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4/2/2010 00:46:00
O habitante das falhas subterrâneas - cap.5



Por Ana Paula Maia
 

Apresentação: O habitante das falhas subterrâneas é um romance publicado em 2003 pela editora 7 Letras. Este é o meu primeiro livro e passado alguns anos percebi que tinha algumas dívidas com a história do protagonista Ariel Esperanto. Nesta edição revisitada por mim, algumas páginas foram suprimidas e o texto dividido em 29 capítulos ilustrados por Felipe Stefani. O livro virou folhetim para ser publicado aqui no Cronópios. Serão dois capítulos por semana. Para quem não leu o livro, esta é uma oportunidade de conhecer a história de Ariel Esperanto e suas vicissitudes. A.P.M.




                                                    
                                                                                            Felipe Stefani
 


       Capítulo 5  
 

        Contei toda a estória sobre a briga com o Gustavo Ramos pra minha mãe e ela perguntou se eu andava me drogando. Eu juro que não acreditei no que ouvi. Eu tinha acabado de brigar pra defender a honra de um amigo, um gesto nobre aos olhos de qualquer um e ela me pergunta uma coisa dessas. Eu me controlei e respondi que não e ela ficou me olhando como se eu fosse um doente viciado. Eu disse que estava muito arrependido, mas perdi a cabeça na hora. Pra completar meu pai resolveu passar em casa e se juntou a nós naquela agradável conversa. Até que ele estava calmo, mas não demorou muito lá estava o amigo Jack Daniels e as inseparáveis duas pedrinhas de gelo em forma de coração tilintando no copo. Estávamos os três na sala e ele sentou aquela bunda ossuda logo após preparar o drink muito confortavelmente na sua poltrona de couro de búfalo. Fico pensado no pobre coitado do búfalo que foi escalpelado pra que ele se sentisse mais macho toda vez que se sentasse, afinal de contas, é um búfalo um animal selvagem.
       
A coisa começou com um: Ariel me diz uma coisa, onde foi que eu errei? Essa é a frase de pai quando está tentando entender alguma coisa da qual ele tem certeza que é apenas uma vítima. Aí vem a resposta reflexo: Pai, eu tenho feito tudo errado mas não é de propósito, às vezes eu... - comecei a gaguejar. É que ele me deixa tenso pra cacete. Não é de propósito! - Ele estava num tom bastante irônico e isso me mete muito medo quando ele está com o Jack e fala num tom irônico é capaz de qualquer coisa. Olha para seu irmão. O Danilo é o exemplo. Não olhe pra mais nada e ninguém. Olhe apenas pro seu irmão. Me responda uma coisa: Quando ele me deu uma dor de cabeça sequer? A verdade é que o Danilo sabia fazer suas trapaças muito bem. Ele tinha uma listinha bem suja por aí, mas o cara é bom mesmo. Ainda gaguejando daquele jeito mariquinha: Eu tô tentando me encaixar, pai. Eu não tenho culpa dessas coisas, elas acontecem. - Eu vou ligar para o dr. Otávio e saber o que tem sido conversado nessas sessões - interrompeu minha mãe. Tudo o que temos feito por você. Você não dá valor nenhum. Só sabe se meter em confusão. Eu morreria de vergonha só de passar em frente aquele colégio.
       
Pode ligar pro dr. Otávio. Ele mesmo disse que eu tenho feito progressos que estou indo muito bem e que é bem normal acontecer essas coisas, falei tentando apaziguar. Progresso? Ordem e Progresso. O nosso presidente fala exatamente como você, ele falou olhando as horas no relógio. Meu pai é um sujeito bastante inquieto. Ele falava comigo, mas estava na cara que não via a hora de dar o fora dali. Ele agia assim o tempo todo como se tivesse que dar o fora com a maior rapidez do mundo de um algum lugar. É muito deprimente uma coisa dessas. Ele não disfarçava nem nada. Deu mais duas goladas no Sr. Jack fez uma pausa mínima e continuou, essa sua impetuosidade juvenil está passando dos limites.
       
Odeio essas expressões forjadas. Impetuosidade juvenil é o caralho.

        Talvez possamos marcar uma sessão de hipnose com o terapeuta de uma amiga minha que é indiano, minha mãe falou. Talvez assim, descobrimos a origem o porquê dessas suas atitudes.
       
Essa foi a gota d’agua. Minha mãe queria que eu fosse hipnotizado por um indiano pra descobrir porque razão eu fazia o que eu fazia e o pior é que eu não fazia nada, tudo simplesmente acontecia e eu estava lá feito um imbecil, apenas lá parado. Ela sempre gostou desses troços místicos de sobrenatural. Uma vez ela me apareceu com um tal de Tantra profético sei lá o quê e me fez escrever uma droga de carta pro Dalai Lama que mora lá na porcaria da Índia. Ela já visitou todos esses lugares meio paranormais. É meio maluquinha e enche com essa coisa de pirâmides duendes cristais.
       
Ariel o que você quer realmente, filho? Você tem 17 anos e precisa se decidir. E o vestibular? Está na porta. Eu não vou brigar nem discutir porque daqui a duas horas estarei numa sala de cirurgia pra colocar uma ponte de safena e a última coisa que eu quero é discutir, ele disse.
       
