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Für Elise com bolachas
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26/8/2005 00:52:00
De mármore, pétala & fogo



Por Bárbara Lia

(Para Alexandre França, no seu aniversário)

 




 

 

Itinerário de mármore

 

 

Ane Draxel pintava de azul os cabelos e usava um piercing na sobrancelha esquerda. Gótica, usava batom negro e pintava uma lua crescente lilás ao redor de cada mamilo. Tocava harpa e estudava Linguas Latinas. Ane Draxel acordou sorrindo, havia tido naquela noite a fulgurante visão, em sonho. Dormindo na lápide branca de um túmulo - ela preferia aqueles adornados com anjos barrocos. Acordou com uma gota de orvalho no olho direito, pingando da estátua do anjo. O sonho ainda nítido, se sentia ainda caminhando pela rua, onde encontrou a casa e o homem belo que a estonteou com um beijo de língua sabor anis. Sorriu, pescou a última estrela da manhã e guardou em seu umbigo, bebeu a aurora na lua em meia-taça. Decidiu ficar bela e seguir o itinerário de mármore, que viu no sonho. Cenário todo de pedra, tudo era pedra até chegar aos braços ardentes dele, e ela ainda sentia seu calor. Passou duas horas na banheira e o calor ainda permanecia. Seguiria as ruas de pedra, e se imolaria naquela chama-pele-lírio. Como as mulheres do Líbano, perfumou seu sexo. Vestiu uma camisola da cor da brasa ardente, massageou o corpo com creme morango & champanhe – contém 1g. Ficou tão leve como não se sentia há muito. Os saltos do sapato trituravam as pedras da rua, e ela cruzou todo o itinerário do sonho até encontrar aquele lugar. Abrir a porta sem pedir licença. Atravessar uma casa desconhecida até chegar ao quarto, no exato instante em que ele se volta e dá aquele sorriso. Era sabor anis o beijo? Era de calor tal qual no sonho, a pele?

Era bem mais, muito mais. Ane Draxel fechou a porta do quarto e atirou a chave pela janela.

 


 

 

Itinerário de pétalas

 

 

Sala ampla do conservatório. Poltrona Luiz XV. Ane Draxel dedilha a harpa. Top negro, calça legging negra, roupas delineando as formas suaves, o olhar perdido em um ponto além da janela, onde nuvens rolam de rir cada vez que as turbinas dos aviões fazem cócegas em suas barrigas. Ele entra e respira fundo o ar que lhe falta. Segue pela extensão lateral de uma parede de vidro - olhos fixos em Ane Draxel. Bebendo o azul dos seus cabelos a ternura de seus olhos cerrados. A  imagem do anjo-negro & harpa. Para na entrada e recosta o corpo na porta, no exato instante em que ela vai virar a página da partitura, as mãos congelam em um gesto inconcluso. O sorriso nasce terno, sutil. Fecha o livro, coloca a harpa na cadeira. Caminha na direção dele, beija seus lábios,  como se o esperasse para um encontro. Envolve seu braço e o leva pelo corredor até à rua. Ignora o olhar de interrogação que ele traz. Antes que ele conte da sua busca sem fim. De percorrer todas as escolas de música, até chegar ali. Reencontrar a mulher audaz que o lavou em sexo e ternura por duas noites infindas e que o fazia sentir-se ainda embebido no Krakatoa em erupção. Ele ainda era uma brasa encendida. Ela entrou à direita na primeira rua, no exato instante em que o vento provocou chuva de  pétalas na calçada. Ele estancou o passo, pronto para as mil perguntas. Voz morrendo na garganta ao mergulhar na inocência que brilhava nos olhos calmos - primavera cavalgando um corcel branco. Uma flor lilás enrosca nos cabelos dela, em contraste de tons. Ele afugenta as perguntas, as indecisões, e bebe o carmim-cássis dos lábios dela, enquanto murmura uma súplica por entre beijos. - Não fujas mais...

 

 

 

 

 

Itinerário de fogo

 

 

Então são estas as espirais do amor:

A fumaça do cigarro.

O suor dos corpos.

As notas sutis de Bach flanando peles, paredes, cortinas, assoalho. Domando em magia de sons o ritmo dos corpos, em frenesi, ternura, loucura.

Ela adentrou  a sala nua. Ela nua. Nua a sala, adornada com um tapete branco da pele de algum urso traído, que dormia seu sono tranqüilo esperando a primavera. O vinho branco em duas taças no assoalho, assoalho tão claro  que espelha taças e espelha o corpo dela caminhando até o tapete, nua.

Ela não responde perguntas, comanda apenas o ritmo, dos encontros, do trajeto, do amor que o enfeitiça. Ela apenas sorri, diante do olhar sereno e negro, fragmentado em estrelas novas.

Os ipês lilases bailavam na manhã e foram coroados de nuvens dessas que precedem o final das cenas nos filmes de amor. Caminharam sob a batuta dela pelas notas de vidro que soavam em estridentes acordes uma Primavera de Vivaldi. Entrar no táxi, atravessar a cidade, parar no parque, caminhar por trilhas. Nada de falar do tempo, das oscilações da bolsa, dessas coisas que assolam os noticiários. Ela queria falar sobre os ritos dos primeiros povos, as religiões das tribos, o mapa das estrelas, como é possível criar violetas sem que elas morram, e restem apenas tristes vasos verdes. Falar do mais precoce dos poetas suicidas, que muitos são suicidas, mas só Thomas Chatterton se matou aos dezessete. Lembrar que a Andaluzia era um shangrilá de cultura e arte em meio à Europa dos bárbaros. Falar dos árabes, dos belos homens árabes. Dos berberes, dos druzos, dos tuaregues, dos dervixes e suas danças de êxtase transfigurado.

O dia voou diante dos olhos e mãos e espanto dele. O dia caiu e ela o levou enfim ao seu palácio. Casa antiga com escadas e chão de madeira. Sala vazia. Ela puxando-o pelas escadas, ela indicando o banheiro, estendendo a toalha azul, ela descendo para abrir o vinho. Ela esperando-o descer as escadas, sem camisas, seduzido pela musa estranha,  naquela sala estranha. Branca. Vinho branco. Som branco de Bach... E ela surge nua e efêmera, e estende o vinho e brindam em silêncio, desejos recônditos. O urso acolhe em brancura o desmaio dos corpos. A boca pousa na outra boca, as mãos cavalgam peles, as mãos procuram os vales ocultos, os rios suaves, os vulcões, os montes gêmeos, a grande escarpa. O piano de Bach arde em notas, o desejo arde em espirais que nunca cessam.

Estas são as espirais do amor:

 - a fumaça do cigarro

 - o jorro líquido que desmaia na pele cálida

 - a gota de suor, que ela colhe como uma estrela caindo do rosto dele em sua palma.

 

 








 

Bárbara Lia é professora de História e Escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. - na Internet - Revista Zunái, Germina Literatura, Blocosonline e Editora Ala de Cuervo. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance Cereja & Blues. Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Mora em Curitiba há vinte anos.
Possui um blog – www.chaparaasborboletas.blogspot.com

E-mail: barbaralia@gmail.com

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