Ainda estou para aprender que do mal mais ignóbil não se possa extrair uma lição do mais puro bem. Charles Dickens
Meia noite e oito. Um turbilhão de pensamentos o assalta. O mais forte, no entanto, é a idéia percebida como uma revelação: “Cuidar de si é uma questão de saúde mental”! Conhecem-no pelo no. 461: o quarto internado no dia seis de janeiro. Sempre que acorda, de dia ou de noite, essa idéia é a primeira a se manifestar em sua “razão”, apesar de toda a dormência química provocada pelos remédios. O relógio pendurado na parede parecia maior do que do costume. Puxou o penico debaixo da cama, sentou-se na beirada da mesma com as pernas abertas e fixou o olhar no relógio. “Cada dia que passa esse maldito parece que vai ficando maior”, pensou consigo mesmo. Magro porque não come. O nojo da comida é total. E a frase de Huxley martelada em seus neurônios possivelmente doentes, há quanto tempo ele não sabe, mas insistente ao longo do dia, não de noite: “Um estado totalitário realmente eficaz seria aquele em que o executivo todo-poderoso constituído de chefes políticos e de um exército de administradores, controlassem uma população de escravos que não precisassem ser forçados, porque teriam amor à servidão”. A enfermeira entra no quarto pontualmente às 6hs:30 com dois copos de plástico translúcidos: um com quatro comprimidos coloridos e o outro cheio de água que ela faz algum esforço para não derrubar seu conteúdo ou mesmo deixá-lo cair. A luz é acesa sem aviso e faz-se dia; a cortina da janela é puxada sem delicadeza pela corrente de pequenas esferas, e faz-se noite; antes os copos são colocados na mesinha ao lado da cama, e só agora ele percebe que ela é de madeira.
- Bom dia 461. Tome os remédios e não se esqueça do café da manhã às 7hs no refeitório; agora são 6hs:30, 461.
E a Enfermeira se afastou em direção à porta do exíguo quarto, enquanto 461 olhava de soslaio o relógio da parede e conferia as horas tentando calcular o tempo que tinha para tomar os remédios, tomar banho, vestir-se e não se atrasar para o café conforme horário marcado. Olhou para os pés da cama e percebeu, também pela primeira vez, que o pequeno armário escuro e encardido que ali existia era de madeira, por isso era encardido e escuro. Quantos como ele já teriam estado naquele quarto? Há quanto tempo estava naquele quarto? E naquele lugar? A Enfermeira encorpada de olhos negros e cabelos amarrados numa bola no alto da cabeça apareceu na porta e bateu com certa força na porta aberta.
- Vamos 461, tome os remédios e se levante! Esperamos por você no refeitório!
E sumiu. Ele sabia que ela não voltaria mais, mas voltaria um outro, bem mais forte e alto, e o agarraria e o tiraria de seu torpor conjetural de debaixo da manta da cama e o faria tomar os remédios não sem certa violência própria de quem está habituado a adestrar “cães de guarda” – guarda de quem ou do quê ainda falta discutir -, motivo pelo qual era conhecido por Bull. Quando o chamavam assim ou quando se referiam a ele para apresentá-lo desta forma, sua boca contorcia-se imediatamente num espasmo como tentativa sincera de sorrir, ainda que tal tentativa se assemelhasse minimamente a um sorriso; e quando não o apresentavam de tal forma, Bull se fazia imediato, exibindo o mesmo indisfarçado esgar muscular espasmódico na boca:
- Pode me chamar de Bull, aqui todos me chamam de Bull, e eu gosto disso.
Foi assim que 461 teve o primeiro contato com Bull, o que, obviamente, tornou mais duradouro e loquaz as funções e os métodos de tratamento de Bull e daquele lugar que o trouxeram. Ainda deitado na cama, tentando reagir à preguiça e entorpecimento matinais normais dos homens saudáveis, os fatos o assaltavam: quando pensava na gentileza e prestatividade dos enfermeiros daquele lugar, tinha certeza que havia agido bem em não ter assinado sua internação: acharam, os parentes, o médico e os funcionários da clínica, que isto era devido a seu estado de alheamento do mundo, à sua doença mental. Estavam enganados, era uma opção acertada que os seus sentidos previram de como seria tratado dali para frente. Afinal quem assinou a internação? Há quantos dias já estaria ali? Quantos como ele já passaram por ali e se tinham permanecido mais ou menos tempo do que ele – talvez pudesse forçar alguma expectativa de quanto tempo mais ainda o acordariam daquela forma e quantos remédios ainda teria que tomar e quantas vezes Bull ainda seria invisível para ele ao acordar, pois a verdade é que ele não se lembra de alguma vez ter sido puxado da cama por Bull, mas sabia com toda convicção possível que se não se levantasse, tomasse os remédios, tomasse banho, se vestisse e se não estivesse às 7hs00 no refeitório para o café da manhã, Bull deixaria de ser apenas uma expectativa de ação, para ser a pura ação, e algo lhe dizia que seria uma brutal ação. Preguiça matinal e entorpecimento ao acordar eram sintomas saudáveis para os homens normais, mas para ele e possivelmente para todos ali deveriam ser sintomas de doença para homens anormais. Somando tudo, 461 deu um pulo na cama e após certificar-se que a mesma era de ferro com rodinhas, como havia previsto, diferentemente da mesinha e do armário, sentou-se na beira da cama meio tonto, e com a tontura percebeu que certa realidade o havia abandonado não sabe quanto tempo. Olhou para os remédios coloridos e o copo de água a seu lado e certificou-se que estava tonto demais para decidir se os devia tomar ou não, e por vias das dúvidas, antes que Bull se tornasse real, despejou os quatro comprimidos de uma vez na boca e tomou o copo de água de uma vez só, quase em um único gole, sem descansar para respirar. O dia começa nesse gole. Vamos ao café da manhã. Goste-se ou não, todo dia é um dia para se viver.
