Café Literário Cronópios

Ebulições Pivianas
por Paula Dume e Renata D’Elia






 

Um lugar ao sol
por Thiago Secco




Para um menino na guerra
por Leila Guenther




Juntando os cacos
por Agnes Sofia




Sonata para piano
por Diego Tardivo




O livro dos 1001 microcontos
por Rinaldo de Fernandes




Ada, assim
por Sylvio Back




A sobrevivência dos pequenos
por Jorge Miguel Marinho




Desnorteio
por Paula Fábrio




Quando a sorte lhe sorri mas faltam dentes em sua boca
por Lucas Feat




Cadeira Sing-Sing
por Cláudio Feldman




Etceteras cotidianos
por Waldemir Marques




Vestido de noiva
por Fernando Lionel Quiroga







 
17/08/2012 14:31:00
Amnésia



Por Márcio Bezerra da Costa


       O homem acordou de súbito como um afogado. Emergiu do sono ante o raio quente do sol da manhã abrindo os olhos com a rapidez de uma serpente. O despertador digital marcava dez horas corridas do dia. Revirou-se sobre a cama após o susto de quem ressuscita.
      
Ao avistar o teto percebeu as linhas das infiltrações que corriam a desenhar uma costura no concreto sob sua cabeça. A surpresa tamanha ocorreu ao observar a si mesmo sem roupas sobre o leito bagunçado. O quarto era vasto e dava para muitas janelas. Objetos estavam espalhados por todas as direções que a visão procurava. Não poderia ser. O homem não se lembrava de nada.
      
Com racionalidade forçou a memória com a esperança de alguns lapsos de quem era. Nada adiantou. Uma dor de cabeça muito forte se iniciou, com extrema potência, quase insuportável, o que o levou a desistir destes exercícios no momento. Permaneceu deitado por doze minutos até a completa restauração da vontade de saber alguma coisa de si mesmo. Eram dez e treze quando se levantou enrolado nos lençóis amarelados, cambaleando, bêbado sem equilíbrio, não sabendo ao certo para onde direcionar sua vontade.
      
O que teria acontecido? A constante pergunta vinha à sua mente com regularidade temporal, a cada trinta ou quarenta segundos, como uma pontada de agonia que entrasse a destratar os tecidos mais sensíveis. Não obtinha respostas, o que o obrigava a caminhar de um canto ao outro do largo quarto em que se encontrava. Os passos eram desregulares, variados e inconstantes, conduzidos por uma mente inquieta que procurava um ponto de apoio para se escorar.
      
O que me teria acontecido? Os lençóis amarelos, o corpo nu sobre o leito revirado. O sono interrompido como um fluxo de morte. O corpo cansado, o labirinto dos sentidos ferido, o que o impossibilitava de manter uma constância adequada aos passos incertos. Não sabia o que poderia ter ocorrido. Ao encontrar um espelho colocado ao lado de uma das quatro janelas do apartamento, o homem teve alguns segundos de contemplação de si mesmo. Pareceu admirar-se de quem era e como era. A sensação de que o espelho lhe poderia ajudar correu como líquido em suas veias. O que não aconteceu de fato. A visão de si mesmo apenas confirmou o que parecia inevitável confirmar. Sem o auxílio do vidro emoldurado, não poderia nem lembrar de como era.
      
Corpo pálido e nu, o cobertor ao lado deixado de propósito para aumentar a visibilidade da imagem no espelho. Os longos braços escorridos ao lado do corpo, como trombas de elefante. Pernas pálidas e peludas, meio tortas e finas como uma tesoura afiada. O tórax frágil e branco, peito liso, quase amarelo, um pulsar irregular do nervo cardíaco pode ser percebido, subindo e descendo sob a pele do lado esquerdo.
      
O rosto fino, a barba por fazer, os cabelos desarrumados descem até a altura dos ombros largos como de um atleta da natação. As mãos repousam agora sobre o membro encoberto, dedos calejados, linhas talhadas ao longo dos antebraços destacam-se vermelhas e vivas, são pequenos rios de sangue que já secaram e que não chegaram a sujar nada. O homem observa a si mesmo e questiona quem é. Não obtém respostas. Ou não há respostas possíveis agora.
      
Onde estaria agora? Andou até a janela ao lado do espelho emoldurado. Parecia vir um sinal de vida do horizonte que se perdia na distância, afogado num rio barrento de águas tranquilas. Deu de rosto com a cidade. Não uma cidade, ou essa ou aquela, mas a cidade que não conhecia ou não saberia dizer para si o nome. Ruas estreitas, casarões antigos e uma imensa ponte. Outros elementos vinham a fazer parte deste cenário urbano, o trânsito agitado de carros em semáforos e pessoas apressadas rumo a um ofício.
      
