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Vestido de noiva
por Fernando Lionel Quiroga







 
20/08/2012 00:11:00
Vinte mil cavalos marinhos



Por André Knewitz


       E essa daqui?, perguntava pela terceira vez, me deixando um pouco mais perturbado. Esse daqui é um Corsair, último lançamento, dois motores Mercedez de trezentos e vinte cavalos cada, 35 pés, acabamento interno em madeira, duas tevês de LED, cama de casal, frigobar... Uma ótima lancha, top de linha.
      
E o que você fez?”
      
Dei todos os detalhes, mas... Ele não ia comprar nada! E depois me soltou essa pérola: O problema é que eu não tenho carteira de motorista pra mar. Como eu faço se me pegarem? Já era a terceira pergunta idiota, e cada vez mais crescia em mim a certeza de que não venderia nem planonda de isopor. Deviam instalar um censor de pobre na porta da revenda...
      
Respondeu a ele?”
      
Mantive a calma e disse: Mas isso não é necessário, meu senhor. Lá de vez em quando a Marinha faz blitz, mas é só escorregar uns mexilhões do bolso e..., fiz um gesto de deslize com as mãos. É sentar e pilotar. Surfista e mergulhador que vão pro inferno, he-he... Ele não riu.
      
Comprou?”
      
Ainda estava indeciso. Então um senhor grisalho desceu de um importado alemã  o no estacionamento. Larga esse jaguar e vai atender o magnata, disse minha consciência. Calma lá, respondeu minha glândula pituitária, sempre cheia do tal “caráter”. Vai sair uma venda boa, tenha paciência. E olha ali pro canto! Ele deixou uma pasta grande ao lado do cafezinho. Vai ser pagamento em cash, pode apostar! Minha consciência não se dava por vencida: ah lá a Renatinha atendendo o magnata... Com aquele corpinho vai vender um iate, escreve aí... Minha cabeça tá sempre se auto-discutindo...
      
E o cliente?”
      
Largou outra pergunta idiota: quem leva a lancha até o litoral? Meu carro não tem aquele engate, aquela bola atrás... Claro que não tem, deve ser um fusca, pensei, pra desespero da pituitária, que me apontava a pasta preta e dizia que a Renatinha não ia vender nada. Esse tiozão veio aqui de importado só pra comer a menina. Fica calmo. Eu suspirava. Mas respondi: Não precisa levar, senhor. A gente leva a lancha pra você. Até porque esses barcos não podem ser transportados por automóveis.
      
Jura?
      
Juro.
      
Pra onde eu quiser?
      
Pra onde você quiser, senhor. Litoral de São Paulo, Santa Catarina. Até pro nosso litoral a gente translada, apesar de que não vale a pena colocar uma jóia dessas no meio daquele mangue fedido, né mesmo?
      
Disso isso mesmo?”
      
E tentei rir. Forçado, mas tentei. Então um playboy descia de uma picape preta. A Claudinha foi logo abrindo a porta. Filha da puta, se eu tivesse um carro desses comia essa morena. Insista com o cara, disse a pituitária. Insistir o que? Um Zé Mané daqueles! Jaqueta militar, barba. Até parecia líder do MST. E ele continuava com as perguntas idiotas.
      
E as revisões?
      
Revisões?
      
Sim, as revisões da lancha.
      
Como assim revisões?
      
Quando eu compro um carro tem revisão, de dez em dez mil quilômetros. Se eu lanchar mar adentro não tem revisão com dez mil?
      
Revisão?
      
É, revisão! Troca de óleo, motor, filtro...
      
Ele perguntou isso mesmo?”
      
Calma lá, tem mais! O velhote grisalho assinava o cheque. Maldita Renatinha, ia bater a meta de novo! Mas eu não ia desistir da cantada. Eu ia chegar de mansinho... Checão, hein, Renatinha? Tá bem na foto, hein? Ela todinha sorrisinhos, pois é, você viu? Aceitou todos os opcionais. Um senhor bem simpático. Eu também seria simpático, colocaria a mão no ombro... Você podia pagar a pizza essa noite, depois do coquetel... Sabe como é, comemorar... Eu tava esperando uma oportunidade pra falar “a pizza essa noite”, e ia ser ali. Isso se você arrancar as notas daquela pasta, disse a pituitária, me fazendo lembrar do sujeito.
      
Então?
      
Então o que, senhor?
      
As revisões. Eu já disse que meu carro não tem aquele engate atrás pra puxar o barco serra acima.
      
Você continuou o atendimento?”
      
Eu estava confuso, minha cabeça fervia. Aquele velho nem ia te dar bom dia, gritou a pituitária. Ninguém agradece vendedor, ninguém cumprimenta vendedor. Tu não passa de um capacho! Na adolescência você queria explodir todo lugar que reunisse gente rica, agora fica lambendo saco deles pra ganhar uma merreca. Quem você é agora? Quem? E presta atenção no cliente!
      
Não tem revisão, senhor.
      
Não?
      
Não.
      
Como não?
      
Sabe a água salgada do mar? Nunca se perguntou por que o bacalhau vem salgado?
      
Não...
      
É porque o sal mata tudo! Mata todos os germes que afetam o motor, que preteiam o óleo, que desgastam as velas... Por isso que barco não tem revisão.
      
E depois?”
      
O playboy assinava um cheque e a Claudinha sorria. Maldição! Os garçons iam chegando, floristas. O coquetel seria logo mais à noite. Queijos, vinhos, um salame picado, tipo caseiro. Lançamento de iate só dá bacana... Banqueiro, deputado, empresário.
      
E o cliente?”
      
Foi saindo. Deve ter dito obrigado. Ele disse obrigado, me falou a pituitária. Ele disse obrigado, mas não prestei atenção. Você tava olhando o decote da Renata, me falou de novo. Eu estava prestando atenção na Renatinha, que ajeitava um vaso de orquídeas, ao lado do café. E se você fosse honesto, correria atrás do homem pra levar a maleta preta que está ali, me disse-me de novo.
      
A maleta estava ao lado do cafezinho?”
      
Que se dane a maleta preta, pensei. Nisso a Renata ergueu a pasta até o ouvido, franzindo a testa. E ficou sacudindo...



                                              * * *
 

André Knewitz é gaúcho mas mora em Curitiba. Representante comercial, contista, romancista, já participou de oficinas literárias ministradas por João Silvério Trevisan, Otto Winck e Paulo Sandrini. Tem dois romances e um livro de contos a serem lançados. E-mail: akitz@ig.com.br

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