*
No quarto do hospital o paciente abre os olhos pela primeira vez naquela manhã de verão com o sol radioso penetrando pelos espaços entre as persianas mal fechadas da janela. Por um breve momento achou que a dor lhe dava uma trégua, talvez porque os raios solares que escapavam das persianas se acomodavam difusamente sobre seu peito raspado. Mas logo a visão de seu abdômen perfurado por uma mangueira de borracha lhe anunciou as dores que o fizeram apertar o botão preso à cama do lado direito, o vermelho, o que chamava a enfermeira. No começo, quando o colocaram naquela insólita situação de enfermo acamado e ele apertava aquele controle remoto, sempre aparecia alguém correndo solícito para acudi-lo em suas dores, ou simplesmente atender em coisas banais como beber água, urinar, defecar, voltar-se na cama, subir a cama, descer a cama, ajeitar a almofada, fechar a persiana ou a janela, abrir a persiana ou a janela, abrir ou fechar a persiana da parede de vidro que dava para o corredor e onde se podiam ver as enfermeiras e algumas vezes os médicos correrem de um lado para o outro, ou tranqüilamente falando de um paciente, talvez bem, talvez mal se muita esperança já não houvesse, posto que o dito diz ser a última a morrer, combinando almoçarem ou jantarem, fofocando algo sobre os chefes, sobre os colegas, ou elogiando-os, e também sussurros sobre necessidades mais íntimas, coisas e diferenças que com o tempo aprendera a distinguir só de observar pelos cantos dos olhos os movimentos sutis dos lábios alheios. Quando a questão era de dor a solução do problema era rápida, pois bastava regular para mais o pingar dos frascos pendurados em sua volta e que estavam injetados em suas veias em três pontos, um em cada braço e um na garganta do lado direito. Mas quando tinha hemorragia e o sangue escoava silenciosamente pelos cantos da boca, e ele perdia a capacidade de respirar, então a correria e a gritaria eram medonhas entre as enfermeiras, e logo espavorido aparecia um médico, depois mais um, mas raramente o seu, mas muitas vezes acompanhados de vários garotos de bata branca que ficavam solenemente a olhar para a confusão e seu sofrimento, encostados impávidos na parede na frente da cama. Normalmente naquelas horas o buraco que haviam feito na sua faringe era imediatamente usado com a penetração de um tubo de plástico que tinha na ponta uma bomba preta de borracha que servia para lhe insuflar ar nos pulmões até que a máquina de respiração artificial fosse colocada em posição adequada e o tubo que saía de sua garganta fosse conectado por um tubo menor ao respirador mecânico. Sempre que isso acontecia, umas cinco vezes nos últimos dois meses desde que estava naquela cama, lembrava-se, meio às palavras de “calma, calma”, e “vai ficar tudo bem”, ou “já vai passar”, e coisas do tipo, lembrava-se do barbeiro da rua do chiado, assim chamada por causa dos elétricos que passavam para cima e para baixo o tempo todo, indo e vindo da parte baixa e velha da cidade, do e para o porto, do e para o mercado de peixe às margens do rio, onde seu pai e depois sua mãe, quando o pai viajou para muito longe, o levavam para lhe cortarem o cabelo, com aquela maquininha que fazia “rec-rec-rec” ao passar no seu cabelo fino e que o barbeiro empoado de talco teimava em untar com óleo Singer no parafuso central; lembrava-se disso por outro motivo: na verdade era porque gostava quando o corte terminava e o velhote de jaleco muito branco que continuava sem fios de cabelo ao final do corte lhe empoava também a nuca e o pescoço abaixo dela usando uma garrafinha de prata – parecia uma “lâmpada de gênio” - com um tubo de borracha vermelho e uma bombinha na ponta. Era essa bombinha que na verdade lhe desencadeava toda essa série de lembranças. Depois tudo se acalmava, ou melhor, se acomodava, as dores, as hemorragias e as lembranças. Como não existe esquecimento para tais coisas só lhe restava esperar precisar acionar o botão vermelho que pendia ao lado de sua cama; no fundo aquele botão remoto acionava mais do que a ajuda das enfermeiras e médicos: acionava a ajuda do passado. E assim o paciente do quarto 164 podia fugir junto com a morfina que lhe injetavam, das dores, do sangue, da quase morte presente.
*
O médico, sentado em uma poltrona pequena de tecido carmim, daquelas cujo encosto é o prolongamento do apoio dos braços, ou vice-versa, olhava para o paciente sem manifestar um sentimento especial ou mesmo comum que fosse identificável. 461, deitado em um divã, disfarçado de sofá por suas cabeceiras de rolos maciços de espuma, coberto do mesmo pano carmim da poltrona do médico, olhava o teto branco do pequeno consultório, igualmente de paredes brancas cuja sobriedade se percebia facilmente pelo mobiliário simples constituído de uma pequena mesa de ferro verde e creme, conforme podia ver pelo canto do olho sem manear demasiado a cabeça, e um armário igual encostado na parede à esquerda da mesa, por cujas portas de vidro podiam-se ver quantidades imensas de caixas de remédios, uns poucos frascos de rótulos brancos e um aparelho daqueles que se usa para medir a pressão. Isto tudo armazenado aparentemente sem qualquer arranjo especial na prateleira de cima do armário, a única que naquela posição podia ver. Um cabide do lado da porta com um blazer xadrez preto e verde pendurado, e um pequeno lavabo com uma toalha verde musgo pendurada num gancho pregado na parede completava a sala. Atrás de si, sabia que existia outra porta, provavelmente do banheiro do médico pensou quando entrou no consultório. A sala transformada em consultório era só isso. Não tinha janelas e possuía no teto um pequeno lustre redondo de vidro trabalhado e uma armação dourada. Achou que conhecia aquele lustre. O doutor E.R., conforme se via nas iniciais bordadas em azul bem debaixo do brasão da Escola Paulista de Medicina pregado no jaleco branco, era jovem e não apresentava ainda ter quarenta anos, de estatura mediana e olhos negros não muito profundos e cabelo curto penteado com creme. Isto fez 461 lembrar de seu pai e da brilhantina que ele usava para fazer o cabelo crespo baixar de volume dando sempre a impressão que tinha acabado de sair do banho. O pai cismava com os redemoinhos que 461 possuía no alto da nuca e na fronte e que faziam com que seu cabelo não assentasse adequadamente. Sempre que iam sair aos domingos de manhã, logo depois do banho quente semanal, seu pai enchia seu cabelo de brilhantina e o penteava, o que 461 não gostava, pois se via como um almofadinha riquinho ou filhinho bem tratado. Sua mãe atendia sempre às súplicas de 461 e sempre se intrometia quando começava a chorar e falava alguma coisa para o pai de forma que este parava logo com as tentativas de fazer seus redemoinhos abaixarem e darem alguma direção óbvia ao penteado. Isto fazia muito tempo... Muito tempo, pois ele era ainda um menininho. A brilhantina, essa ficava, porque a mãe apesar de tudo não tinha poder para fazer o pai lhe lavar a cabeça de novo, o que na verdade não seria desejável nas manhãs frias de domingo. O doutor colocou a prancha de madeira sobre as pernas cruzadas e 461 percebeu que lhe dizia algo. Maquinalmente respondeu:
- Sim.
Apurou a audição e então escutou perguntarem-lhe se podia dizer o nome. Sempre olhando para o teto branco 461 respondeu prontamente:
- 461.
– Não, o seu nome não é 461, disse o doutor. Você deve saber que tem um nome próprio, todos temos um nome.
– Eu me chamo 461, doutor. E todos me chamam assim, 461 - disse 461 calmamente sem deixar de fixar o teto branco acima dele.
O doutor ajeitou-se um pouco na cadeira como se tivesse escorregado e quisesse se endireitar melhor.
