Há sempre uma ausência ao lado de cada um que existe. A ausência dos mortos, das alegrias, ausência dos sonhos, a ausência da esperança, e a noiva que se foi, o marido que jamais retornou, e as roupas carcomidas, as cartas que o tempo vai apagando... Mas naquela família as ausências eram tantas e tão imensas, que possuíam nomes próprios, impronunciáveis, no entanto. Aqueles sujeitos apenas sabiam-se pela falta, entendiam o que eram pelo que não eram e o que tinham pelo que não tinham. Odiavam-se, amavam-se, entediavam-se, separavam-se, eles e suas ausências, num pacto rancoroso. Seus olhares vagos viam somente o que não estava. E enquanto isso os corpos iam pela vida escorregando inúteis, esquecidos de si, em volta de suas presentes ausências.
Acumulou-se essa falta por séculos em cada novo membro da família, a carência de uma geração depositando-se na próxima, herança dos vazios passados. As crianças iam nascendo mirradas e pálidas, parecendo que aquela lacuna estava cada vez mais tomando o espaço que o corpo deveria ocupar. Esse legado somava-se ao vazio de cada um deles que pelo mundo passava, constituindo em cada tempo uma ausência suprema, uma insuficiência incurável.
Em certo tempo nasceriam descendentes raquíticos, e os descendentes dos seus descendentes nasceriam sem alguns membros do corpo, até que na geração próxima as mulheres ficariam grávidas sem sequer notar, grávidas de um vento ínfimo que se libertaria para se espalhar e somar mais falta à falta. Assim essa família se extinguiria, de ausência em ausência.
Mas podemos parar no tempo, muito antes dessa extinção familiar.
Nadja estava com doze anos. Possuía todas as suas partes e era possível enxergá-la toda, embora com certo esforço: era um vulto de pele muito branca, corpo um pouco translúcido que não chamaria a atenção não fosse pelo vestígio daquele legado de ausência em sua geração: sua perna direita era mais curta e muito mais delgada que a esquerda, de maneira que ela acabava por mancar com evidência. Ao andar, todo o seu corpo caía para um lado, para então levantar-se todo para o outro, de um modo estranho na medida exata para satisfazer as necessidades alheias do sentimento de estar a salvo.
Na maior parte do tempo estava no quintal de casa, visível através das grades mas salva da maior parte das ameaças. Ficava sentada com as pernas esticadas, fazendo comidinhas com folhas e montes de terra, comendo pequeníssimos tatus ou vestindo bonecas com roupinhas feitas do mesmo pano das suas próprias. Seu olhar às vezes doce acostumou-se alheia do além das grades, exceto nos seus momentos de ódio absoluto: enquanto passavam meninas pulando a corda, tropeçando graciosas, correndo com seus tornozelos repletos de hematomas e cicatrizes que nasciam do viver excessivo. As suas cicatrizes e hematomas não nasciam, mas eram os sinais da morte gradual daquele membro que ela carregava como a um animal morto. Nessas horas ela semicerrava as pálpebras, torcendo para que todas as pernas caíssem e rolassem pela íngreme descida logo mais ali. Depois se ausentava, preocupada com a caça aos tatus.
Na casa da frente morava Ana. Ana saiu para a rua pela primeira vez quase dois anos depois de se mudar para o bairro. Talvez por timidez, talvez por estar muito ocupada consigo mesma em seu quintal. Ela era tão distraída, mas tão, que às vezes se esquecia de usar as mãos. Mas isso de distração é uma mentira. Fato é que ela estava atenta demais às suas fantasias, que eram aliás muito mais dignas da sua concentrada dedicação. Essa distração entre aspas fazia de Ana a amiga perfeita para Nadja. Exatamente pelo que se possa suspeitar. Ana saiu para a rua, avistou Nadja com seus tatus, puxou conversa e não pôde perceber nem que a menina mastigara quase meia dúzia de tatus-bola naquele tempo, e muito menos que ela tinha uma perna diferente da outra. Claro, porque a conversa foi de nuvens a cavalos marinhos, dos avós a um primo que enlouquecera, e depois até muitas coisas inventadas.
Se a princípio Irene, a mãe de Nadja, vigiava assustada a menina esguia no portão, em algum tempo convidou-a para o quintal, e pouco depois até para dentro de casa, embora raras vezes. Gostava de Ana tanto quanto Nadja, e Ana as estimava reciprocamente, embora o cheiro de Irene lhe enjoasse o estômago por vezes.
Uma vez Nadja fez Ana reparar na perna. Não precisa fingir que não sou aleijada, disse. Não vou ficar triste se você falar disso. E Ana se deu conta. Dói? Pouco, sempre. Muito, às vezes. Posso tocar? Mas não aperta. É fria. Está um pouco morta, eu acho. Será? Não sei. Não, acho que não. Você é bonita. A gente sempre olha primeiro nos olhos das pessoas. Não se repara muito nas pernas. Mentira, a gente olha primeiro sempre o defeito. Será? É. Eu nunca te vejo andando. É estranho. Deixa eu ver. Melhor não. Eu te digo o que parece, juro. Será? Eu não rio, não acho graça nem do que tem graça. Bom. Sabe o que parece? O que? Mas a mãe de Nadja chamou detrás da vidraça, e isso era sinal de que Ana precisava ir. Mas nem são quatro horas ainda. Irene espiava pela janela.
