Nunca sei se aconteceu debaixo de um guarda-chuva ou dentro de um quarto, o caso é que os pingos não chegavam aos i’s. Acho que dentro de um quarto: lembro da sensação de que o mundo acaba na próxima parede – de que além dela há o nada ou o recomeço do quarto cuja repetição preenche o universo. Comendo letras, engasgando-as para não arriscar um silêncio tão cheio de expectativa, tentei me conter entredentes, mas explodia: sempre soube que ele iria embora - que esperava tão somente a chuva de pontos que enterrariam minhas expectativas.
Talvez estivéssemos numa sala; lembro do vento, gelado, deslizando sorrateiro em fresta, arrebatando a fumaça do chocolate quente só para colorir nossas bochechas… trazendo lembranças de outros vermelhos e ares. (Silenciávamos pelos cotovelos enquanto a garoa tentava chover). Ele deitou em meu ombro a orelha, como se esperasse ouvir em mim melhor a chuva: ou o que buscava? Que escapassem os segredos que guardo no oco dos meus ossos, escondidos no sorriso? Talvez mais de mim, um pouco mais: que meu toque lhe contasse segredos longínquos, desses que a gente só diz com a trovoada.
Deu-me um beijo – quase: senti resvalar o nariz e a profundeza de seus infinitos olhos me devorou como esfinge a propor enigmas temporais.
Na vitrola, tocava a tempestade; podíamos dançá-la: meus dedos-formigas-chuviscos caminharam até encontrar labirintos em cabelos. Senti que podia escorregar dedilhados no arqueando de suas costas por muitos instantes em tempos perdidos; o relógio, porém, é das criaturas mais infiéis e, embora eu quisesse acreditar que a chuva não tem prazos, só prazeres, ele precisava voltar (e eu não ouvia o relógio, pois a chuva corria mais alto que o tempo).
Arrisca em nosso toque, ponto em que nos encontramos: sinto faiscar a eternidade num ponto: tantas memórias que eu mesma desconheço abalando minha forma de conhecer; ali, sentia-o perto, porém sabia que não era ele, mas um entre, ponto em que nós nos misturávamos: inter-pelava-o: seria capaz de atingi-lo em profundidade? (Sentia-o em frestas de roupas, mas queria suas frestas e só podia o quase).
A chuva abranda: chuvisca, garoa: e eu, que faço dela?
Senti que poderia insistir num problema ainda atado em nó a devorar o nós, mas, em dias de chuva, as intenções derretem no rosto e escorrem para lamber o chão com água; e se na chuva nos desfizéssemos? E se no refazer um pouco dele em mim nele? – Ele, derramando os olhos, toma a mão que eu acarinhava para si e quase-diz, mas eu sussurro um olhar… Entrego-me num abraço: costumava dizer que eu era como música; que me perdoem os conectivos, mas estávamos no incindível: forma-conteúdo, corpo-alma, eu-ele: apenas um, coisa não só, como mãos que, dormentes, indistinguem-se; como quando, tomados por um sentir, somos todo ele e, se igualmente somos, fundimo-nos essencialmente…
(O tempo, às vezes, cai sobre nós em gotas; às vezes, desaba em tempestade).
Sheyla Smanioto Macedo, 19, graduanda em Estudos Literários pela Unicamp, atualmente desenvolve pesquisas no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor-Unicamp) e mantém o blog "Algumas Sheylas" http://sheylas.wordpress.com E-mail: sheyla.smanioto.macedo@gmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Sheyla Smanioto Macedo no Cronópios.