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8/2/2010 11:50:00
O habitante das falhas subterrâneas - cap.6



Por Ana Paula Maia
 

Apresentação: O habitante das falhas subterrâneas é um romance publicado em 2003 pela editora 7 Letras. Este é o meu primeiro livro e passado alguns anos percebi que tinha algumas dívidas com a história do protagonista Ariel Esperanto. Nesta edição revisitada por mim, algumas páginas foram suprimidas e o texto dividido em 29 capítulos ilustrados por Felipe Stefani. O livro virou folhetim para ser publicado aqui no Cronópios. Serão dois capítulos por semana. Para quem não leu o livro, esta é uma oportunidade de conhecer a história de Ariel Esperanto e suas vicissitudes. A.P.M.




                                                    
                                                                                            Felipe Stefani
 


       Capítulo 6  
 

        Minha mãe começou a se ligar nesses troços quando sua relação com meu pai estava bem ruim e pelo o que eu bem sei isso já tem uns cem anos. Duvido muito que uma titica de cristal ou um palito aromatizado possam melhorar a relação de alguém. Pra justificar tantos desentendimentos ela leu num livro que sua alma gêmea era bem diferente do que seria o meu pai, que na verdade ela deveria ter se casado com algo semelhante a um professor de literatura protestante e tudo. Toda essa aparência de ser muito espiritual é falsa. Ela não me engana gosta mesmo é de um crédito ilimitado. Isso faz seus olhos brilharem. Já o meu pai não é um tipo de sujeito que se possa chamar de gentil apesar de saber se comportar como um lord quando quer. Pra mim gentileza é uma coisa que vem do coração. Quanto mais educado um homem é mais falso e cretino ele consegue ser sem que absolutamente ninguém perceba isso. Danilo puxou muito a ele em quase tudo pra ser mais exato. Desde a cretinice a filha da putisse até o bom gosto pra se vestir e saber se portar bem. Ele costuma dizer uma coisa que eu detesto, mas pelo menos ele confessa. Se uma pessoa vier até a porta dele com a perna quebrada e lhe pedir alguma caridade ele quebra a outra e joga fora. É duro de se ouvir, mas às vezes eu vejo certas coisas que se encaixavam muito bem nisso porque já perdi a conta da quantidade de canalhas pelo mundo esperando uma oportunidade pra te ferrar principalmente quando você tenta ajudar e tudo. Mas por outro lado tem muita gente por aí doida pra quebrar pernas e braços. Já vi isso acontecer muitas vezes.
       