Como uma pessoa pode beber uísque duas horas antes de abrir o peito de alguém segurar seu coração e colocar uma ponte de safena lá dentro? Certas pessoas sempre usam de desculpas pra culpá-lo de alguma coisa da qual você não faz a mínima idéia do que se trata. Fico imaginando se caso meu pai discutisse comigo e alguma coisa desse errada na tal cirurgia da ponte de safena ele certamente culparia a mim e a tal briga no colégio alegando pra família do paciente que estava terrivelmente preocupado com o filho que anda meio desajustado e tudo e pelo que bem sei sua hipocrisia o faria dizer frases forjadas do tipo: Vocês sabem como é ter filho adolescente ou Os jovens de hoje estão terríveis e continuaria a canalhice com Eu sinto muito. Sem dúvida essa expressão deve ter sido criada por algum puxa saco impostor maquiavélico. Posso falar com naturalidade “desculpa”, mas nunca “eu sinto muito”. Se você pára pra pensar num troço desses, chega a conclusão de que é mesmo uma expressão pra lá de forjada.
       
Eu vou melhorar, vou sim, falei.
       
Certo. Você quis defender a honra de um amigo e eu entendo isso. Por tudo o que ele está passando com o pai nessa situação não é fácil. Mas você precisa conter seus impulsos violentos. Essa é a segunda confusão séria em que você se mete, ele disse, e eu nem quero falar sobre a anterior. Você terá seu castigo. Vou pensar em alguma coisa.
       
Eu não quero ter um filho viciado e homicida, disse minha mãe, uma mãe não merece isso. Quase chorando.

       
Viciado e homicida Credo! A coisa está pior do que eu podia imaginar.... quanto exagero..... se bem que puxo um de vez em quando Mas não é pra tanto cacete. Nunca vi tanta hipocrisia junta. Eles eram dois hipócritas em estado ativo.

        Eu vou me.... comecei a falar com a cara mais redimida do mundo. Até que por uns segundos estava me arrependendo mesmo, mas fui interrompido pelo meu pai que se virou para o lado com a maior cara de pau e perguntou à minha mãe: Sônia, aquele meu terno azul está com uma mancha aqui no colarinho, você viu? Foi a lavanderia. Eles disseram que já foi pra lá assim eu ia até te perguntar, ela disse. Querida pega a garrafa pra mim. Jack ou Jhonny? Jack.... ah, trás mais dois gelinhos. Augusto, você não acha que já bebeu o suficiente? Daqui a pou... Eu bebo com parcimônia, ele interrompeu.

       
Eu jamais confiaria em alguém que fala coisas como: Impetuosidade juvenil ou Beber com parcimônia. Por tudo que há de mais sagrado que ao longo da minha vida já pude ouvir as frases mais forjadas da história principalmente quando meu pai está com uns amigos que falam exatamente como ele. Eu jamais me dirigiria assim a alguém por pior que fosse.
       
Tá certo. Tudo bem. Você vai almoçar antes de ir pro..... Não. Vou comer qualquer coisa por lá. Só passei pra pegar uns papéis. Aliás, acho que alguém mexeu na minha mesa.... esse terno... alguém precisa dar um jeito nisso. Ele ia falando enquanto saía da sala como se eu nem existisse e minha mãe ia atrás dele até sumiram pela casa adentro. Esse foi todo o diálogo que tivemos. Por um lado fiquei bastante aliviado, mas por outro senti uma tristeza tão grande! Me senti deprimido de verdade, qualquer porcaria de terno era um assunto mais urgente do que eu. Tudo bem que era um Armani, porque meu pai tem um bom gosto desgraçado pra se vestir. É bem ligado em coisas materiais, também sou quer dizer todo mundo é essa é que é a grande merda. Apesar da minha mãe ser ligada nessas coisas esotéricas mediúnicas integração mística com a Natureza ela não é nada nada altruísta. Ela vive comprando um monte de coisas infestada de luxo e depois acende um incenso ou vai até a Índia só pra ver o Dalai Lama ou aquele tal de Sai Baba que tem o cabelo Black Power e tira uma Cinza Sagrada de dentro de um jarro vazio, que ela chama de Vibuti. Nossa, ela vivia esfregando aquele negócio na minha testa e dizia que era pra curar minha inaptidão e sei lá mais o quê. Acho que ela perdeu a fé no Papa. Ela é católica, mas nunca a vejo falar no Papa. Nem mesmo quando surgiu esse movimento todo de padres cantores e tudo ela se animou. Não sou um cara religioso e acho muito chato assistir a qualquer uma dessas formalidades religiosas pra ser sincero entre o Bispo Macedo e o controle remoto fico com o controle remoto sem dúvida.



                                         . . .




Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados no site www.pbase.com/sodesenho Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K, e “Sob o Silêncio dos Anjos” do poeta Alexandre Bonafim. Publicou o livro “O Corpo Possível” editado pelo coletivo Dulcinéia Catadora. Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.com
E-mail: 
felipe.stefani@uol.com.br 

Ana Paula Maia, escritora, nasceu no Rio de janeiro. É autora dos romances O habitante das falhas subterrâneas (editora 7 letras / 2003), A guerra dos bastardos (editora Língua geral / 2007) e da novela Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (editora Record / 2009). Participa de várias antologias, entre elas, 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira / organização Luiz Rufatto (editora Record, 2004) Todas as guerras - Volume 1 (Tempos modernos) / Org. Nelson de Oliveira – (editora Bertrand Brasil, 2009).Publica crônicas todos os sábados no site Vida Breve. Seu blog é: www.killing-travis.blogspot.com

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