Poucas vezes presenciei o milagre da transubstanciação. E, embora a professora de catecismo afirmasse que ele acontecia quando a hóstia era engolida, a explicação não me convencia. Para mim, o corpo de Cristo não era uma lâmina insossa, desprovida de volume e líquidos. Não, definitivamente as hóstias não eram o corpo de Cristo! Eu já o tinha visto pendurado entre os seios fartos de Vera. Já o tinha flagrado banhando-se no rio de suor que descia pelo colo dela. Já tinha testemunhado seu amor quando, por causa de um abraço mais apertado de Raimundo, louco de ciúmes ele se cravou no peito de Vera. A mancha de sangue nunca mais desgrudou do vestido e ficava ainda mais nítida com as lavagens. Vera até tentou tingir a roupa, mas foi em vão. A mancha ficou ainda mais viva. Com o tempo, o vestido transformou-se num Santo Sudário doméstico e vieram mulheres em romaria para vê-lo e tocá-lo. Cristo, aconchegado entre os seios de Vera, aprovava. Gostava de ouvi-las reclamando das patroas e fazendo planos para o Carnaval. Gostava de vê-las desnudas em frente ao espelho experimentando roupas. Gostava tanto, que nessas horas a mancha ficava molhada.
Texto: Márcia Frazão, de seu livro Amor se faz na Cozinha, Ed. Bertand-Brasil Foto: Ana Maria Santeiro
Ana Maria Santeiro é escritora, fotógrafa e agente literária E-mail: amsr@openlink.com.br
Márcia Frazão é escritora e vive em Nova Friburgo, no estado do RJ, numa casa no meio de hortas, onde cultiva as ervas para fazer poções, legumes e verduras. A sua casa é cheia de coisas antigas, como uma casa de bruxa. Não tem microondas, nem máquina de lavar, nem celular (telemóvel). Apesar de ter computador, ela prefere martelar numa máquina de datilografia Olivetti 22.
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