todos dias,” pensava. Seus filhos a acompanharam, dispostos a intervir caso fosse necessário o uso de seus músculos. Mas aquele aparato era desnecessário. Encontraram Joana a flutuar, apoiada apenas por uma corda que partia do pescoço e terminava numa daquelas janelas altas e sem vidros.

Houve o habitual susto de quem vê, inesperadamente, um morto. Os filhos de dona Joana saíram sem sequer se preocupar em confirmar a dona do cadáver. Horrorizou-lhes aquele olhar de espanto e fixo no nada. Dona Joana, tentando entender qualquer coisa, viu o papel sujo e amalfanhado algures e, com medo do seu conteúdo, leu: “desculpa-me por fazer isto na sua casa. Não tive alternativa.”



                                                * * *


A estranha mania de Satani

Ninguém sabia, nem por alto, explicar a estranha mania de Satani de gostar de ver pessoas a morrer. Peritos de várias áreas não tiveram vergonha de declarar a sua pequenez diante do caso. Apenas dona Joana, uma mãe amorosa, parecia compreender o menino. “Meu filho não é um monstro.” Dizia ela para livrar o filho de iminentes linchamentos e para aumentar o indisfarçável ódio que os vizinhos e a cidade toda nutriam pelos dois. Mas não pôde protegê-lo para sempre, como prometera. Numa certa noite Satani teve mais uma de suas crises irremediáveis. A morte da vez era o enforcamento. E dona Joana, que era a única que o fazia companhia naquela casa gradeada, não ousou negar ou adiar o espectáculo que o filho queria ver e que não imaginara ter de o fazer. Satani deleitou-se com o dilema mortal em que a mãe estava: dona Joana tentava escolher entre livrar-se da corda grossa que, pressa ao lustre da sala, dilacerava-lhe e procurar o chão com os pés curtos e ansiosos. Optou pela segunda alternativa. Mas não para procurar chão algum, para apressar a ida ao céu.

Inspector Muday chegou tarde. Aliás, de outra forma não seria. Satani tinha a mania (mais uma) de desesperar-se, entrar em pânico, gritar histericamente quando visse o processo de morte concluído. Ele divertia-se com o processo, mas o abominava a morte em si. Por isso, às vezes, para evitar o deprimente after party dividia a autoria das mortes. Não precisava, por exemplo, contratar uma prostituta poder atingi-la as entranhas com uma faca de mesa, e passar a noite toda a assistir o ódio, o desespero, a incompreensão nos olhos da vítima. Podia simplesmente destruir a sinalização rodoviária para causas acidentes. E ser o transeunte solidário, disponível, que, por causa do choque, vai errando os números de emergência, acertando apenas depois de consumada a morte dos acidentados. Podia também invadir a sala de reanimação do hospital e desligar todas máquinas que lá se encontrassem. Para poder atingir o apogeu da satisfação, verdadeiros orgasmos múltiplos ao ver a vida a apartar-se daqueles corpos (ou a morte a instalar-se neles).

Mas o inspector Muday, ao ver o corpo pálido de dona Joana (ela fora sem ter tempo sequer para se vestir) e aquele olhar tranquilo (talvez ela pensara que fosse aquela a única solução), resolveu acabar com tudo. Aproveitou-se da tristeza e fragilidade de Satani decorrentes da morte de sua mãe e colocou-lhe no chá uma dessas drogas que dão sono.

* * *

Satani acordou antes da hora. Recebia ainda os primeiros centímetros da faca de mesa, quando abriu os olhos surpresos e confusos. Nada havia a fazer. Nem ao menos debater-se. Apressaria a entrada daquele objecto nada perfuro-cortante: os seus membros (superiores e inferiores) estavam presos a cada um dos cantos da sua cama. Impotente, olhou para o inspector com a mesma inquisição com que inúmeras vezes o haviam encarado. “Queres saber porquê?” Questionou Muday com um sorriso que desesperava Satani e o fazia lembrar dos seus momentos de deleite. “Seu menino mimado! Achas que és o único que tem essa estranha mania.” Disse, agora com um tom sério. “Sua mãe morreu. E não tenho mais ninguém com quem partilhar as consequências da tua irresponsabilidade. Bom… eu só lamento não poder partilhar este momento contigo. Tú sabes te divertir.” Concluiu o inspector desferindo mais um golpe frio, lento no peito do jovem.





 

Adérito Mazive nasceu em Moçambique, em 1984. É estudante de Sociologia. Esceve poesia e prosa há cerca de 10 anos, mas resolveu divulgadar seus textos apenas nos últimos meses, fazendo-o fundamentalmente por meio da internet.
E-mail:
meth_mz@hotmail.com   Blog: http://textosdomazive.blogspot.com
 

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