Era véspera de ano novo e o calor baiano se fazia sentir mesmo à noite. Eu tinha sete anos e ainda não estava acostumada a ficar acordada até tarde, aquela, porém, era uma noite especial e eu não deixaria o sono estragar nada.
Eu ia passar a virada com meu pai, meu paizinho querido, que por acordos de custódia entre pais separados eu só via aos fins de semana. Acho que minha mãe não pensou bem ao ficar com os dias de semana e na minha mente infantil associar-se à acordar cedo, escola e tarefas enquanto meu pai ficava comigo aos fins de semana e ocupava uma vizinhança semântica muito mais divertida.
Nesse ano a divisão tinha sido natal com a mãe, ano novo com o pai, pra mim estava bom, pra eles também.
Todos de banho tomado e exibindo as roupas brancas que ganharam de natal meu pai, meu tio Tércio e eu entramos na Brasília branca e dirigimos dez minutos até a cabana de praia de um amigo onde uma festa já se mostrava animada quando chegamos. Todos pareciam muito felizes, a música estava no ar, copos nas mãos e sorrisos nos rostos.
Lá pelas dez eu devo ter bocejado, afinal minha hora de ir pra cama já tinha passado há tempos, quando meu pai e meu tio vieram explicar que eu simplesmente não podia dormir, que aquela noite era especial não só porque era ano novo mas porque:
- É o fim de uma década! - como colocou meu pai, com uma expressão que era uma mistura de alegria e seriedade que eu jamais esqueci.
Era o final de uma década e o início de uma outra novinha em folha e aquilo tudo de repente tomou proporções muito maiores na minha cabecinha. Dez anos era muito tempo, mais do que eu já tinha vivido e eu já tinha visto tanta coisa. A sensação de importância daquele momento só pôde ser ampliada quando me fizeram responsável por avisar todo mundo quando faltasse um minuto para meia noite.
Meu tio tirou seu relógio do pulso e com meu pai me passaram as noções básicas de um relógio, que uma volta do ponteiro fininho era um minuto e quando o ponteiro comprido chegasse naquele lugar é porque faltava só um minuto para a próxima década.
Segurei o relógio com as duas mãos e por duas horas olhei pra ele fixamente, só me distraí quando notei que havia lá uma mulher num vestido de cetim vermelho. Era ano novo, era o fim da década, como assim ela não estava de branco? Mas ela se virou e eu pude notar uma pequeníssima pena branca costurada à cintura do vestido, o que me acalmou, havia nela pelo menos algo branco e voltei minha atenção pro relógio.
Quando faltava dez minutos avisei meu pai que imediatamente espalhou a notícia, depois cinco e um minuto até a festa em coro fazer a contagem regressiva, três, dois, um e feliz ano novo!
Pronto, a nova década estava lá e nós nela, eu estava feliz com essa chance de renovação, apesar da pouca idade havia coisas que eu gostaria de deixar num lugar muito distante como a década passada. E a nova começava bem, ao lado do meu paizinho querido, associada a tudo de bom.
* * *
Sons
Os sons da cidade entram pela janela sem pedir licença.
Se confundem uns nos outros e juntos vão entrando sem cerimônia,
ah, o eterno caminhão de lixo!
Vozes serpenteiam por entre os postes, voam corajosamente alto
e num giro vêm ter comigo que nem lhes conheço ou dou confiança.
Outros escapam pela tangente e chegam ainda mais longe ,
voam ainda mais alto,
e se desfazem sozinhos no ar rarefeito da madrugada
certos de sua existência e legitimidade apesar da falta de testemunhas.
Loucura
já não me lembro quantas vezes
a loucura pousou em mim seu hálito frio
bem aqui, atrás da orelha,
soprando algum desvario
jogue tudo pro alto – disse ela
agora se jogue no chão
feche os olhos e durma
que a bruma tranquila já vem
- deviam ter me avisado que a loucura não bate bem.
I
aquela manhã deixou em mim a mais completa sensação de morte.
até o vento quente entrando pela janela do bonde parecia fora de contexto.
o sol, tanto sol, tanto céu pra nenhuma nuvem,
opressor.
sentada no café era como se eu não estivesse.
era parte agora de uma dimensão paralela,
onde só se serve água sem gelo.
o tilintar das xícaras e colherzinhas minúsculas soava abafado,
o garçon passava devagar, os carros passavam devagar.
vi dois pombos mortos aquele dia, montinhos de pena bagunçados no asfalto,
os turistas desviando o olhar.
e eu vagando junto dos outros fantasmas, a um centrímetro do chão.
II
Descobri o pavor de perdê-lo
Amarga e terrível insanidade
convulsões, calafrios
Aceitar as mudanças é o modo pleno
mas o homem ainda não superou o animal
e se expõe do modo mais aberto
Cego
Como se seu coração bombeasse meu sangue
Amanda Vox tem 26 anos. É brasileira do mundo, atualmente em Lisboa. Formada em Letras pela USP, faz de tudo um pouco, escreve, toca, pinta e borda. Já há tempos que volta e meia passa pelo Cronópios para ler um conto, poema ou ensaio e pra descobrir o que está acontecendo na literatura brasileira atual. E-mail: amanda_vox@yahoo.com