– Você sabe que no mundo as coisas têm nomes. Damos nomes às coisas para podermos identificá-las, podermos conversar sobre elas e podermos as usar. Por isso também temos nomes... E ia continuar a frase quando 461 o interrompeu:
– Doutor, coisas têm nomes, mas eu não sou uma coisa, sou uma pessoa.
Por uns instantes houve algum silêncio que foi interrompido por um grito estridente de choro e angústia do lado e fora da sala e que entrava, sobretudo, pelas grades de ventilação no alto da parede de cada lado da porta que só agora 461 percebera que ali estavam. Logo em seguida o mesmo silêncio.
– Pois bem, vou lhe chamar por enquanto de 461, mas saiba que você tem um nome. De alguma forma você se recusa a dizê-lo. Vamos ver isso mais para frente...
E foi interrompido de novo por 461 que havia baixado os olhos das grades de ventilação metálicas para o doutor E.R.
– Doutor E.R., eu gosto de meu nome e o digo sempre: meu nome é 461 e acho que é um bom nome para uma pessoa. Nomes são bons para as coisas, como o Doutor mesmo disse, temos que nomear as coisas do mundo. Mas como pessoa acho melhor ser 461. Meu nome, doutor E.R., é 461 - e voltou a cabeça de novo na direção da brancura espermática do teto.
-Ok, ok... De qualquer forma sempre podemos usar as palavras, e os números, para definir nosso mundo. Acho que é esse o caso aqui – foi o que pronunciou o doutor E.R., tão baixo que provavelmente só ele mesmo se escutou.
Mas o paciente deitado no divã escutou e respondeu sussurrando:
- Sempre achamos que as coisas do mundo estão antes das palavras. Talvez as palavras, e os números, possam antes definir as coisas.
*
O telefone tocava impaciente no criado-mudo do lado da cama. No mostrador digital do aparelho, pelo canto do olho esquerdo semi-aberto, ela viu 614. “Já?”, se perguntou, esforçando-se para trazer à sua mente toda a razão capaz de fazê-la distinguir a realidade do sono. Carregou, com algum esforço, no botão do viva-voz, e antes de falar algo, escutou: “Coisa fina, boa grana, sem restrições. Tem que levar o menino. O cliente marcou para as onze horas.” “Que horas são?”, perguntou tentando resistir ao sono. “Quase dez”, escutou.
“Meu Deus, acabei de deitar. O garoto não vai levantar”. “OK, passo para outra, bela adormecida”. “Hei, espere. Dê-me 15 minutos. Vou falar com ele. Já ligo”. “Cinco minutos, beleza. Vai rápido”.
*
No alto do prédio um logotipo de proporções enormes, feito de aço escovado, girava melancolicamente mostrando para a cidade onde ficava a sede da grande multinacional de advocacia. Sim senhores, existem multinacionais de advocacia e muitos chegam até ali, com muito esforço. Mas ser advogado do diabo não requer mais tanto esforço assim. Os que defendem deus sim. Um pouco de Artaud não faz mal a ninguém. As mãos tremiam um pouco quando o advogado retirou da última gaveta de sua mesa uma pequena caixa fechada com um cadeado de segredo, daqueles que exigem um número para que seja aberto. Posicionando o número 416, ainda pensou em desistir de abrir o pequeno cofre, mas a hesitação não durou mais do que uns três segundos. Dentro, o executivo pegou uma chave, uma chave de porta comum, a não ser pelo fato de que estava presa a um chaveiro gravado com duas iniciais. Saiu da sala e disse para a secretária:
- Vou me encontrar com... (certa excitação) um amigo, e a coisa vai se estender. Precisamos colocar o papo em dia, pois não o vejo há anos. Colega de faculdade. Ligo mais tarde, mas não sei se volto. Estou no celular, mas só me ligue se for imprescindível.
Fazia mais de um mês que seu superior não lhe apresentava compromissos inesperados fora da agenda, e então a secretária não estranhou nada e apenas dedicou-se a sorrir amavelmente e a balbuciar algo que ele entendeu, já de costas, como “Boa sorte”.
*
“Como o espírito se torna camelo, como o camelo vira leão, e finalmente o leão vira criança”, repetia 461 para o psiquiatra à sua frente. O doutor o escuta em silêncio. 461 repete a frase sem parar há doze minutos, como se pronuncia-se um mantra, balançando o corpo sem cessar para a frente e para trás como um pêndulo cujo ponto fixo está invertido, pois só não cai porque está sentado na beira do divã que lhe foi oferecido para se deitar. Então, abruptamente, 461 olha seriamente para o médico na sua frente, olha em redor reconhecendo o ambiente, sorri e volta calmamente a deitar-se no sofá. Olha o teto e pergunta:
- Sabe de quem é esta frase, doutor?
– Sei sim. E você sabe?
– Como assim doutor?
– Você me perguntou se eu sei de quem é a frase que repetia há pouco. Eu sei, mas não sei se você sabe.
– Por que eu falaria isso sem saber o autor, doutor?
– Bem, você pode ter lido-a em algum lugar, ter ouvido alguém falar dela, e só. Isso acontece com todos.
– O que acontece com todos, doutor? Falar as coisas como papagaios? Os escravos, os servos, os fracos, os cordeiros niilistas, os reativos degenerescentes?
– Calma, calma. Só queria saber se você sabia mesmo de quem era a frase.
– E agora sabe que eu sei, doutor. Mas o mais importante não é saber que eu sei, mas precisa confiar em mim doutor, precisa acreditar-me, precisa ajudar-me. Eu sei o que sou, sei o que digo, sei o que faço. O senhor, doutor, precisa ser diferente dos outros e ser igual a mim: só falar o que sabe.
– Eu estou aqui para ajudá-lo, tenha certeza disso.
– É pouco, doutor. O senhor não pode inventar.
– Não inventarei.
– O doutor não pode ter dúvidas e não pode falar por falar. Isso é fraqueza. Aqui precisamos ser fortes os dois, se me entende doutor.
O doutor E.R. está surpreso e disfarçadamente estupefato percebe realmente o diálogo que mantém com o homem deitado no divã à sua frente. Silêncio. O doutor espreme a ponta do nariz entre o indicador e o polegar da mão direita. Decide continuar o diálogo, ainda que naquele momento comece a ter dúvidas se o diagnóstico de esquizofrenia e T.O.C. feito pelo psiquiatra de plantão que internou 461 na noite anterior estavam corretos, apesar de ter lido a ficha do paciente e estar a par da tentativa de suicídio (se jogar pela sacada do apartamento onde mora), da repetição contínua de frases a esmo, ter escrito folhas e mais folhas com frases que os familiares desconheciam, além dos vários dias em que sob depressão não comia, alternando assim depressão com extrema atividade.
- Eu o entendo, 461, pelo menos em parte. A outra parte estou me esforçando para entender. Você quer me dizer de quem é a frase?
