Depois de alguns segundos em frete à porta da qual acabaram de sair, ela ligou para o marido.
- Nada nos exames... Disse para continuarmos observando...
Perdeu as contas. A quantos “especialistas” tinha depositado suas esperanças nos últimos meses? Pediatra, fonoaudiólogo, psicólogo, psiquiatra, acupunturista, tarólogo... Nenhum diagnóstico. Nenhuma pista do que poderia estar acontecendo com seu filho.
Sete ou oito meses antes, final de tarde pacata como havia de ser, Júlio entrou em casa com um embrulho de jornal debaixo do braço. Grande para um caderno; pequeno (e absurdo) para uma prancha de surfe ou uma tábua de passar roupa. Trabalho de escola - pensou ela - sem tirar olho da panela no fogão.
Dedicada às funções que julgava suas desde sempre, Joana cuidava do lar com esmero, alimentava o marido e somava na renda trabalhando meio período na quitanda do seu Joaquim, um velho português especializado em ajudar senhoras casadas. Júlio era parte importante do plano que traçaram para ela antes de seu nascimento. Que mulher nesse mundo seria completamente feliz sem um filho? Entretanto, desde o dia em que ele entrara em casa às pressas com aquele pacote, a plenitude desta felicidade estava comprometida.
Se cabida a comparação, Júlio era um livro erótico de capa sóbria: parecia com o que devia parecer. Ajudava a mãe com uma ou outra coisinha em casa; na escola, notas boas, não excelentes. Menino. Mas, por dentro, um turbilhão. Isso, como dito, não fazia dele um exemplo de extroversão. Percebia, apesar dos doze anos, que o que tinha em si era grandioso, um tesouro deveras valioso para exibir por aí.
No início Joana gostou. Obviamente causava-lhe estranheza o fato de o teclado não emitir som, mas... “Melhor assim! Não atrapalha minha novela”. De quando em vez aparecia ao quarto do filho, fitava-o com aquele olhar que só as mães têm. Mas os dias passando e, ao contrário do que imaginara, o tempo que Júlio dedicava ao teclado só fazia aumentar. Na segunda semana, os banhos (que geralmente duravam quarenta minutos) não passaram de cinco. Na terceira, jantou quatro vezes no quarto. Na quinta, parte da madrugada pertencia ao instrumento.
- A pilha desse negócio deve estar fraca, meu filho!
Não era à pilha. Não era à bateria. Não era à eletricidade. Júlio não precisava que ele fizesse barulho. A música do teclado, do seu teclado, era vibrante. Carregava-o a viagens fonéticas inimagináveis. Nem os tempos e compassos mais perfeitos conseguiriam aquelas harmonias.
- Temos que comprar um teclado novo, Luiz!
O aperto orçamentário não foi recompensado. Tentaram ainda outros instrumentos, sopro, corda, percussão e nada. Eram inafináveis para Júlio. Sua vida, desde que recebera o presente, pertencia às notas musicais. Notas, notas e mais notas, silenciosas para os que não aprenderam a ouvir...
Toda noite despedia-se do amigo colocando-o sobre o criado mudo. Os que, como prega o ditame, perdem o amigo, mas não perdem a piada, diriam que não há lugar mais propício. Entretanto, a escolha do menino era por uma questão de segurança, já que a pequena estante ficava colada à sua cama. Em algumas manhãs Joana abria a porta na esperança de cumprir o seu papel materno e acordar o filho para a escola, mas quase sempre Júlio estava vestido, pronto, a acariciar o companheiro sobre o colo.
Num dos surtos de desespero, a mãe escondeu o teclado. Não entregaria os pontos tão facilmente; não daria o filho por maluco antes de esgotar as possibilidades. Júlio, de certa maneira, esperava por algo de tal natureza. Por isso não repreendeu a mãe. Não sabia sentir raiva. Passados três dias Joana preferiu devolver o instrumento a ver o filho mirrar-se desnutrido. Mais didático do que calamitoso, este episódio acendeu um sentimento adventício em Joana. Como a cortina do palco que se abre, pela primeira vez ela olhou e viu o filho. Redundância aparente que, se tomada como tal, corrompe qualquer tipo de relacionamento humano.
Há três semanas Joana descobriu Júlio. Descobriu o seu filho. Apesar de isso deixá-la indefesa de si, sentiu-se estranhamente completa. Num processo que beira o misticismo, aprendeu mais sobre o filho nesse tempo do que em toda vida. Muito antes de entrar naquele consultório sabia que exames eram desnecessários. Sabia que seu filho não precisava ser medicado. Porque remédio nenhum, por mais alta que seja a dosagem, cura o poder da imaginação. Quando, pela primeira vez, tomou coragem de dizer isso, o marido já tinha desligado o telefone.
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Matheus Arcaro é formado em Comunicação Social e também em Filosofia. É Diretor de Criação publicitária e professor de Filosofia e Sociologia. Atualmente faz pós graduação em História da Arte. Além de redator, é também escritor, com artigos, crônicas e poesias publicados em diversos portais e revistas. Nas poucas horas vagas arrisca-se como artista plástico. Site: www.matheusarcaro.art.br E-mail: matheus@abelharainha.com