Numa manhã intermitente, uma dessas manhãs que se dão no inverno e raramente voltam antes das maçãs caírem na cabeça de homens com hipermetropia, Abraão Silvana, após matar sua família, ato modesto ruminado por acidente, pegou seu carango marrom lama cuspida e partiu para o sítio de sua avó Anabela Lee Silvana. Rodas a afundar nas acumulações abastadas de água do sofrimento divino da noite anterior. Abandonou seu carango atolado, e se pôs a cavalgar pelo mato em seus novos tênis splitz. Acompanhando um rio, viu inesperadamente, como aquele que inesperadamente acompanha um rio e tenta nele não cair de cabeça para baixo, um pescador, chapéu de palha, a mastigar um sapo. O pescador com o atrevimento de uma borboleta embriagada a repassar os vídeos cassetes de suas aquisições orais cotidianas, lhe relatou de como o seu msn deveria estar travado, pois nenhum peixe mais aparentava se interessar em lhe mandar uma mensagem, sequer um mísero emoticon. Abraão, por sua vez, só lhe perguntou se este sabia de um caminho rápido para o sítio de sua avó, não a do pescador, mas a sua, apesar de não podê-lo diagnosticar por completo - o homem tinha um nariz familiar. Nenhuma resposta recebeu, pois neste momento o sapo pulou da boca do pescador, que pulou no rio, que nadou para o outro lado - era um rio atleta!
Perdido estaria Abraão, caso não fosse a menina Miramar a escutar as suas displicências auto-falantes, enquanto esta tentava dormir numa árvore de folhas púrpuras próxima. Menina Miramar, olhos verdes mentolados, cabelos de tangerinas cantaroladas, garota de extrema pureza, pureza já dividida com um primo e com o menino que pintava a cerca, antes mesmo de entreabrir a boca já havia sintonizado a rede wi-fi de Abraão. Conhecia ela, a avó Anabela. Abraão e Miramar caminhavam de mãos dadas, sobre o pasto estridente de ornitorrincos de pernas longas, falando sobre o que sabia ela sobre a avó Anabela. Naquela região de arranha-céus milharais, não se conhecia amor maior que o da avó Anabela com o repórter pinguço Edmilson Poeira, o bigodudo. Amor maior como aquele que ama e é amado por aquilo que ama amando o amor amado. Amor a ser contemplado pelos dois, escondidos na escuridão de uma casa de taipa não compatível com o windows vista.

Daniel Matos é escritor, filosófo e cineasta carioca. Seus trabalhos podem ser encontrados no site http://www.danielmatos.com.br . Tem um livro de contos, Um Grito no Vazio para o Nada, publicado através do Clube dos Autores. E-mail: daniel_man38@yahoo.com.br