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3/11/2009 23:19:00
O matadouro



Marcos Vinícius Almeida 


A única vez que tive que matar uma galinha pra minha mãe, eu fiquei com dó do bicho, e como a gente não pode ter dó na hora de matar, a galinha andou por meia-hora sem cabeça no terreiro aqui de casa. Não sem cabeça de tudo, tinha uma pelinha prendendo ela – a cabeça no corpo, e minha dó não deixava a alma do bicho sair.

Mas quando se matava porco, isso sim era uma festa. Você já viu um porco morrer? O bicho engana bem - urra feito gente e resiste com propriedade; tem alma mais carnuda que uma galinha ou frangote, obviamente.

A alma do porco é mais suja, atolada naquilo que há de mais natural da vida – esbanjar saúde nas refeições e safadezas: por isso a carne de porco é tão saborosa – talvez, desvario.

O matadouro ficava debaixo da Igreja Velha, ali no finalzinho da horta do Geraldo Mesquita. E todos os bifões da cidade, saiam dali. Só que a gente nem atinava, não ligava uma coisa na outra. O boi, amarrado, olhinho triste antes da pancada – e bife, temperadinho na boca da gente. Era uma conta que não tinha importância – até hoje não sei se tem alguma valia, acredito - assim como o porco, ou frango – não é mesmo?

Estranho, ou não, aquele matadouro, é que era nossa grande diversão.

- Vamô lá no matadouro hoje? qualquer dos moleques, que sou eu também, perguntava.

Não tinha problema algum em ficar ali – ouvir aquele “créquê” da marreta de cinco quilos retrucando no crânio do bicho, que cambaleava, trancava as pernas e laçava o chão. O açougueiro vinha com uma faca especial, de cabo branco, bem lembro, e ia abrindo a goela do boi, de toda cor o boi. Era um natal esquisito aquilo. A gente ria, as crianças, eu digo. Sentadas igualzinho torcida naquele curralzinho de tábuas pretas.

O sangue era mais vermelho: demais... Talvez fosse isso que atraia a gente, acho. Aquele tom colorido, igual boca de moça. A gente saia dali animado e cheio de comentários, como saia do campinho de terra batida do Areão.

Hoje, o matadouro mudou de lugar e o processo é mais higiênico – será que tem aquele tom vermelho bonito ainda?
Não sei.

























Marcos Vinícius Almeida nasceu no ano de 1982, romancista, publicou seu primeiro romance, "Inércia" (em julho de 2009) pela editora carioca Multifoco; a publicação lhe rendeu o convite para se tornar Editor do selo Terceira Margem. Marcos Reside em Luminárias-MG. Possui publicações em sites, antologias e revistas. Atualmente trabalha no seu próximo romance e num livro de contos. Além disso, é calaborador da Revista Bula(Goiânia-GO) editor do blog Bicho de Se7e Cabeças. Twitter: @quebracorpo E-mail: mvalmeida.7@gmail.com Blog: http://www.prosacom.blogspot.com/

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