― Alô, Robenildo? Robenildo?
― Quem?
― É o Robenildo?
― Aqui é a Rachelli.
― Vixi Maria eu confundi as voz. Rachelli, tudo bom, minha fia?
― Quem tá falano aí?
― Aqui é Genáro.
― Que Genaro?
― O Genaro da Jefrésia. Esqueceu menina doida?
― Ah, seu Genaro. Tudo bom?
― Eu to bem, hihihi.
― Como tá tu, quer dizer, como tá o sinhô?
― Vô bem, minha fia. O Robenildo tá aí?
― Ixi, num sei não.
― E quem é que sabe, diacho?
― Minha mãe deve de saber.
― Pois, minha fia, vá perguntar, por favor, que eu tô ligano com um cartão, num dá pra falar muito não.
― Tá, tá bom, vou lá perguntar.
― Tá certo minha fia, vá lá. (Oh menina estranha essa, viu – disse pra si mesmo –, o diabo parece que bebe, tem as idéia tudo trocada. Nãm!).
― Oh Genaro, é tu, homi?
― Robenildo, rapá, é ocê, diacho?
― Sou sim diabo doido, quem era de ser, ora mais?!
― Tua fia disse que num sabia se tu tava em casa.
― Ela é abestada, macho, tu sabe como ela é.
― Ahahahaha, é verdade, a menina é doidinha.
― Mas fala aí a que devo a alegre ligação.
― Falando bonito: “alegre ligação”, ahahaha.
― Tô estudano, macho, depois de véi, já sei até um monte de palavra difíce.
― Mas tá muito sabido, tu. E como é que tu tá, tudo bem?
― Tô não!
― Por quê?
― Diarréia, macho; tô com uma fininha danada de fina. Oh diabo rúin!
― E o que foi que tu comeu, homi, pra tá com fininha?
― Nada de mais.
― Quando foi que tu começou a sentir a água escorrendo?
― Foi no aniversáro da Cremildes.
― Num tinha comida estranha lá não?
― Tinha nada, era só comida boa: buchada, sarrabui, feijoada, só coisa boa, macho, num sei o que foi que me fez mal.
― Pois numa é macho, se só tinha isso num era pra tu tá mal não.
― Mas e tu, como tá tu?
― Eu tô bem.
― E o teu patrão, aquele escrevinhador.
― Escritor, macho!
― Isso mermo!
― Ele tá bem.
― Ele conversa muito com tu, ou não fala com empregado?
― Cunversa, meu patrão num tem isso não, macho, ontem mermo a gente tava falando do probrema lá do senado, do tal de senadô. O diabo do homi parece que empregô todo mundo dele lá no senado como bem quis.
― É mermo, macho?
― Tu num viu não na televisão, não?
― A muié só vê novela. Ô diabo do meu abuso.
― Pois, rapaz, tá todo mundo querendo botar o bigodudo pra fora de lá, mas ele diz que é anjinho, num fez nada não, é tudo caluna e difamação.
― Caluna? O que é isso, macho?
― Tu num sabe o que é caluna não? Teu estudo num tá servino não, viu véi, caluna é quando as pessoa diz que tu fez o que tu num fez.
― E o que é que tão dizeno que eu fiz?
― Deixa de ser abestado, tua fia tem a quem puxá, viu, macho.
― Num xinga não!
― Macho, quando eu falei “tu” era só pra dá um exempro.
― Ah bom, então fala direito, macho.
― “Fala direito”...
― Mas me diz: qual foi o grande probrema desse senadô ter empregado esse pessoá?
― Parece que o véi fez umas contratação aí sem avisá ninguém, uns esquema doido aí, sabe? Chamô os amigo pra trabaiá, pagô uns salário muito doido aí. Enfim, pegô um mói de gente e botô lá dentro.
― Êita que povo lalau, macho.
― É sim, tudo lalau, mas tem um fio e uma fia dele que também tem uns negócio estranho aí.
― Vixe Nossa Senhora, que povo rúin.
― É sim.
― E num vão botá o homi pra fora não?
― Já passo, macho, e num fizerum nada não.
― Por quê?
― Sei lá, esse povo num liga pra ninguém não, Robenildo, só querem é saber deles mermo, tudo macomunado, povo bom é de pisa; se eu pudesse, macho, eu dava uma surra de cinturão no traseiro deles que eu queria ver eles roubá mais.
― Eles matavam era tu, besta.
― Matavam, mas eu quebrava tudin, ora se num quebrava, bando de ladrão sem vergonha duma porra.
― Genaro, tu é doido, macho.
― Doido o quê, eu num gosto é de quem fica rico roubando a gente.
― Eu também não, Genaro, tu tem razão, esse povo precisava era duma surra daquelas pra ficar um mês com a bunda roxa sem poder sentar.
― É, mas vamo mudar de assunto: quando é que tu vem aqui me visitá.
― Vixi, num sei se vô não.
― Por quê?
― É longe, depois que me mudei pro Mato Grosso, fica difíce ir aí nos interior do Ceará.
― Mas dá pra vim, homi.
― Por que tu não vem, então?
― Posso não.
― E por quê?
― Tenho tempo não, trabaio muito.
― Tu tá é com cunversa.
― Que cunversa o quê?! Me respeite!
― Cunversa , tu só quer que eu vá, mas tu num vem, tu é um amigo muito do fulerage.
― Tu me respeita, seu bosta.
― Bosta é tu, marmenino!
― Se tu tivesse aqui, macho, eu te dava uma porrada.
― Dava porra nenhuma.
― Macho tu vai ver quando eu te encontrar, tu vai apanhar tanto.
― Vou nada, tu apanha até da tua muié, que eu tô sabeno.
― Macho tu para, macho! Tu tá me deixando nervoso.
― Pois pode ficar, bestarréi
― Eu vô desligá, se não eu sô capaz de passar por esse telefone e te dá um soco aí onde tu tá.
― Vixi, e tu agora é o Deive Copefíldi, é?
― Macho, vai te lascar, vai, fidumaégua!
― Vai tu, Copefíldi.
― Eu vou te pegar, tu vai ver.
― Pega nada.
― Macho, tu vai sofrê tanto, macho, tá me ouvino? Tá ouvino, porquêra? Alô, alô, alô. Mas num é que o fidumavaca desligô o telefone. A desgraça!
William Lial é escritor (poeta, cronista, ensaísta, resenhista), autor dos livros Sombras, Noturno e O mundo de vidro, além de colaborar com veículos literários no Brasil e fora do Brasil.
E-mail: wlial@hotmail.com Blog: http://williamlial.blogspot.com/