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16/1/2010 18:57:00
O jogo da velha. Contraponto de primeiríssima espécie



Por Ivone C. Benedetti

 



Ó, o sangue está escorrendo pelas tuas pernas. Vocês entram no meu quarto alucinadas, fazem as coisas correndo, trocam meu soro como meu pai trocava o reservatório de água do pinteiro, a mesma falta de jeito, eu não sou bicho. Quem precisa ser tratada é você, não eu. Outro dia veio a outra, a loirinha, aqui com a cara coberta de pústulas. Gritei de medo, ninguém via, ninguém vinha. Ela foi, fiquei apavorada, pensando na volta dela. Um lázaro leproso não me assustava tanto. Graças a Deus, apareceu ontem com a cara limpa. Tanto médico por aqui de que serve? Estou no inferno: vocês pagando os pecados e eu assistindo. Por que me condenaram a ficar vendo essas coisas da cama? Quero outra paisagem. Chamem meu marido. Não, ele não morreu, porque semana passada esteve aqui. Parado ali ficou, múmia em pé, como sempre, aliás. Não sabia trocar uma lâmpada. Perguntei do corrupião na gaiola, não soube responder. Diz que não sabe de corrupião nenhum. Garota, não vai embora assim. Olha o sangue. Essa gente menstrua e não percebe.



 

Voltei do hospital, fui olhar a cadeira. Ela falava com tanta certeza, que talvez o louco fosse eu. Ameaça de enfarto: dessa vez ela se vai. A vida está difícil, ela vê sangue em tudo. Homem formado, eu, capaz de construir pontes, não consigo resolver os problemas da velha. Antes, as manias dela eram da alçada do invisível. Chegava a adivinhar as intenções da gente. Como? Alguém tinha soprado, dizia. Era um espanto. Eu nunca sabia se estava sendo lido por dentro. Mas depois, quando o delírio passou para o físico, foi um fiasco. Olha, vai pisar na merda! A gente olhava, não tinha merda nenhuma. O corrupião hoje não cantou! Nunca tive corrupião, nem sei como é. No dia da internação disse que estava sem ar, foi sentar na cadeira, deu um grito: que na cadeira tinha sangue. E enfartou. O sangue, que nunca se separou de mim, foi causa do seu enfarto. Sempre um sangue que não existe. Chamei a ambulância. Nem tive tempo de olhar direito para a cadeira. Na volta, fui olhar... Nem daquela vez ela tinha acertado! Enfartou por nada.



Uns dias antes do parto eu sonho com um combate naval nas costas da África, tempos passados, nem sei quando, uma caravela cheia de guerreiros, flechas, flechas, um céu de flechas. Ele está em pé na amurada, na amurada em mangas de camisa, peito aberto, fazendo o quê? Não combate. Só fica, olhando, buscando o que não consigo ver. Uma flecha lhe entra no olho esquerdo, ele cai no mar. Acordo gritando, acordo meu marido. Digo: nosso filho vem cego de um olho. E ele: dorme aí, mulher, tá ficando louca? O menino não veio cego, mas veio com mancha vermelha na pálpebra esquerda. Uma noite, recostada na cabeceira, eu amamento o menino na penumbra, olhando para a parede da frente, sonolenta, minha cabeça pende, meu olhar dá com o rosto dele, uma mancha de sangue cobre todo o olho esquerdo dele, grito, acordo meu marido, assusto o menino, meu marido grita, o menino chora. Louca! Nunca mais fui chamada por outro nome. Ele dizia: louca faça isto, louca faça aquilo. E assim fiquei. Porque o que se diz é.



 

Os médicos dizem que ela vai ter alta semana que vem. Já está acertada casa de repouso. Uma nota. Fiquei em dúvida entre duas delas. Uma parecia boa por causa do jardim, grande, bonito. A outra, por causa da assistência psiquiátrica mais confiável. Coisa que ela precisa mais. Fiquei com esta, dane-se o jardim. Que ninguém venha me dizer no futuro que deixei minha mãe numa espelunca qualquer. Ainda bem que tenho boa posição, condições de pagar. E se eu ganhasse uma merreca? Passaria por ingrato. Nem posso mais imaginar a velha aqui, que não diz coisa com coisa, enfermeira zanzando pelo apartamento, tropeçando com a gente de madrugada no corredor, contando que a velha mijou na cama. Ninguém vai poder dizer que sou um cara cruel. Cruel mesmo é a vida, que põe sob o comando de um cérebro frágil um corpo perecível e putrescível, carregado por um esqueleto mau equilibrista. Máquina em nada aparelhada para as altas funções que Deus lhe teria confiado, como dizem. Se nem percebe quando chegou a hora de parar de vez...



 

Essa que saiu agora, está vendo? Ontem estava com as pernas sujas de sangue. Não faça essa cara, como se eu fosse louca. Como quando eu dizia que o chão estava cheio de água, eu via até os seixos do fundo, vocês riam: que aquilo era assoalho. Aliás, você vem me visitar e fica olhando pela janela, contando o tempo para sair. Quer ver que não minto? Me alcança aí essa campainha. Que diabo, essa campainha está sempre fora de alcance. Vou chamar a moça de volta e perguntar aqui, na tua frente, se é verdade ou não que ontem as pernas dela estavam sujas de sangue. Essa moçada de hoje menstrua e não percebe. Ainda mais uma enfermeira, onde já se viu? Você me pôs neste inferno. Já fiquei boa. Semana que vem vou ter alta. Chegue mais perto. Sei o que você está pensando: melhor me mandar para um asilo. Se for asilo, quero com jardim. Assim sua mulher não tem trabalho com uma velha maluca. Chegue mais perto, me dê essa campainha. Quero chamar a morte. Ah, ela vem entrando. Agora pergunto se é verdade ou não que ontem...



