21/1/2010 01:06:00 O habitante das falhas subterrâneas - cap.1
Por Ana Paula Maia
Apresentação
O habitante das falhas subterrâneas é um romance publicado em 2003 pela editora 7 Letras. Este é o meu primeiro livro e passado alguns anos percebi que tinha algumas dívidas com a história do protagonista Ariel Esperanto. Nesta edição revisitada por mim, algumas páginas foram suprimidas e o texto dividido em 29 capítulos ilustrados por Felipe Stefani. O livro virou folhetim para ser publicado aqui no Cronópios. Serão dois capítulos por semana. Para quem não leu o livro, esta é uma oportunidade de conhecer a história de Ariel Esperanto e suas vicissitudes.
A.P.M.
Felipe Stefani
Capítulo 1
Hei, você será um grande garoto. Alguém disse isso há uns dez, quinze anos e pra ser um grande garoto é bem complicado, principalmente quando não se sabe exatamente do que um garoto precisa pra ser um grande em alguma coisa, digo alguma coisa boa. Talvez não precise ser boa, só grande. Tem garotos que não querem ser grandes e garotos que não querem ser garotos, mas eu só não quero ser tão grande quanto o esperado. Enquanto eu nascia e eu juro que não queria sair e abandonar aquele lugar aconchegante mas eles enfiaram a mão lá dentro e me puxaram, algumas coisas aconteciam pelo mundo. Coisas que estão em almanaques e tudo. O povo gritava pelas ruas Diretas Já! Fome na Etiópia mata milhares de pessoas, vazamento de gás de uma empresa Norte Americana, efeito Estufa, lançam o cd rom, o laptop, o stonewashed que é um tipo de jeans que já vem desbotado de fábrica e amaciado, aquele filme Paris,Texas que é um road movie existencialista à beça e várias outras coisas importantes que eu não me lembro agora. Não sou culto nem nada mas quando decidi escrever senti vontade de saber o que acontecia naquele ano. Precisava de umas referências só isso. Não vou fazer como aquele sujeito, o Travis do Paris,Texas, que fica vagando pelo deserto durante uns quatro anos meio catatônico em busca do lugar onde seus pais o conceberam pra entender toda a droga da sua vida, até porque eu vivo com meus pais toda a droga da minha e devo ter sido concebido em 30 segundos num domingo chuvoso e enfadonho com a minha mãe cheia de bobs na cabeça e a cara toda lambuzada de creme pra rejuvenecimento. Acho que nem se eu ficasse durante uns trezentos mil anos no deserto seria capaz de entender patavina do que é a minha vida. Toda essa encheção de saco de contextualização é só pra evitar falar sobre a minha infância, que não foi tão má assim, mas os anos 80... que bela década perdida. Pelo amor de Deus o que eram aqueles videoclips, aquela coisa New Wave foi pra lá de ridícula. Uma bosta. Embora admita que me identifico bastante com o tal jeans stonewashed porque sou meio desbotado de fábrica também. É exatamente assim que me sinto na maior parte do tempo, desbotado, às vezes embaçado. Nas horas de maior angústia fico sufocado e acho que deve ser por causa do tal efeito Estufa que deixa tudo tão quente quanto o inferno e me deprime bastante saber que desde aquele tempo as pessoas já morriam de fome na Etiópia e os Estados Unidos faziam centenas de cagadas pelo mundo afora. Certamente nasci junto com a Era-Das-Tecnologias-Que-Cabem No Bolso talvez por isso além de desbotado e sufocado me sinta tão pequeno apesar dos meus 1,75m de altura. Ouvi uma centena de vezes, meu tio avô Avelino dizer que “a infelicidade do homem ocorre porque ele foi primeiro uma criança”. Ele tinha sido professor de filosofia durante toda a sua vida e depois que morreu colocaram seu nome num dos prédios da universidade onde lecionava. Ele gostava de decorar umas frases feitas de alguns grandes pensadores e depois ficava repetindo sem parar a mesma coisa. Era um sujeito classudo e tudo, mas meio triste. Costumava usar expressões do tipo: Trevas do entendimento e Incauto social, sei lá que diabos isso quer dizer. Era triste porque entendia coisas no mundo que outras pessoas não conseguiam e era quase impossível compreender o que dizia na maior parte do tempo, mas ainda assim era um sujeito e tanto e conhecia todos só de olhar. Tinha um olhar cortante e parecia ser capaz de ler os pensamentos das pessoas. Alguém disse uma vez que ele podia enxergar a nossa alma. Três dias antes de morrer me segurou pelo braço me olhou firmemente e falou Garoto, cuidado pra não se tornar sabido demais.Nunca me esqueci disso e me lembro muito bem que ele cheirava a livros empoeirados e já beirava os oitenta anos quando morreu. Às vezes me pergunto por que tomar cuidado com uma coisa dessas. Em se tratando de sabido tenho um irmão mais velho, o Danilo que é o meu oposto. Ele é inteligente e todos o adoram principalmente meus pais. Sem dúvida o Danilo é o ápice da concepção deles. Ele está terminando a faculdade de publicidade e trabalha numa agência de propaganda. Ele acha que a propaganda é a base da humanidade e que sua profissão é o que sustenta o mundo, se acha um grande intermediário, um messias. É um metido a besta que se deu bem fazendo isso porque é o maior mentiroso que eu já conheci. Ele mente pra todo mundo o tempo todo e não sente nenhum remorso por isso. O pior é que ele sabe mentir como ninguém. É de matar. Não vou ficar embromando com nada não, mas preciso avisar de antemão que não é nenhuma aventura extraordinário com fatos insólitos e fantasiosos. Foram só umas coisas que me aconteceram antes, durante e de certa forma depois do fim de semana em que precisei ir à casa dos meus tios no Rio de Janeiro. Isso não sai da minha cabeça. Quando coloco uma coisa na cabeça é um troço, mas pra que tudo fique bem esclarecido preciso fazer certas ponderações sobre aquelas pessoas magníficas indispensáveis para o fato de eu existir: meus pais.
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Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados no site www.pbase.com/sodesenho Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K, e “Sob o Silêncio dos Anjos” do poeta Alexandre Bonafim. Publicou o livro “O Corpo Possível” editado pelo coletivo Dulcinéia Catadora. Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.com E-mail: felipe.stefani@uol.com.br
Ana Paula Maia, escritora, nasceu no Rio de janeiro. É autora dos romances O habitante das falhas subterrâneas (editora 7 letras / 2003), A guerra dos bastardos (editora Língua geral / 2007) e da novela Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (editora Record / 2009). Participa de várias antologias, entre elas, 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira / organização Luiz Rufatto (editora Record, 2004) Todas as guerras - Volume 1 (Tempos modernos) / Org. Nelson de Oliveira – (editora Bertrand Brasil, 2009).Publica crônicas todos os sábados no site Vida Breve. Seu blog é: www.killing-travis.blogspot.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Ana Paula Maia no Cronópios.