- No entanto, a autoria não é importante. Devemos esquecer os ícones, esses pérfidos homens-superiores. “Nossos senhores são escravos que triunfam dentro de um devir-escravo universal”. Esta frase sabe de quem é doutor?
- Não, essa eu não sei.
- Tudo bem, como dizia, a autoria, o autor, não é importante.
Como o silêncio se refez, o doutor E.R. interveio:
- O que é importante então?
- A ação. A vida. “São os organismos que morrem, não a vida!”. Mas precisa ficar bem claro: a ação iconoclasta, a desconstrução da moral instrumental, da infâmia oportunista de Deus, do massacre espiritual do pecado, a ação libertadora do poder para repor a vontade de poder ser único, o triunfo da afirmação na vontade de poder fazer, portanto, ser.
*
O jovem representante sorri com desembaraço e com desdém para a minúscula câmara sobre o balcão de mármore rosa e negro que lhe é apontado pela jovem; um anjo não merece nem possibilita qualquer desembaraço e indiferença, não, principalmente quando os grandes olhos azuis pintados de azul e com longos cílios desprevenidos recebem toda a resplandecente luminosidade a combinar com seus cabelos louros. “Talvez estejam menos estonteantes por causa da pintura”, pensou, sobre os olhos, assim como o aspecto acrílico dos cílios lembrava o tom postiço de decadência próprio da artificialidade da noite que, naturalmente, ela não possuía. Gostaria de vê-la naturalmente exposta sem maquiagem e sem quaisquer artifícios da estética moderna e não foi sem tentar impedi-lo que desejou contemplá-la nua, pensamento que deixou escapar um frêmito libidinoso por todo o corpo e que pelo canto do olho pode perceber que não passou despercebido à jovem recepcionista enquanto passava o crachá com chip na catraca digital do edifício de consultórios e escritórios da grande avenida. Ele igualmente chamava a atenção por sua beleza corporal, e não podia ser diferente se se pensar em seu trabalho. No elevador de aço escovado, igualmente de painel digital, desnecessário em certa medida como se verá em seguida, e de chão de mármore rosa e preto, pensou em deixar seu cartão com a jovem na saída, “O que poderia ter demais isso”, já fizera tantas vezes com outras recepcionistas nesses prédios luxuosos de escritórios e consultórios que visitava diariamente. Mas algo lhe parecia diferente com esta jovem, aliás, só agora se dando conta de que já veio várias vezes a este prédio, ainda a última vez há pouco mais de um mês, e nunca a tinha visto, então era recém contratada; e pensou também que neste lugar nunca tinha deixado seu cartão com nenhuma recepcionista, o que facilitava as coisas para ele. O que parecia não facilitar sua situação era aquele inchaço que se destacava por baixo das calças e que procurou esconder melhor com o casaco do paletó abotoando-o na frente do imenso espelho dourado pendurado na parede dos fundos do enorme elevador. Mais não podia fazer para disfarçar a protuberância masculina fora de hora - ou na hora certa diante dos devaneios irreprimíveis da sua mente diante da formosura da jovem recepcionista -, haja vista que o elevador tinha duas câmaras presas nas duas paredes laterais na emenda com o teto, dois olhos que tudo vêem mais os outros dois olhos do homem de paletó escuro que entrara com ele no elevador, só agora tomava consciência disso, e que parecia torcer-se mais do que o desejável para ver o que ele estava fazendo voltado para o espelho, mesmo por que o elevador tinha parado imperceptivelmente como é costuma acontecer com essas máquinas de transporte interno modernas, silenciosas e macias. E o homem de paletó preto, provavelmente um advogado, esperava que ele saísse, pois ali já era o andar e era ele que tinha dado o comando de viva-voz – “treze” - para o elevador parar nesse andar. Voltou-se rápido, enfiou a mão direita no bolso, segurou com firmeza a valise grande de farmacêutico na mão esquerda e como que para disfarçar o embaraço pediu licença e saiu abruptamente para o hall do 13º. andar, esforçando-se ainda para entortar as costas um pouco para a frente obrigando o ventre a se dobrar para trás, imaginando assim que disfarçaria melhor seu incômodo, o que pareceu funcionar, obviamente, pois a protuberância parecia diminuir a olhos vistos; claro está que sabemos que não por todas as artimanhas conseguidas mas simplesmente porque quem comanda tudo isso na vida, a consciência e inconsciência das coisas, a percepção “A” ou “B” dos fatos e as determinações conseqüentes das circunstâncias físicas e metafísicas, inclusive e ou principalmente as libidinosas, é a mente. Assim, todo o esforço e preocupação em escamotear o embaraçoso chumaço por debaixo das calças foi o que cientificamente, em verdade como acreditamos na modernidade, que lhe desviou os fluxos sanguíneos do pênis para o cérebro e não só fez livrar-se do incômodo como recobrar a racionalidade com relação a seus objetivos imediatos. Diante disto, já podia desapertar o casaco do paletó – ou o fato como seu pai às vezes dizia, e isto foi suficiente para recobrar plenamente a condição de representante farmacêutico -, endireitar-se e mesmo trocar a valise de mão se quisesse e se naquela estivesse pesada, mas também por ordem da mente o plenamente racional ainda não se restabelecera tão plenamente assim, de forma que ficou parado no meio do hall do 13º. andar olhando à distância para a porta de vidro fechada, fumê verde, do consultório. Ele sabe que a mesma só se abre se se anunciar no interfone que não existe, pois também funciona por viva-voz acoplado a uma minúscula câmera que não se identifica onde está instalada. Encostou quase a cara na porta de vidro, falou “representante”, e a porta abriu-se como que por mágica ou milagre, já que uma coisa e outra sempre andam de mãos dadas na história da ciência e da consciência da humanidade. Foi recebido com um largo sorriso da recepcionista do consultório que lhe disse algo, mas independente de não ter escutado sabia como se comportar e se sentou rapidamente na poltrona de couro preto muito confortável, daquelas que sentamos e afundamos, algo propício e engraçado, pensou, tentando ainda voltar ao normal desdém das coisas e da vida que levava: “Afundar-se em poltronas macias e silenciosas em consultório de psiquiatria tem tudo a ver”. Logo depois, já que tinha hora marcada com o doutor, outra recepcionista ou secretária, parecia mais uma secretária, alta e esbelta de pernas longas e de saia curta com um jaleco igualmente curto, um dedo acima da saia preta, ambos curtos talvez até demais para um consultório médico, mas aquele não era um consultório qualquer em qualquer lugar, cujas canelas terminavam em sandálias de salto que deixavam ver os dedinhos espremidos, mas bem cuidados e de unhas minúsculas pintadas, disse-lhe:
- O doutor o aguarda, pode entrar, por favor - e exalou junto com o hálito juvenil um cheiro de pêssegos maduros que teve certeza que provinha do pequeno decote acima dos seios que se adivinhavam perfeitamente redondos. “Bendito silicone!”. Ali decidiu entregar o cartão à jovem recepcionista do prédio quando descesse.