Fui pro meu quarto e resolvi tomar um banho, mas antes lembrei que precisava falar com a Clarice, minha namorada. A verdade é que nós dois estávamos ficando há quase três meses e acabamos namorando. Eu insisti, ela não queria muito, mas acabou aceitando. Era quase dois anos mais velha do que eu, mas não parecia até ela abrir a boca, porque quando ela começava a falar parecia uma professora. Adorava corrigir os outros, toda certinha, aluna nota dez. Também gostava de falar sobre várias coisas que passavam na televisão. Tinha um jeito “anti”. Vivia assistindo a tudo pra depois falar mal e queria que eu lesse uns livros colossais pra cacete tipo Guerra e paz do Tolstoi que só de olhar eu me arrepio todo. Não gosto muito de ler, só um pouco e mesmo assim só algumas coisas. Gosto de Júlio Verne. Quando guri meu tio avô Avelino me deu uma baita coleção dele não liguei muito na época mas depois passei a devorar cada um. O Verne é muito convincente e sempre me pergunto se ele realmente foi até aqueles lugares mesmo ou se escreveu tudo apenas olhando pela janela de seu quarto. Por exemplo, eu li vinte e cinco vezes Da Terra à Lua. Ao redor da lua. Gosto dessas aventuras espetaculares. Às vezes pelo menos eu me sinto mais animado com essas coisas. Confesso que tem horas que ele enche o saco com umas coisas de astros e luas mas é muito bom assim mesmo. Tem um francês chamado Michel Ardan que é muito divertido, sujeitino realmente espirituoso aquele. Eu gosto dessas coisas mas ainda assim só um pouco. A Clarice quer ser jornalista por isso ela se interessa tanto por esse papo cabeça. Ela não reclamava muito de mim, acho que era por isso que eu ainda estava com ela, mas desconfiava que ela andava me traindo com o Ataíde um imbecil que fazia pré-vestibular com ela. Vivia falando nele. Eles se davam muito bem, bem até demais e sempre vinha com um papo de que ele era o maior cdf e que a ajudava estudar. Tinha certeza que estava sendo chifrado. Mas o que eu ia fazer? Agora se ela deu pra ele e não deu pra mim... vou ficar puto pro resto da vida até eu morrer. Não estamos namorando mais. Terminamos definitivamente logo depois que voltei da casa dos meus tios no Rio de Janeiro pra dizer a verdade ela terminou comigo. Não foi nada legal o que ela fez, mas depois de uns dias me senti bem aliviado, a gente não combinava em praticamente nada, mas ao mesmo tempo era legal ficar com ela. Mesmo que fosse só pra ligar à noite. Eu não sei o que é pior: ficar completamente só ou ficar com alguém pra se sentir menos só mesmo quando isso não adianta de nada e você apenas fingi, mas isso foi um assunto que eu só me dei conta depois. Nosso relacionamento tinha cara de paisagem. Era tudo plácido demais e não tinha motivo nenhum pra terminar. Eu não poderia chegar pra ela e dizer: Quero terminar porque tudo é muito plácido, você não queima como o fogo e só pensa em coisas chatas e metódicas. Por isso ia levando, mas ela fazia umas coisas que me deixava maluco. Coisas bobas. Uma vez fomos a uma convenção de RPG. O irmão dela, o Alex é um viciado nisso e eu vi que a Cla só foi pra agradá-lo. Ela estava com dor de cabeça e outras coisas, mas mesmo assim estava toda sorridente torcendo pro irmão que participava de um torneio maluco fantasiado de guerreiro medieval. Ela olhava pra mim e dizia com a voz mais suave e sincera do mundo: Ariel olha como ele está feliz. Ela se importava mesmo com aquela jamanta do irmão dela e aquilo me confortava. Eu queria ficar com ela a vida toda admirando garotos gordos boçais fantasiados de guerreiros medievais pro resto da vida. Ela estava mesmo feliz naquele dia apesar da dor de cabeça. Foi um dos momentos em que pensei que ela se importaria comigo. Gostava dela e sentia ciúmes às vezes, na verdade eu sentia mais ciúmes do que amor, acho que gostava de sentir aquele troço me corroendo por dentro que me deixava inquieto durante horas e que me tirava até o apetite. Eu sei que é estranho gostar de sentir um troço doido desses, mas é que nunca fui muito normal mesmo, nunca fui, mas achei melhor falar com ela mais tarde. Tudo o que eu precisava era de um banho. Fui pro banheiro e tomei um baita banho demorado. Adoro ficar pelado debaixo do chuveiro. É uma sensação bastante libertadora. Saí do banho e me atirei na cama. Acho que fiquei uns cinqüenta anos olhando pro teto sem fazer absolutamente nada. Havia um silêncio por toda a casa e eu conseguia ouvir até mesmo o canto de um passarinho. Era distante, mas eu ouvia muito bem. Eu não queria fazer nada estava satisfeito. Poderia morrer naquele momento que seria o mesmo que nada. Começou a passar várias coisas na minha cabeça um monte de lembranças e pensamentos que não seguiam nenhuma ordem lógica e é por isso gosto do pensamento, se eu pudesse somente pensar tudo seria mais fácil, o problema é por em prática. Eu me sentia deprimido só isso. Não o tipo de depressão em que se deseja morrer, mas apenas desaparecer por um tempo e quando voltasse tudo estaria bem. Devem existir milhares de pessoas com esse troço, mas isso não é uma coisa que se compartilhe, a verdade é que você convive com a pessoa e nunca descobre que ela sofre de coisas desse tipo.



                                         . . .




Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados no site www.pbase.com/sodesenho Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K, e “Sob o Silêncio dos Anjos” do poeta Alexandre Bonafim. Publicou o livro “O Corpo Possível” editado pelo coletivo Dulcinéia Catadora. Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.com
E-mail: 
felipe.stefani@uol.com.br 

Ana Paula Maia, escritora, nasceu no Rio de janeiro. É autora dos romances O habitante das falhas subterrâneas (editora 7 letras / 2003), A guerra dos bastardos (editora Língua geral / 2007) e da novela Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (editora Record / 2009). Participa de várias antologias, entre elas, 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira / organização Luiz Rufatto (editora Record, 2004) Todas as guerras - Volume 1 (Tempos modernos) / Org. Nelson de Oliveira – (editora Bertrand Brasil, 2009).Publica crônicas todos os sábados no site Vida Breve. Seu blog é: www.killing-travis.blogspot.com

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