"Acordei esburrecido, e pronto!
Nem sonhei. Aliás, nunca lembro de nada o que sonho, nem tive pesadelo, nem a vida estava pior do que a mesma merda que sempre esteve.
Esburrecido, só isso.
Tá certo, nem completei o quarto ano do ensino fundamental como aquelas miseráveis daquelas pobres daquelas professoras chamavam a escola pública do governo lá do bairro, mas não há praga de Deus que consiga fazer a burra da minha mãe (ela diz que quando eu nasci tinha um brilho muito forte na testa entre os olhos e diz que de vez em quando ainda vê esse brilho em mim; não sempre, só de vez em quando), por mais que eu aporrinhe o saco dela, de dizer aborrecido, como ela sabe que é certo, em vez de esburrecido.
Acordei esburrecido, e pronto!
Às vezes, acontece e vou pra rua.
Eu gosto de comer sozinho em restaurante, porra, e ninguém tem nada a ver com isso!
Não importa o prato, como não importa a mulher. O que vale é o prazer.
Comer pode ser, respeitadas as circunstâncias, um prazer solitário melhor que se masturbar pensando em safadeza com mulher bonita da televisão.
Antes eu matava sem pensar só porque era gostoso.
Depois daquele filme de bacana feito pra parecer com a vida da gente daqui que é gente, fiquei com aquela frase me martelando na cabeça: `Quem tiver de sapato não sobra`.
Deu, assim, um significado pra minha vida de assassino de grátis.
Esse talharim a bolonhesa com carne assada tá uma merda.
Sim, a carne sorri. Só os assassinos e os açougueiros sabemos disso: a carne sorri na dor.
Por que eu vou me preocupar com a aparência ou com quem é essa ordinária que está sorrindo pra mim (e eu nem sou bonito, sou feio pra caralho que só vida de pobre) e que eu vou matar daqui a pouco?
Algum açougueiro descreve a vaca que vai matar no matadouro ou se preocupa se ela tem algum problema ou objetivo na vida?
Ela é carne, só isso, carne.
Toda segunda-feira as rádios dão o balanço da polícia do final de semana que passou e falam de chacinas de um monte de gente morta, famílias, num mesmo lugar e dizem que é acerto de contas entre quadrilhas de traficantes.
São uns vagabundos que não querem trabalhar e nem se preocupar com cadáver de gente pobre.
Tráfico de drogas porra nenhuma. Mais de uma vez eu matei um monte junto, famílias inteiras só porque é gostoso matar. E depois fui pra casa dormir e esperar pra acordar e arrotar a macarronada de domingo.
Bom, foda-se, vamos lá.
Eu vou descarnar essa filha de uma puta como uma porca.“
Arroto de talharim a bolonhesa com carne assada.
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Waldemir Marques é jornalista em São Paulo e pratica “literatices”. Tem no prelo o livro Perversidades (não tão) Secretas. Costuma dizer que “é um tremendo sucesso como celebridade anônima no papel de identidade secreta do soldado desconhecido”.
E-mail: waldemir.marques@globo.com