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No passado tem dor e remorso – e não há como ir adiante! Não dá para melhorar da próxima vez! “De modo nenhum acalente sua má ação. Rolar na sujeira não é o melhor meio de se limpar”. Um paciente terminal carrega dor e remorso enquanto todos em sua volta parecem se desdobrar em atenções. Talvez nem tantas. Esta vida tem dessas coisas. Querem mantê-lo vivo para sofrer de sofrimentos que estão além da dor física, da hemorragia, do sufocar, da vida vegetal: “Será que esses idiotas de bata branca se acham Deus? Não porque me mantêm vivo, se isto é viver, mas porque me recusam a liberdade, a vontade, o poder de morrer. São como esses malditos padres a falar do sacrossanto direito à vida e aquele último que o hospital aqui me mandou quando acharam que eu me ia: ‘Não há liberdade sem vida, na verdade não existe nada sem vida’. Demagogo safado; como se houvesse vida sem liberdade. Mas eles não me prenderão mais, não senhor. Eu dou cabo disto já. Agorinha mesmo. Retiram tudo de um homem, até a liberdade de sentir vergonha de si mesmo e da humanidade. Esperem por mim. Eu sou um fracasso?” E os pensamentos mais uma vez são interrompidos pela enfermeira que lhe pergunta se está tudo bem!? Ele não a houve meio aos pensamentos que lhe consomem as poucas energias que possui, mas a entende pelas feições forçadas, pelos gestos amenos, pelo olhar de compaixão, pelos trejeitos piedosos do corpo, pelo esgar derrotado dos lábios. Ela não pode ajudar? E quem ajuda? A intensidade lhe corrói as entranhas e o delírio se instala de vez quando a dor atinge o sistema nervoso central: sonha em desmaiar, deseja a morte. Mas o que lhe chega cortando o devaneio é o rosto do filho. O filho de uma mãe desconhecida, esta era sua infâmia. Nunca revelara a ninguém, um derradeiro ato de amor, ou a morbidez da vingança. Ela o deixara quando a criança tinha dois anos de idade. Queria ser livre: não suportava o companheiro, não suportava a criança, não suportava sequer a idéia da vida familiar. Sufocava com a idéia de ser mãe, de ser esposa, de ter responsabilidades de educar o filho, de viver com o companheiro, de amar acima de si mesma. A criança ficou muitos anos com ele e jurou nunca dizer quem era a mãe a quem quer que fosse, pediu ajuda à sua própria mãe, e um dia disse ao filho que ele era adotado. Mas nunca a esqueceu e sempre sofreu calado o ressentimento do abandono cuja dor era apenas superada pela angústia da mentira contada ao filho. Depois este cresceu, saiu de casa, a avó morreu, e na solidão tudo lhe parecia sem gosto que justificasse algum ato altruístico de maior envergadura. Os anos passaram e afinal eis que tudo se aproxima da solução final. Nunca a esqueceu... E talvez por isso não conseguisse demonstrar ao filho todo o sentimento pungente que nutria por ele. Ressentimento e culpa havia feito de sua vida um precipício sem pontos de felicidade que justificassem viver. Agora, no entanto, sua infâmia não era suficiente para desejar a tranqüilidade da morte: queria viver, mas as dores diziam-lhe que era tarde. Dela ainda se lembrava de pequenos detalhes como a tatuagem da pequena sereia na omoplata do ombro esquerdo.
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Na cela 641 do complexo prisional de segurança máxima, uma jovem se entrega amorosamente a um detento. Escondido, pois ali não existe visita íntima, como se diz. Escondido também não deixa de ser uma força de expressão, pois não seria possível tal ato sem a conivência dos policiais. Mas durante as visitas dos sábados a vigilância é sempre reforçada, quer dizer, como há mais pessoas a serem observadas e controladas, sempre é possível passar alguma coisa. E o detento não está em regime diferenciado. De qualquer forma a atividade inusitada na cela pode ser facilmente percebida pelas câmeras, se, obviamente, o policial na sala de vigilância eletrônica que toma conta daquela cela não tivesse saído para ir ao banheiro. O detento, para abafar um pouco o som proveniente do ato, principalmente no final, põe a mão na boca de sua namorada.
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O doutor E.R. deixa o silêncio se prolongar de novo. Ele mesmo precisa desse tempo “vazio” para elaborar um raciocínio lógico. Rabisca no seu bloco: outra frase. “Quantas frases já mencionou? Afinal, não me disse quem era a primeira frase. Mas vamos deixar isso por enquanto. Agora temos outras frases. Podem ser do mesmo autor, mas suponho que não são. Eu não as conheço. Mas isso parece que realmente não faz diferença. Importa a ação, e a ação é sinônima de vida. Mas não é uma vida normal”. Rabisca no bloco: o que é normal? Rabisca: o que é isso de vontade de poder fazer? Rabisca: paranóia?, qual? E se eu abrir? Ou não?
- Bem... Você quer me explicar melhor isso da vida? Afinal...
Mas 461 o interrompe sem pedir licença.
- Doutor, o senhor deve estar pensando em “Sim” ou “Não”. No nosso caso só nos resta o “Sim”. Precisamos ser fortes, lembra. Deixemos de lado o que nos faz mal, o que nos envenena, precisamos esquecer nossos pais, nossos professores, o batismo – o senhor é batizado não é doutor? -, o senhor do castelo – lembra disso, doutor -, o certo e o errado, o bem e o mal. Deixemos de ser humanos. Tudo isso foi criado para nós e repetido por nós como conseqüência do “Não”, dos “Nãos” de toda a existência.
- Entendo, mas essa liberdade precisa de vida. A ação a que se refere, se bem entendi, refere-se à vida. No entanto... e parou para pensar como continuar.
- No entanto eu quis acabar com a minha. É isso que quer dizer, certo, doutor?!
- Sim, esse é um ponto importante, acho. Por quê?
- Existem dois tipos de homens: um de niilistas reacionários, outro de niilistas afirmativos. O sem sentido não é necessariamente a negação de tudo para o nada, mas a negação de tudo para o absolutamente novo. Mais do que das cinzas fênix alada, o super-homem renasce, se assim me faço entender, do nada que destruiu porque esse nada era outrora a plenitude do seu exterior, todo o estranhamento a que se submetia, primeiro os deuses, depois o deus cristão, e o pior, depois o deus homem que toma sobre si o fardo de tudo isso para ordenar o mundo. Vida sem liberdade, doutor, não é vida.
- Acabar com a sua seria então um ato de liberdade, uma ação afirmativa?
