Café Literário Cronópios





La poesía del interior argentino
por Luis Benítez




 

O habitante das falhas subterrâneas - cap.6
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Sobre a calçada
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Conversa & Acerto
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Mulher na árvore
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Pequenos delitos
por Rodrigo Novaes de Almeida







 
29/11/2009 01:40:00
Conversa de amigo



Por William Lial




 

Alô, Robenildo? Robenildo?

Quem?

É o Robenildo?

Aqui é a Rachelli.

Vixi Maria eu confundi as voz. Rachelli, tudo bom, minha fia?

Quem tá falano aí?

Aqui é Genáro.

Que Genaro?

O Genaro da Jefrésia. Esqueceu menina doida?

Ah, seu Genaro. Tudo bom?

Eu to bem, hihihi.

Como tá tu, quer dizer, como tá o sinhô?

Vô bem, minha fia. O Robenildo tá aí?

Ixi, num sei não.

E quem é que sabe, diacho?

Minha mãe deve de saber.

Pois, minha fia, vá perguntar, por favor, que eu tô ligano com um cartão, num dá pra falar muito não.

Tá, tá bom, vou lá perguntar.

Tá certo minha fia, vá lá. (Oh menina estranha essa, viu – disse pra si mesmo –, o diabo parece que bebe, tem as idéia tudo trocada. Nãm!).

Oh Genaro, é tu, homi?

Robenildo, rapá, é ocê, diacho?

Sou sim diabo doido, quem era de ser, ora mais?!

Tua fia disse que num sabia se tu tava em casa.

Ela é abestada, macho, tu sabe como ela é.

Ahahahaha, é verdade, a menina é doidinha.

Mas fala aí a que devo a alegre ligação.

Falando bonito: “alegre ligação”, ahahaha.

Tô estudano, macho, depois de véi, já sei até um monte de palavra difíce.

Mas tá muito sabido, tu. E como é que tu tá, tudo bem?

Tô não!

Por quê?

Diarréia, macho; tô com uma fininha danada de fina. Oh diabo rúin!

E o que foi que tu comeu, homi, pra tá com fininha?

Nada de mais.

Quando foi que tu começou a sentir a água escorrendo?

Foi no aniversáro da Cremildes.

Num tinha comida estranha lá não?

Tinha nada, era só comida boa: buchada, sarrabui, feijoada, só coisa boa, macho, num sei o que foi que me fez mal.

Pois numa é macho, se só tinha isso num era pra tu tá mal não.

Mas e tu, como tá tu?

Eu tô bem.

E o teu patrão, aquele escrevinhador.

Escritor, macho!

Isso mermo!

Ele tá bem.

Ele conversa muito com tu, ou não fala com empregado?

Cunversa, meu patrão num tem isso não, macho, ontem mermo a gente tava falando do probrema lá do senado, do tal de senadô. O diabo do homi parece que empregô todo mundo dele lá no senado como bem quis.

É mermo, macho?

Tu num viu não na televisão, não?

A muié só vê novela. Ô diabo do meu abuso.

Pois, rapaz, tá todo mundo querendo botar o bigodudo pra fora de lá, mas ele diz que é anjinho, num fez nada não, é tudo caluna e difamação.

Caluna? O que é isso, macho?

Tu num sabe o que é caluna não? Teu estudo num tá servino não, viu véi, caluna é quando as pessoa diz que tu fez o que tu num fez.

E o que é que tão dizeno que eu fiz?

Deixa de ser abestado, tua fia tem a quem puxá, viu, macho.

Num xinga não!

Macho, quando eu falei “tu” era só pra dá um exempro.

Ah bom, então fala direito, macho.

― “Fala direito”...

Mas me diz: qual foi o grande probrema desse senadô ter empregado esse pessoá?

Parece que o véi fez umas contratação aí sem avisá ninguém, uns esquema doido aí, sabe? Chamô os amigo pra trabaiá, pagô uns salário muito doido aí. Enfim, pegô um mói de gente e botô lá dentro.

Êita que povo lalau, macho.

É sim, tudo lalau, mas tem um fio e uma fia dele que também tem uns negócio estranho aí.

Vixe Nossa Senhora, que povo rúin.

É sim.

E num vão botá o homi pra fora não?

Já passo, macho, e num fizerum nada não.

Por quê?

Sei lá, esse povo num liga pra ninguém não, Robenildo, só querem é saber deles mermo, tudo macomunado, povo bom é de pisa; se eu pudesse, macho, eu dava uma surra de cinturão no traseiro deles que eu queria ver eles roubá mais.

Eles matavam era tu, besta.

Matavam, mas eu quebrava tudin, ora se num quebrava, bando de ladrão sem vergonha duma porra.

Genaro, tu é doido, macho.

Doido o quê, eu num gosto é de quem fica rico roubando a gente.

Eu também não, Genaro, tu tem razão, esse povo precisava era duma surra daquelas pra ficar um mês com a bunda roxa sem poder sentar.

É, mas vamo mudar de assunto: quando é que tu vem aqui me visitá.

Vixi, num sei se vô não.

Por quê?

É longe, depois que me mudei pro Mato Grosso, fica difíce ir aí nos interior do Ceará.

Mas dá pra vim, homi.

Por que tu não vem, então?

Posso não.

E por quê?

Tenho tempo não, trabaio muito.

Tu tá é com cunversa.

Que cunversa o quê?! Me respeite!

Cunversa , tu só quer que eu vá, mas tu num vem, tu é um amigo muito do fulerage.

Tu me respeita, seu bosta.

Bosta é tu, marmenino!

Se tu tivesse aqui, macho, eu te dava uma porrada.

Dava porra nenhuma.

Macho tu vai ver quando eu te encontrar, tu vai apanhar tanto.

Vou nada, tu apanha até da tua muié, que eu tô sabeno.

Macho tu para, macho! Tu tá me deixando nervoso.

Pois pode ficar, bestarréi

Eu vô desligá, se não eu sô capaz de passar por esse telefone e te dá um soco aí onde tu tá.

Vixi, e tu agora é o Deive Copefíldi, é?

Macho, vai te lascar, vai, fidumaégua!

Vai tu, Copefíldi.

Eu vou te pegar, tu vai ver.

Pega nada.

Macho, tu vai sofrê tanto, macho, tá me ouvino? Tá ouvino, porquêra? Alô, alô, alô. Mas num é que o fidumavaca desligô o telefone. A desgraça!








 

William Lial é escritor (poeta, cronista, ensaísta, resenhista), autor dos livros Sombras, Noturno e O mundo de vidro, além de colaborar com veículos literários no Brasil e fora do Brasil.
E-mail: wlial@hotmail.com Blog: http://williamlial.blogspot.com/

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