Café Literário Cronópios

O Hermafrodita
por Rodrigo de Souza Leão






 

Um lugar ao sol
por Thiago Secco




Para um menino na guerra
por Leila Guenther




Juntando os cacos
por Agnes Sofia




Sonata para piano
por Diego Tardivo




O livro dos 1001 microcontos
por Rinaldo de Fernandes




Ada, assim
por Sylvio Back




A sobrevivência dos pequenos
por Jorge Miguel Marinho




Desnorteio
por Paula Fábrio




Quando a sorte lhe sorri mas faltam dentes em sua boca
por Lucas Feat




Cadeira Sing-Sing
por Cláudio Feldman




Etceteras cotidianos
por Waldemir Marques




Vestido de noiva
por Fernando Lionel Quiroga







 
13/04/2012 22:44:00
Algorítmico ou algo rítmico



Por Natalia Borges Polesso


       Chocar-se com a distância a ser percorrida, num determinado tempo e em determinada velocidade, chocar-se pela manhã, antes de sair ao trabalho ou, antes mesmo de pensar em levantar. Encarar o caminho que obviamente é uma linha reta ligando dois pontos. Pensar em percorrê-lo com os pés, um após o outro. Ou com a palma das mãos, considerando o desconforto a ser sentido ao término do trajeto. Esgueirar-se pela calçada de pedras irregulares, e fartas camadas de cimento, rodar no asfalto preto, macio e recém assentado. Seguir em direção oposta ao sol, como se estivesse o acompanhando e, como ele, ficando cada vez mais quente. Quando chegar ao destino, terás um lenço no bolso direito.

       Este é um modo. O modo para obter o lenço. E o lenço é muito importante aqui, pois neste dia específico do choque com a distância, estará muitíssimo quente. O lenço, então, ao final do trajeto será de grande valia para secar o suor do rosto. Portanto, ao esgueirar-se pela calçada, enfie-se em uma loja de lenços, se isso existe, ou numa farmácia. Sendo na farmácia, procurar primeiro por lenços de pano, em não havendo, pedir os de papel. Mas saiba que estes últimos não terão o mesmo efeito do primeiro.

       Na esquina, secar o rosto e respirar profundamente enquanto os carros ainda não atingiram o cume do morro em que se têm os pés cravados como se fossem raízes há muito tempo fixas naquele lugar. Chocar-se com a distância percorrida. Conferir o tempo e a velocidade. Chocar-se já no final da tarde, antes de voltar a casa ou, antes mesmo de pensar que o dia tenha terminado mais uma vez. Mais uma vez.

       Neste momento não há uma instrução, pois se queira voltar para casa, o caminho inverso é a solução. Exceto que não se precisa comprar mais lenços. Contudo, se queira continuar acompanhando o sol, o tempo, a distância e a velocidade devem ser recalculados. Isto muito rapidamente, pois já haveria um dia de atraso.



                                                * * *
 

Natalia Borges Polesso é mestre em Letras, Cultura e Regionalidade e escritora. Mora em Caxias do Sul - RS. Tem contos publicados em jornais, revistas, antologias de concursos literários e mantém o blog: www.ainerciadealice.blogspot.com.br E-mail: nbpoless@gmail.com

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