-Já não é mais a ação que importa, mas a opção. Lembra-se, doutor?, “São os organismos que morrem, não a vida”. O que eu quero exatamente acabar?
- Ainda quer 461?
- Tudo o que quero é ser esquecido. Eu tenho esse direito, esse dever, essa missão. Eu a escolhi na outra morte. Esse destino é meu. Isso é meu. Eu sou meu.
- Isso é anarquismo, 461? É egoísmo? Existem pessoas que gostam de você, precisam de você. Por que as privar? Em nome de que destino quer se matar? Como escolheu isso, ainda que eu aceite que fez essa escolha antes? Está tentando dar uma solução lógica à sua decisão extremada de agora e recorre a um sentido messiânico. Compreendo, mas peço que pense melhor sobre sua... Esse alheamento de tudo e de todos e esse centralismo em seu ego.
- Isso é eterno retorno, doutor, não é paranóia. Continua com as fraquezas de sempre. Precisamos da filosofia do martelo. Por isso não importa a autoria, por isso precisa esquecer-se do mestre, porque cada um recomeça para si quando abandona seus ídolos. Faça um esforço doutor. O senhor pode me ajudar? Eu posso lhe ajudar?
- Ajudar-me, 461? Ajude-se!
*
O jovem representante olhou o relógio não casualmente quando a porta do elevador se abriu para o hall marmorizado. Estava cedo pensou, mas depois da recusa daquela manhã era bom que não se atrasá-se. De qualquer forma era cedo. Pensou em comer alguma coisa, pois estava apenas com o café da manhã. Olhou para a recepcionista que sorriu sem esforço e sem qualquer tentativa de disfarçar interesses outros que a simples função de amabilidade correspondente ao cargo. Sorriu e saiu para a calçada de pedra granito vermelho com um logotipo triangular em metal dourado cravado no chão. Olhou quase instintivamente para a braguilha de sua calça e sentiu-se satisfeito por perceber que desta feita nada o fez passar por desabusado. Quis olhar para trás para ver a cara da recepcionista e seus lindos olhos ainda mais uma vez, mais por curiosidade de ver a expressão, certamente, de algo interrompido ou de insatisfação por uma expectativa frustrada, do que exatamente por lascívia ou contemplação de pura beleza. Mas não o fez e seguiu procurando um lugar para comer algo sem ter entregado, afinal, o cartão de visita à jovem e bela recepcionista. Mais tarde, quando o carro dela parou no meio-fio e ela abriu a porta do passageiro sorrindo, lembrou-se de seu pai. Olhou o relógio de rua sem propósito definido e sem saber exatamente o motivo, assim como a lembrança dele não era própria para aquele momento, pelo menos foi o que pensou. Fazia uns três anos ou mais que não via o pai. Sabia que tinha saído da cidade porque este lhe dissera naquele último encontro no restaurante. Jantaram juntos, não muito longe dali, falaram sobre amenidades, o pai sentia-se orgulhoso por ele ter entrado na universidade, reclamou da tatuagem que ele havia feito no antebraço, lembra-se de ter dito ao pai para não recomeçar e não o encher, e é tudo que se lembra, ou precisa lembrar para além da sempre presente reprovação no semblante carregado do pai que o olha pouco nos olhos, como que temendo descobrir algo mais além da sua vida. O sol vinha-se pondo em belo crepúsculo laranja – era possível vê-lo no horizonte lá onde o rio fazia a curva, e espantou-se: como podia o sol no meio da cidade, na “selva de pedra” aparecer assim. Ouviu-a comentar algo sobre o sol; de soslaio respondeu algo. Sentiu um calafrio, viu que os pêlos do braço se eriçaram, pensou ter visto uma luz intensa ao olhar para o número da porta em frente, para logo em seguida sentir o aconchego das coisas que são porque assim são, como se por um instante tivesse a certeza de uma vida eterna e renovada. Quando abriram a porta do apartamento o cheiro de maçã verde se fez acompanhar por um homem de roupão fino de seda preta com pequenas listas brancas, que lhe lançou os braços em volta do pescoço e puxando-o com força afetuosa lhe disse mordiscando o ouvido:
- Que sorriso maravilhoso você está hoje!
“O acaso, o fado, a sorte, o destino, ou lá como se chame exatamente o que tantos nomes tem, estão feitos de pura ironia”, e de ironia em ironia nunca podemos saber o que nos espera nem tampouco o quanto de sentido pertence propriamente à realidade.
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Quando o advogado chegou ao apartamento alugado no 9º. andar, a tarde já começava a esconder-se por detrás da própria Terra que o sustentava. Sentiu o cheiro adocicado de alfazema que vinha do vaso de vime na entrada da porta, quase cheio de folhas e pequenas bolotas secas, fez sentir-se feliz, mas ao mesmo tempo não pode deixar de torcer o nariz devido ao aroma forte que arranhava a mucosa nasal. Olhou em redor e lembrou-se que aquele era o dia da empregada limpar e arrumar o apartamento, conforme lhe informaram. Sentiu medo que ela ainda por ali estivesse, olhou de novo para o relógio, e imediatamente sentiu-se aliviado ao se lembrar que ela só vinha uma vez por semana e só de manhã, pois como o apartamento ficava vazio por dias a fio, pouco ou nada havia a fazer nele em matéria de limpeza e arrumação. Na estante onde se encontrava a televisão de plasma pôde pegar um copo e uma garrafa de uísque. Caminhou tranqüilamente para o sofá na parede em frente, contornou a mesinha de mogno do centro e colocou sobre ela o copo e a garrafa mesmo antes de se deixar cair pesadamente sobre ele. Enquanto alargava o nó da gravata pensou em pegar gelo na cozinha, se é que gelo haveria na geladeira, pouco provável devido ao uso circunstancial e esporádico do apartamento. “Deve estar vazia e desligada”, pensou. “Vai puro mesmo”. E enquanto procurava com os olhos o controle da televisão endireitou-se em direção à garrafa de uísque. Ao acordar a primeira coisa que se lembrou foi de não ter encontrado o controle da televisão. Olhou a garrafa bem à sua frente e percebeu que estava pelo meio, mas sabia que não tinha tomado tudo isso de bebida. Não viu o copo na mesinha, mas o viu na mão de seu amante recostado na poltrona a seu lado. Podia ver o copo e parte de seu corpo, mas não sua cara; esta só podia senti-la no roçar de lábios e na respiração já ofegante e etílica em seu pescoço perto e abaixo de sua nuca. Imediatamente fechou os olhos e ouviu bem ao longe a música de Chet Baker. Ouviu o barulho do copo sendo pousado sobre a mesa de centro, o que o fez entreabrir os olhos a tempo de ver a boca e olhos negros de alguém que se aproximava. Depois, só a maciez de lábios alheios misturada à aridez das barbas opostas, e a convulsão de mãos que se procuravam, e a lugares mais convexos de seus corpos, em desatino próprio de quem já imediatamente se quer livrar das roupas, como ícones que os grudavam à torpe vida. Ali não era a hora e a vez de ícones, tampouco de torpezas.
