05/05/2012 00:37:00
Marianne 5
Por Victoria Saramago
Deitei-me na banheira morna como quem se deita para se perder do mundo. Dos olhos do homem, do pôr-do-sol. João saiu, foi dar uma volta. Não me compreende. É como se eu não fizesse parte da sua vida também. João só sabe ver filmes e derrubar copos de coca-cola. À minha volta tudo estava em paz. Deitada na banheira, cada pé numa quina e o pescoço na outra ponta em um triângulo perfeito, eu observava meu corpo deformado pela água e estranhava a calmaria, o calor. A água deixava descobertos os meus braços e os bicos dos meus peitos. Observava as duas pontas rosadas saindo para fora da superfície imóvel, e respirava devagar para fazê-la mais e mais parada, como se pudesse torná-la algo sólido no qual os bicos dos meus peitos salientes de alguma maneira também se petrificassem. Até desistir de tentar e me sacudir sem pressa para um lado e o outro da banheira, os pentelhos para lá e para cá e levantava então os quadris até ver os fios escuros vindo à superfície como uma planta aquática exótica e perfumada que eu tivesse visto há anos em alguma praia deserta, antes do João, antes de o mundo virar o que é hoje. O mundo que virou o que é hoje. Os olhos do atropelado eram a ponta de um iceberg flutuando petrificado prestes a derreter. Como os bicos dos meus peitos: que derretessem de uma vez. O nível da água da minha banheira agora parecia muito baixo por eu não querer mais observar os meus pentelhos. Que derretessem, não me incomodava. O calor excessivo, na verdade, só me incomodava na medida em que me lembrava aquele dia insólito, quando João e eu descobrimos que ficaríamos juntos para sempre. Quatro batidas secas na porta da desgraça. Poderiam ser tiros, claro. Naquele caso, significavam pouca coisa: que precisaríamos juntos comprar um apartamento. O telefone soou quatro vezes. Bambeei por um instante, podia ser a polícia. Permaneci na banheira. Você testemunhou tudo, Marianne, precisamos do seu depoimento. Você nos conhece, já esteve sentada conosco no passado, já nos deu detalhes preciosos. E o delegado daqueles dias prosseguiria: eu te conheço melhor do que você imagina, aliás. Vamos, minha querida, tome um copo d’água, quer coca-cola? Tome ar e confesse o que dessa vez você não levou a cabo. Sei que você agora é inocente, minha querida. Minha querida, fala, fala. E eu não falaria nada. O telefone insistia. Eu estivera afinal na cena de um crime hoje à tarde. Esperei até que parasse de tocar. Afundei a cabeça na banheira semi cheia, e as pernas descobertas até as coxas subiam pelos ladrilhos. Fazia muito calor então. Agora era o celular que tocava. Tocou uma vez, tocou duas, parou. Senti-me gelar, o coração meio agitado, o ruído agudo ressoando ainda nas têmporas. O atropelado me encarava com os olhos vermelhos e o sangue ao redor, o atropelado viu alguma coisa em mim – e o delegado também. Preciso de testemunhas, pensaria, e por que não perturbar a Marianne mais uma vez? Ela já está acostumada, e mais que isso: ela merece pagar até o fim da vida, é o mínimo que pode fazer. Mas a polícia tem que ser coisa do passado, Marianne – repetia-me a mim mesma enquanto meu corpo encharcado se erguia da banheira com a água caindo pelo mármore, pelos ladrilhos do banheiro e por fim o carpete do corredor – a polícia é coisa de uma época que passou. Esqueça a polícia e ela te esquecerá. Esqueça os mortos, os olhos dos mortos, os interrogatórios sobre os olhos dos mortos. Você não precisa ter mais nada com a morte – eu me garantia – a morte que fique quieta na sua avenida larga. E ainda assim a morte me martelava, me apareceria quando, ao dobrar a curva que separava o corredor da sala, eu tinha medo de perceber algum par de olhos que me espreitasse por detrás dos vidros, das janelas, como me espreitara o atropelado mas também como antes, e me perguntava se, trazendo a morte, se a morte não me traria também, se não me carregaria para se deixar entrever, por exemplo, nos pouco minutos em que ficara parada no meio da Rio Branco, olho no olho com um desconhecido prestes a morrer, se não seria ali e em tantos outros lugares que a minha sina havia de se insinuar, e nisso eu atingia o celular para conferir que quem me chamava era minha mãe: – Marianne, tentei ligar para a sua casa. – Desculpe, não ouvi nada. – Aconteceu uma coisa. – Quem morreu? – Morrer? Ninguém morreu, ninguém falou em morte. Não respondi nada. – Sua irmã andou passando mal, só isso. Minha irmã estava grávida.
*Este é um trecho do romance inédito Castigo.
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Victoria Saramago é carioca nascida em 1985, publicou seu primeiro romance, Renée esfacelada (Ed. Multifoco), em 2007. Em 2010, organizou e integrou a antologia Escritores escritos (Ed. Flâneur), e em 2011 experimentou os recursos da web ao pôr no ar uma novela em blog, "O quarteto do quarto andar" (http://oquarteto.com). Paralelamente à atividade como ficcionista, a autora é doutoranda em Iberian and Latin American Cultures pela Stanford University, com foco em literatura latino-americana. Vivendo atualmente em San Francisco, Califórnia, finaliza seu segundo romance, Castigo, e aguarda a publicação de seu primeiro volume teórico, O duplo do pai: o filho e a ficção de Cristovão Tezza, prevista para o segundo semestre de 2012 pela Editora É Realizações. E-mail: saramago@stanford.edu
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