Depois de alguns meses Nadja tomou coragem para pedir à mãe uma saída à rua. Com Ana, evidentemente. Depois de muita resistência, ganhou uma ida. A rua toda se juntou para ver. Nadja precisou engolir com força aquilo que parecia ser todos os tatus já engolidos querendo retornar. Sentiu rebentar dentro de si uma novidade que não soube nomear. Recolheu qualquer reação que ousou escapar pelo seu rosto. Foi útil a sua aparição para que alguns tivessem do que rir, outros do que lamentar, outros do que se apiedar e outros ainda como se sentir salvos da truculência da vida, por um instante. Os dias passaram e diminuíram os risos, lamentos, piedades e alívios. Restou um pouco de cada coisa, mas já era mais fácil acostumar.
Ana experimentou os tatus. Eram crocantes na boca, mas raspavam a garganta. Depois aprendeu a não mordê-los, dedicou-se à arte de comer os bichinhos, mas ainda assim não se constituiu nenhum vício. Nadja decepcionou-se, mas aos poucos também diminuiu as doses de tatu. Chegou um dia em que resolveram ter pena deles. Passavam quase todo o tempo sentadas na calçada em frente à casa, mas estar em frente às grades já preenchia as tardes de um vigor novo. Conversavam muito sobre todas as coisas, mas preferiam o silêncio. Flutuavam completas num silêncio sem constrangimento, um silêncio de amor absoluto e sem exigências. Uma pureza era aquilo. Algumas vezes se assustavam e permaneciam se olhando com a desconfiança do medo da morte, mas algo insuspeito e repentino as fazia gargalhar, e então ficava tudo bem para sempre.
Ana distraiu-se em casa com a sua árvore, naquele dia. No dia seguinte permaneceu sentada no muro balançando o corpo para frente e para trás, estudando a sensação do risco falso da queda. E foi ficando tarde para ir à casa da amiga. Nadja estava magoada, menos por Ana não aparecer e mais porque não se sentia capaz de atravessar o portão sem ela. Enquanto Ana brincava com os mil muros do muro, Nadja abriu o portão e permaneceu ali paralisada naquela fronteira, entre a casa e a rua. Ficava balançando o corpo para frente e para a trás, estudando os riscos possíveis de quedas, abandonos, risos e da piedade. E da solidão. E do silêncio vazio a que se desacostumara. Largou o corpo um passo em frente, permaneceu por uns instantes levemente vitoriosa. Baixou os olhos e retornou ao quintal com um único passo. Nesse momento Ana sentiu o cheiro da comida mesma da mãe, e descobriu que estava tarde demais novamente. O tempo ia passando estranhamente.
Ana pensava debaixo da sua árvore quando ouviu um grito pelo meio da tarde. Correu para o portão e viu um fio de sangue escorrendo pela ladeira logo ali. Os olhos de Nadja estavam arregalados e a boca muito aberta, silenciosa então, um silêncio que só aparece no cume da aflição, quando o som foge de medo e o corpo todo troca a sua matéria por uma massa insuportável e latejante de dor. O seu pé jazia amassado sob um enorme paralelepípedo. Na hora Ana não pôde saber ao certo se o pé machucado fora o doente ou o saudável. Mas quando a boca de Nadja se fechou e ela desfaleceu, Ana voltou os olhos para a menina morena que observava tudo. As suas mãos morenas e pequenas destruíram um pé de Nadja esmagando-o com uma imensa pedra. Seu rosto pequeno estava pasmo: quando pensou em machucá-la não imaginou que seria tanto.
Havia boatos de que mãe e filha partiram de madrugada, retornando a um país frio. Mas algumas vezes Ana ficava certa de ter visto os olhos de Nadja dentre as pregas das cortinas. E pensava se era justo que ela ficasse presa para sempre. E pensava no que poderia ter levado uma menina a esmagar o pé de outra, e de onde poderia vir esse ódio sentido pelas imperfeições. Pensava nos motivos possíveis de tantas coisas, estática sobre o muro. E pensava que teve vontade de rir quando viu Nadja andando pela primeira vez, mas depois se distraiu com todas as coisas que Nadja em movimento parecia ser: barcos, águas, buracos, tempestades, molas, proezas, dias ensolarados que terminam com chuva, fruta misturada com comida salgada, quando a gente descobre que a goiaba está bichada e continua comendo tentando não pensar, pedaço de carta amassada no fundo do baú, um pano de copa úmido útil encolhido no canto, rabo de lagartixa sacudindo fora do corpo lembrando que o amor não morre fácil assim.
De Nadja não houve mais notícias, mas Ana pensaria nela ainda anos mais tarde. Dizem que Ana engravidou seis vezes, mas que nenhum feto vingou. Houve um único que nasceu aos cinco meses, cabia num bolso de paletó e viveu horas, respirando pouco. Não chorou nem gemeu sequer por um momento, não se sabe se por falta de forças, por falta de tempo, por não estar suficientemente formado para o sofrimento, ou por pura compreensão.
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Isabela Penov é atriz, arte-educadora e escritora. Publica atualmente em dois blogs: Semeaduras (isabelapenov.blogspot.com), seu blog pessoal de contos e poemas; e Filcantos (filacantos.blogspot.com), um blog de autoria coletiva, que abrange linguagens artísticas diversas. E-mail: isabelap9@yahoo.com.br