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A enfermeira entrou no quarto para trocar os frascos pendurados de cabeça para baixo nos cabides de metal ao lado da cama. Sorriu para o paciente do quarto 164, um sorriso mais cúmplice do que jamais ele tinha visto. Pendurou a garrafa de plástico que trazia e antes de efetuar a troca foi até a janela e abriu a persiana que correu para o lado, deixando imediatamente entrar o sol forte e amarelado do começo da tarde que se espalhou por todo o quarto. Abriu a janela até o meio de seu comprimento total, e dirigiu-lhe o mesmo sorriso agora mais decidido que enigmático. O paciente ficou feliz em vê-la sorrir daquela forma, apesar de permanecer retorcido e imóvel, e com os olhos quase fechados devido às dores brutais e lancinantes que sentia por todo o corpo ainda achou que delirava ao sentir o cheiro forte de uma loção pós-barba barata. Por dentro alegrou-se com o que ela lhe disse, embora não tivesse escutado nada. Sabia que a dor iria diminuir com o remédio que ela injetaria naquela garrafa nova. Então tentou virar-se o máximo que podia para o lado em que ela trocava a garrafa e aguardou, pelo canto dos olhos, a repetição daquele sorriso enigmático, só que desta vez acompanhado por acenar tênue positivo de cabeça. A enfermeira terminou seu trabalho e o líquido da mesma começou novamente a fluir pelo tubo até a veia do paciente. Ela ainda ficou ali do lado dele sempre a sorrir e então ele soube que ela havia colocado o remédio certo para ele: primeiro a dor foi substituída pela dormência, depois os flashes de luz num caleidoscópio giratório, então imagens de coisas e pessoas numa profusão de acontecimentos antigos e novos como em um filme acelerado, ao mesmo tempo de trás para frente e da frente para trás, até aquele túnel de buraco de minhoca onde se vê conduzido sem ninguém do lado. Sensação de tudo compreender em fotogramas contínuos de vidas passadas, todas elas, e então a necessidade de escolha num momento atemporal misturado com sussurros de jovens amantes até o êxtase. Parece agora voltar para a última consciência: tenta abrir os olhos e não consegue, queria agradecer, mas não pode, queria algum gesto a agradecer, mas não pode, só a dor que sumiu completamente, só a última dúvida a perguntar por qual motivo isso acontece quando esta enfermeira troca o remédio aos sábados. Então um feto se mexe no útero de uma jovem mãe e sobrevém a escuridão definitiva. “A vida permanece. A vida é o fio de fogo que permanece através de todas as manifestações da matéria. Eu sei. Eu sou a vida. Eu vivi dez mil gerações. Eu vivi milhões de anos”.
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Ficaram em silêncio de novo. 461 sentou-se mais uma vez no divã, apoiou os cotovelos pouco acima dos joelhos e deixou cair pesadamente o queixo sobre as palmas das mãos. Balançando-se para frente e para trás parecia aprofundar o olhar em um único ponto aos pés do doutor, como que buscando profundidades e ciências a cada movimento pendular. Então retomou a conversa por si só, sem parar o movimento e sem desviar o olhar do ponto fixo como que retirando as palavras por detrás de um espelho.
- Os judeus cobrem os espelhos na casa do defunto.
- Como disse? O espelho, a morte... - e o doutor foi interrompido.
- Não desejo a morte. Ainda não. Desejo a vida, mas preciso renascer doutor. Para renascer, no entanto, preciso da morte. Acho que alguém entre os meus acha que eu queria me matar. O problema doutor... Sabe qual é o problema disto tudo doutor?
- Qual é 461?
- Preciso que me esqueçam. Mas não me esquecem, não me negam e não me deixam.
- Somos sociais, animais profundamente sociais. Uma vez que descobrimos nossa natureza e as vantagens de vivermos em grupo, 461, dificilmente fazemos pouco caso dos outros. Sua família o ama... É natural que o queira proteger.
- Essa é a conseqüência mais nociva para mim. Não consigo respirar. O amor não serve para cuidar de mim.
- Não gosta de ser amado pelos outros, por seus familiares, por sua esposa e filhos? Ora, 461, você está mentindo para si mesmo. Eu sei que é o amor que mais o sustenta.
- Como pode ter tanta certeza doutor? Por que sua roupa não tem o nome completo?
- Não misture as coisas. Não desconverse. Não fuja, agora é você que se acovarda. Uma pessoa que coloca tanta paixão em suas opiniões não pode odiar os outros e tampouco ser covarde.
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Ao entrar de volta no elevador do 9º. andar do prédio haviam-se passado mais de seis horas, como pôde constatar ao ligar o celular e perceber dois recados no viva-voz. O advogado entrou no elevador, carregou no zero e acionou os recados: o primeiro era da secretária que lhe informava que o porteiro informava que havia deixado o carro no estacionamento do escritório, mas que podia passar lá para pegá-lo até meia noite, quando, por ordem do condomínio, a garagem seria trancada por medida de segurança; a segunda era de sua filha que lhe dizia que a mãe tinha saído e que ela ia para o trabalho, mas que podia ligar para o seu celular se quisesse. O porteiro o tinha visto sair a pé e pegar um táxi. Achou estranho que a esposa não o procurou e não telefonou para ele ou para o escritório, porque nem a secretária lhe informara isso e nem a secretária eletrônica do escritório lhe havia retransmitido a ligação para o celular; provavelmente a secretária eletrônica não estava programada para transferir chamadas para o celular. Sentiu uma leve dor e um ardor no corpo quando estendeu a mão para um táxi que passava na noite sem lua e fria. Foi para o escritório pegar o carro.
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O doutor E. R. espremeu fortemente a ponta da caneta contra a prancheta fazendo com que a mesma estourasse e a pequena esfera do bico. Imediatamente a tinta borrou o papel. Teria o paciente percebido o acidente, teria 461 notado o nervosismo e o esforço que havia feito para falar daquela forma. Mas havia decidido ser mais incisivo. Jogou a caneta fora na lata de lixo ao pé da mesa e levantou-se rebuscando na gaveta outra. 461 parecia não ter percebido o ocorrido.
- Não sou covarde, doutor. De qualquer forma a minha vida não é isto, não é esta, sou apenas um invólucro de mim mesmo. Só preciso ter paz. Talvez esteja na hora de decidir sobre a próxima viagem.
- Para aonde gostaria de ir, onde gostaria de estar?
- Se não for não voltarei. A forma é mais importante do que o onde neste caminho peregrino entre as estrelas. Sabe o que queria doutor?
- Diga.
- Não perceber, não sentir, não chorar. Responda doutor: o maior sábio é aquele que não percebe nada e não sofre nada, ou o que sofre tudo porque tudo percebe?
