Café Literário Cronópios

Catrâmbias!
por Evandro Affonso Ferreira






 

Um lugar ao sol
por Thiago Secco




Para um menino na guerra
por Leila Guenther




Juntando os cacos
por Agnes Sofia




Sonata para piano
por Diego Tardivo




O livro dos 1001 microcontos
por Rinaldo de Fernandes




Ada, assim
por Sylvio Back




A sobrevivência dos pequenos
por Jorge Miguel Marinho




Desnorteio
por Paula Fábrio




Quando a sorte lhe sorri mas faltam dentes em sua boca
por Lucas Feat




Cadeira Sing-Sing
por Cláudio Feldman




Etceteras cotidianos
por Waldemir Marques




Vestido de noiva
por Fernando Lionel Quiroga







 
18/06/2012 14:40:00
Filho de Ogum



Por Nina Maniçoba Ferraz


*Livremente inspirado na vida de Túlio Carella, autor de Orgia.


                         A tristeza não é para as bestas, mas para os homens; 
                         mas quando o homem sente tristez
a em demasia se
                         transforma em besta.
Miguel de Cervantes


Ele era filho de Ogum, orixá dos metais. Senhor de instrumentos e armas para agricultura, caça e guerra. Quem planta poda. Quem procura caça. Olho no olho, dente por dente. Ele era espada forjada no malho, de dois gumes, amolada. Mas sabia que passar ferro no ferro é desafiar Ogum. E que só podia acabar como acabou.

Homem bonito. Tinha um olhar fervendo destes que lambuzam qualquer pessoa. Andava no pescoço um patuá que ganhou ainda criança. O pai amarrou uma figa junto, bem rente na goela do menino. No que ia crescendo, a mãe aumentava o cordão. Mandinga forte.

Menino de ouro, não se metia em confusão, era obediente, concentrado. Mas lá pela idade de 10, virou outra pessoa. Parou de se dar bem com meninos e meninas. Calou-se. Ficava sozinho, cara fechada, testa perdida, os pensamentos vazando no vento, sem ninguém poder recolher. A mãe se preocupava todo dia que amanhecia. Vai brincar, menino! E se a noite era de silêncio, ela tentava calar o peito. Mãe é mãe. Foge. Mas sente. E reza. Rezava baixinho: ô meu Deus!

E ele foi crescendo. Encarava com um olho que não fita, fugido, disfarçado, mas tinha o corpo fechado, bem talhado, fruta de morder. Um dia, ele se pegou olhando para os homens do cais. Tinha vontades. E rondava. Rondava. Rondava. Feito fera enjaulada. Mais parecia um leão, atirado na cova de Davi. Mas não tinha mais fé que a providência divina o alimentasse.

Ele era um homem e queria um homem. Coisa escrita, destino. Cumpriu sua sina numa noite de lua cheia e maré alta.

A lua no céu nítida que nem desenho de criança. As águas do mar espumando. O vento soprando. As ondas vinham correndo para os seus pés. Benzedeiras. E limpavam o que houvesse. E agitavam a areia. E deixavam a terra alva e pura. Ele viu um caminho de luz clara na pele do outro. No riso daquele desconhecido íntimo. Naquele olho que brilhou no seu, cúmplice. E o rapaz achou o grito da calada da noite. E descobriu sua morada.

Mas amor assim é condenado ao fogo que deve queimar calado. Tem que lutar desigual, de capa e espada contra dragão. Profecia que não vem dos deuses, mas das gentes. O vaticínio: será eternamente e repetidamente feito brasa de embaúba que não tem. Que queima ligeiro. Madeira que é mole, enverga, não dá lança. Nem viga. Árvore que tem copa rala, que não dá sombra. Assim o sujeito vai. Ardendo no sol quente, de sol a sol.

E assim assim, feito num conto de bruxas, foram* morrendo a paz e a calmaria. E o silêncio foi virando grito. Berros daquele homem que tinha voz agora e falava nele. Brado que ele não queria ouvir.

Acuou-se num canto resignado. Mas o homem alvo brilhava em pé, na lua. E esbravejava o que ele nunca quis saber. Cresceram** nele aquelas certezas que a gente tem, mas sabe que não é. Dessas certezas turvas que cospem fogo e comem raiva. E a fúria gritou: Sou filho de Ogum! Deus negro da guerra. Também sou filho de São Jorge! Sou filho de Orixá de punhal e lança. Forja suas armas, Ogum! Agora é guerra.

Foi desse jeito que acabou um amor que ninguém viu e que ninguém pôde dizer.

O sangue escuro do homem branco escorreu na terra alva e a maré baixa não lavou nada.



                                                 * * * 

Nina Maniçoba Ferraz é médica, escritora e poeta. É aluna da especialização em Literatura da PUC-SP, e organizadora e coautora da coletânea de contos A medida de todas as coisas (2011, Editora RDG). Participa do Grupo B-Eco de Escritores. Blog: www.ensaiosobreleitura.blogspot.com E-mail: ninaferraz21@gmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Nina Maniçoba Ferraz no Cronópios.