Voltou as costas para a cidade que corria pela janela e passou a observar o apartamento. Teria que encontrar uma certeza entre tantas dúvidas. Quem sabe uma pista sobre algo de si. Quem sabe um objeto, documento, uma roupa. Se é que seriam suas essas coisas que visualizava no quarto. Mas teria que tentar. Eram dez horas e quinze minutos. Começou a explorar o ambiente, assim como estava, nu, sabendo que da janela não poderia ser avistado por ninguém. Estava num apartamento no centro de uma cidade, o mais alto talvez, de onde poderia ficar a vontade.
      
A observação de tudo que havia no lugar pareceu uma ação lógica para sobreviver à sua amnésia. Talvez pudesse se lembrar de alguma coisa, um detalhe insignificante, mas que desse uma luz para o que estava passando. Havia quatro janelas relativamente grandes, molduradas em madeira e com talhos feitos com formão, todas cortinadas, com um tecido alvo, branquíssimo, assim como aparentemente frágil, seria seda? Cetim? Ao certo não sabia, mas o sentiu nas mãos, com uma suavidade impar. Talvez um tecido que nem mesmo conhecesse.
      
Uma cama grande com lençóis e travesseiros, disposta ao centro exato, sob um círculo de ladrilhos diferenciados, azuis, em contraste com a disposição branca do solo em todo o restante do apartamento. Cama que o manteve durante o sono profundo em que se perdeu. Quantas horas seriam? Duas? Dez? Vinte? Dias inteiros? Não saberia responder, as respostas pareciam estar trancadas numa caixa e enterradas no mais profundo de um rio. A caixa das coisas inacessíveis.
      
Um guarda roupas pequeno em tom cinza estava disposto ao lado da porta de entrada, uma cavidade no concreto, voltada para a cama e para a janela aberta que estava atrás desta. Era de madeira mesmo, madeira ruim, leve e sem aspereza, madeira artificial. Como a madeira das janelas e da moldura da porta de entrada.
      
A porta era enorme, quase da altura do quarto. Em torno de dois metros e cinqüenta de altura, erguia-se pomposa, áspera. Era branca, como as cortinas, tinha detalhes azuis quais os azulejos sob a cama. Uma passagem na parte superior, quadrada, de trinta centímetros de altura pelos mesmos trintas de largura. Coisa do tipo de uma entrada para cães, mas na parte de cima. O homem conjeturou o que seria. Mas não sabia. Mas acreditou que aquilo era uma coisa muito importante.
      
E de fato era. Pode contemplar uma caixa que adentrava pela cavidade. Era uma dessas caixas de SEDEX. Questionou-se a que horas teria chegado. Talvez estivesse ali há dias, semanas, quem sabe até meses. Não teria como mensurar, já que não sabia nem quem era e nem mesmo que lugar era aquele.
      
Curioso com sua descoberta, sentou-se à cama. Começou delicadamente a abrir o embrulho. Era endereçado ao inquilino do apartamento 305, um tal senhor denominado Carlos Cavalcanti. Ao terminar, a grande surpresa. O que continha no pacote era infinitamente mais esclarecedor que qualquer outra coisa. A caixa continha um revolver calibre 38 de cor metálica. Uma bela arma; com grande potencial de impacto visual.
      
Num momento tudo girou num enorme mosaico dentro de sua cabeça. Tudo começou a se encaixar. A arma era encomenda sua. Comprara pela internet num site duvidoso que tinha origem na Bolívia. Ele era Carlos. Ele havia alugado o quarto de hotel no centro de Rio Branco. Pagara adiantado o primeiro mês. Estava ali para um propósito, mas adormecera. Era fraco para a cocaína e para o whisky. Devia estar transitando quase sem consciência por uma semana. Drogando-se e bebendo, aguardando o momento da chegada do embrulho. Este que agora estava diante dele.
      
Como atencioso analista ficou a observar o instrumento. Era belíssimo. Era chegada a hora. Explorando mais a caixa percebeu que a encomenda estava completa. A cada dia se podia confiar na qualidade dos serviços na rede. Num pequeno saco plástico havia uma bala cor de ouro. Ficou reflexivo. Agora não poderia voltar atrás.
      
Lembrou-se dos tempos em que brincava de roleta russa com os amigos. Foram 15 vezes e nunca nada lhe acontecera. Viu muitos tombarem. Como se não pudesse mais adiar o momento, apertaria o gatilho pela primeira vez. Mas agora a brincadeira não cessaria até que morresse. Seria um jogo sem volta. O som soou seco. Abafado. O projétil entrou no crânio sem dificuldades. Carlos conseguiu na primeira tentativa, coisa que poucos conseguem. O jogo estava terminado.



                                                * * *
 

Marcio Bezerra da Costa é acreano, sociólogo e escritor. Autor de Deserto Provisório, Prêmio Garibaldi Brasil de Literatura em 2008 e 2009. E-mail: marcio-ufac@hotmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Marcio Bezerra da Costa no Cronópios.