Não consegui estacionar em lugar melhor. Meu carro está lá perto da esquina, um sujeitinho com cara de malandro arranjou aquela vaga suspeita. Desconfio da honestidade do cara e da legalidade da vaga. Daqui enxergo uma placa que não tinha visto. Será estacionamento proibido? Já até imagino: chego lá, multa no para-brisa, cadê o cara que me arranjou a vaga? Sumido. Ainda bem que me neguei a pagar adiantado. Em compensação, por vingança ele pode riscar o carro. Mas o que é que ela está dizendo? Que a enfermeira estava com sangue escorrendo pelas pernas? Essa é boa, eu pagava pra ver! Deve estar dizendo isso porque percebeu que olhei para as pernas da moça. A velha adivinha certas coisas. Mas essa mania de sangue já encheu o saco. A história da água... Depois ela foi até o armário, pegou uma toalha para cada um enxugar os pés. Não vou alcançar campainha nenhuma. Ela insiste. Olha só, um marronzinho conversando com o sujeito. Ah, é treta na certa. Vou dar um pulo lá. Aproveito que a enfermeira vem entrando e escapo. Já volto.



 

Meu jogo se desdobra em presente, passado e futuro. Didatismos. Esses são tempos de verbo: indicam ações e estados. O tempo do que sou é outro. O que sou é só presente, presente do envelhecimento. Vivo o desenrolar sempre agora de um enredo que não se entende com seu sujeito. À medida que o rolo se abre, o papel vai sendo exposto ao tempo, aquele outro que é medido pelas nuvens. E não resiste. O sujeito se apaga. Velhice, momento de um sujeito apagado. História que nunca se quis verdade não é mentira. Chego com dívidas ao retalho de tempo que me resta antes da orla que arremata a vida. Por isso me odeiam. Credores implacáveis. Quem não? Quem não tem dívidas é só ignorado. Minhas palavras são delírio, meus pensamentos, o indizível. O presente andante trôpego que me resta devo passar nos jardins de um asilo. Quando não puder passear, quando minhas pernas se dobrarem, que haja por perto uma cama de onde eu consiga enxergar pontas de gladíolos vermelhos balangando ao som de alguma brisa ligeira. Se o quarto não tiver tevê...



Um dia ela me disse que eu era reencarnação de Henrique II, rei que morreu com uma lasca de lança espetada no olho. Dizia isso inspirada por um sonho maluco lá dela, o que prova ser louco o louco até dormindo. Uma das primeiras coisas que fiz na vida foi pesquisar a vida do tal rei, pois não me desgostava tanto a ideia de ser reencarnação de um cara valente como aquele, ainda que azarado. Por uma honra dessas eu achava que valia a pena, quem sabe, dar crédito a uma mulher que vê o nada e lhe dá nome. Porque, de tudo o que ela vê, substancial e perene é o sangue. Se eu acreditasse nessas coisas, diria que reencarnar é uma tremenda canseira, mas trazer um rei carimbado na alma pode compensar. Muito mais esse que, além de bom estadista, era amante de uma das mulheres mais desejadas do tempo; bamba em torneios, foi justamente num deles que a flecha... (que digo?) a lança de um desastrado adversário se partiu e lhe penetrou olho e cérebro. Morte horrenda, demorada... Mas não foi dessa vez. O olho dele era o direito. 


O dia amanheceu limpo, o entra-e-sai no meu quarto está mais intenso, o soro vai acabar e não será reposto, o médico já passa, me dá parabéns por ter me aprumado depois do tropicão na morte, ouço o movimento dos carros manobrados no estacionamento, nas pausas o pio de algum passarinho, a alta se cumpre depois do almoço, antes meu filho aparece com cara de sei-cumprir-deveres, minha nora não vem junto – levando a filha à escola –, sou convidada para uma cadeira de rodas, não aceito, assisto ao acerto de contas, saio andando pela porta da frente, sou levada para um asilo chamado casa de repouso, distante cinco quilômetros da casa do meu filho, uma hora de carro, portanto, ali fico, quem sabe, num quarto como este, lençóis brancos, paredes laváveis, cama baixa, tevê dependurada na parede da frente, controle remoto na cabeceira, chinelos sobre um tapete bege, armário suficiente para minhas roupas, mesinha para os meus almoços sem sal, janela de cor nula: ali espero, vendo o sangue secar nas minhas veias e entornar-se por todos os cantos.






 

Ivone C. Benedetti nasceu em São Paulo. Formada em Letras pela USP, dedicou-se de início ao magistério e depois à tradução. Doutorou-se em literatura francesa. Realizou inúmeras traduções de obras francesas e italianas, sendo hoje uma das principais tradutoras brasileiras. Seu maior interesse sempre foi a literatura, mas só agora decidiu publicar sua primeira obra de ficção: "Immaculada" - WMF Martins Fontes (2009). E-mail: ivonecbenedetti@uol.com.br Blog: http://ivonecbenedetti.wordpress.com

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