- Você não me respondeu às perguntas anteriores, e já me faz outra.
Mas o doutor sabia que nesse momento era mais importante responder ele às perguntas do paciente do que o contrário. O importante agora era ganhar a confiança de 461. Então respondeu:
- Talvez a maior sabedoria seja perceber e poder decidir se vale a pena levar muito a sério e se indispor com aquilo que percebeu. Será a maior sabedoria fazer ouvidos de mercador e olhos de Saramago para o que não vale a pena sofrer?
A resposta saiu de supetão. Quando percebeu o doutor E.R. já havia reformulado a questão. Não o queria, mas a pergunta parecia ser mais direcionada a si mesmo do que ao paciente. A pergunta contida em sua resposta saiu quase num sussurro. 461 percebeu o constrangimento nos olhos do doutor, quando se levantou na sua frente. Colocou as mãos nos bolsos da calça hospitalar, sorriu e começou a andar em direção à porta do consultório.
Parou no meio do caminho, voltou-se para o médico e em tom quase casual disse:
- Não se preocupe meu amigo. Ambos sabemos o quanto precisamos não sentir para tentar alcançar a felicidade. Matar o sentir, eis o que aprendemos desde cedo. Matamo-nos a cada instante. Precisamos da hipocrisia para viver. Já matamos a vida. E decretamos o fim do amor junto com nossa apatia e boçalidade.
- Mas é preferível sermos felizes a ter razão sempre – disse o doutor tentando recompor a situação.
- A maioria sim, acho eu, doutor. Mas o senhor? Mas e eu, doutor? Não é possível ser feliz, doutor. Ou a mediocridade ou a doença. Esta, pelo menos, é honesta. E aqui estamos os dois, amando e sós. Excesso de amor, excesso de compreensão, excesso de sensibilidade, excesso de vida.
E 461 virou-se de novo em direção à porta e saiu.
*
Enquanto fuma para relaxar e esperar que o chamem para a audiência, lembra-se de sua namorada, a enfermeira que trabalha no hospital, e o que ela lhe contou do paciente terminal. Será que deu tudo certo? Pensava nela e projetava o dia em que sairia livre para viver com ela. Se tudo tivesse dado certo àquela hora estava feito. Sentiu-se bem, como se aquele ato redimisse sua atividade ilícita e a situação em que se encontrava. “Coca é coca!”, pensou. Depois sorriu ao lembrar-se dela, a sua enfermeirazinha de família rica. O pai, advogado, alto funcionário de uma multinacional e a mãe diretora de uma universidade. Pensou que podia sair dali e fazer uma faculdade... Mas ia demorar... Só se ele fizesse lá dentro, de graça, afinal alguma compensação o maldito Estado deveria lhe dar! Falaria com ela na próxima semana. Ela deveria falar com alguém para ver como é isso. Levou o pacotinho da “purinha” para misturar com a morfina que não faz mais efeito. Afinal todos são humanos e merecem dó. Um dia ele também preferirá morrer assim a ficar sofrendo feito um cachorro pestilento abandonado no fundo de um beco escuro e azinhavradro. Por que não? As mortes heróicas são apenas para os grandes vultos da história? Os homens infames de outrora, cantados por Homero e Vergílio, ou mesmo os irmãos de Dostoievski e os marujos de Melville, tiveram sua nobreza indômita preservada no cômputo das necessidades históricas da humanidade. Os de hoje só aparecem num lampejo, como réstia de uma moral retroativa sem inspiração a não ser pelo incremento – econômico – das mazelas alheias. “Ai daquele para quem o bom nome signifique mais do que a virtude! Ai daquele que, neste mundo, não corteje o desfavor! Ai daquele que não queira ser verdadeiro, mesmo quando na falsidade esteja a salvação”. Um advogado sai da sala do juiz acompanhado de outro preso. Sabe que é a sua vez. Vai dar tudo certo. O doutor tem reputação nesses casos e afinal está sendo bem pago. É só mais uma audiência, juiz tem que trabalhar. Logo estará com sua “princesa”, sua enfermeirazinha.
*
O doutor não soube quantos minutos se passaram até que bateram na porta. Mesmo sem responder, leu em sua prancheta: “Mas este retorno não é exatamente a morte, como suicídio, mas o homem final que deseja a morte para renascer no eterno retorno como ação positiva. Alegre, ativo, afirmativo, forte, seletivo, alegre, afirmativo, ele mesmo. No fundo não quer se matar, apenas a depressão, mas não é paranóia nem esquizofrenia, ou a é no sentido afirmativo. Retirar remédios para essas doenças e apenas tratar a depressão. Por que depressão? Cuidado com a tendência ao tratamento espetacular, mediático. Nietsche não é relativista... Amor profundo à vida e à liberdade de ser. A solidão: o afastamento é impossível, o contato é mortal. Não usar poder aqui; o poder é incognoscível. Ver o mal-estar com os outros por amor à verdade. A vida não tem sentido: o sentido é esse. O cuidar de si em 461 precisa ser recuperado. A auto-estima também é egoísmo. Liberar paciente logo. Suspender...”. Bateram de novo na porta com mais força e o doutor E.R. interrompeu-se.
*
Quando chegou a casa o advogado acionou a porta automática com o controle remoto em seu carro. O carro da esposa já estava ali. Parou o carro do lado do dela, deixando a terceira vaga para o carro da filha. Faltavam alguns minutos para a meia-noite. Saiu cuidadosamente para não bater a porta do carro no dela, enquanto o portão iniciava sua rotina de fechar-se lentamente. Subir, descer, lento para subir, lento para descer. Descer para logo subir. Percebeu-se quedado a olhar para o movimento descendente do portão automático da garagem. Ao passar pela frente do carro dela sentiu o calor que ainda se dissipava do radiador bater em suas pernas. Ela chegara fazia pouco. Subir para logo descer, o último suspiro de um portão a fechar o dia. Quando chegou ao quarto de casal encontrou-a deitada já dormindo. Semi coberta pelo lençol, deitada de bruços, a luz incipiente do candeeiro no canto do quarto revelava uma pequena sereia tatuada na omoplata esquerda. Suas coxas desnudas o fez pensar se ela o aceitaria naquela noite? Ele queria? Ela desejaria? “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Obra de lápis e esponja”. Quiçá todas as possibilidades possam ser medidas pelos momentos de cansaço humano, e toda a história explicada por isso. Afinal apenas isso!
*
FIM
COMEÇO DE INVERNO!
José Manuel de Sacadura Rocha é professor, português e brasileiro. Autor de: Fundamentos de Filosofia do Direito - Atlas; Sociologia Jurídica - Elsevier/Campus e Antropologia Jurídica - Elsevier/Campus.
E-mail: jsacadura@ultrarapida.com.br. Blog: http://profsacadura.blogspot.com/