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5/10/2005 23:42:00
Sr. New York



Por Bárbara Lia







A máscara caíra. Ele era New York. Não era o sereno Fuji com cerejeiras e ao fundo o azul-nirvana-céu. Neve e cerejeiras em flor – decididamente ele não era!

Ligia sentiu bailar cálidas águas nos olhos céu de Praga na primavera. Lembrou Lorca, lembrou Frida Kahlo.

Ser revisora a deixava grávida das mais belas palavras do universo, e as palavras do poema ciudad sin sueño soavam como realmente eram – nocturno de brooklyn bridge - Havia uma ponte a atravessar, a levaria até o Sr New York.

 

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros.

 

O céu não dormia e tudo gangrenava como os pés de Frida Kahlo Frida na banheira, a contemplar os pés sangrando e vendo vestidos na neve e Diego caindo de prédios... Vida que se encarcera em arte fica surreal e mágica, mas fica também dolorida de cores e verbos e de metáforas ensandecidas de quem vive acima - Frida, Lorca, tantos, tantos, tantos que compreendiam Deus, os astros, a música, a lírica, os segredos todos, estes, estes se chocaram com New York.

O homem amado era New York e se vestira de monte nevado. Evocara mantras, monges, címbalos, meias-luas lilases flanando entre cortinas diáfanas.

Abutre do Brooklin fantasiado de anjo, medindo gestos e palavras na tentativa de ser o mago zen das tintas. Recompunha céus e vôos. Copiava o gênio surrealista. Asas e rosas adornando lugares insólitos, copiando porcamente Magrit. Pobre Magrit!

Na noite em que Ligia viu o artista brilhava uma lua de sangue, a aurora dos dias sangrava como se a lua quisesse gritar – cuidado!

Naquela noite sentiu o olhar como vela que segue o vento, ela, o vento. Mas, Ligia não era poeta e não viu a alma do artista. Não ouviu o tilintar da máscara do abutre.

Meses a fio letras a brilhar negras na tela. O artista plástico apontou uma planície de seda e experiências líricas que ela incorporou como sonho de primavera. Era primavera.

“Veja só cada qual com sua maluquice e eu com esta, prefiro viver a dimensão poética”

Ligia achou transcendental, terno, filosófico. Puro Fuji, azul ao fundo, cerejeiras em flor.

Não via as ruelas urbanas, não ouvia o estridente som da buzina, as avenidas serpenteadas de angústia. Don’t walk eclipsada pela poética ramagem de cerejeiras belas.

Revisar livros anos a fio transformara real e sonho em massa amalgamada e ela era agora personagem. Seguiu sonhando as palavras que lia.

A revelação chegou com a tempestade daquela tarde de maio. Hora do ângelus.

Achava bela a hora do ângelus. Na infância interiorana os sinos repicavam no instante em que, entre as árvores, menstruava o céu, luz que só o sangue tem. A mãe colocava um copo de água ao lado do rádio Semp, enquanto uma voz antiga, em latim, abençoava o dia e as horas. O pai picava o fumo na varanda e preparava um cigarro de palha, lambendo as bordas das palhas, num ritual gravado como um quadro de Portinari.

Foi na hora do ângelus que ela leu a mensagem na tela.

 

 

Ligia...


     em primeiro lugar, gostaria de dizer que admiramos sua sensibilidade, que para o meu companheiro é ótimo ter uma fã tão atenta e dedicada. Mas precisávamos dizer que nos últimos meses, não sabíamos como te dizer que a vida dele é diferente da obra dele...
    Espero que esta mensagem deixe tudo muito claro e que não haja mais mal entendidos... Eu escrever foi a solução que achamos melhor para resolver essa situação.


       Cora

 

Cora nome impróprio para uma ácida criatura. Cora evocava Coralina, versos e rios de Goiás. Em choque, diante da mensagem, descobriu num átimo que ele era o Sr. New York, com máscara de monte Fuji. Omitiu Cora, manteve um diálogo terno mulher-homem e jamais disse que Cora existia, ela perguntara e perguntara nas horas de angústia quando viver na dimensão poética a entediava, mas, ele insistia na dimensão poética, na amizade... As mensagens clamavam um encontro na dimensão que Ligia incorporou e para ele era um refrigério ao ego entorpecido pela rotina, talvez. Então, ele pintou letras que eram obras de arte embalando meses de Ligia:

 

“Teu nome é um cantabile sonoro”

“És bela e transparente e as coisas flutuam”

“Estou contigo em todas as alegrias e plenitudes neste novo ano”

“Tuas palavras dão impulso às minhas utopias”

“Grata amiga por garrafas de mensagens que chegam e ancoram na praia...”

...

As palavras belas foram nocauteadas por gangs de New York, canivetes, cacos de garrafas lacerando as fibras do coração de Ligia, retalhado em postas.

Deixou a sala, não deu o costumeiro adeus ao ascensorista, ao porteiro.

Lá fora, um Niágara, a pele não continha o furor das águas. Maio azul cobalto de fim de tarde em tempestade. Chuva que penetra pele e chega ao coração sangra e arde a ferida viva. Atravessar ruas, praças. Ali o endereço, a casa. Sabia onde ele morava e sabia seu telefone e seu celular. Por absoluto acordo poético não ultrapassara a cortina das dimensões, a poética e a real.

Raios fosfóreos e fúria, pés afundam na grama e ela abre a porta do barracão e descortina o odor das tintas, as telas soltas e o olhar espantado do artista.

Cá estou – a pessoa. Tenho alma, tenho coração que escorre sangue e chuva. Lá está quem omitiu Cora, quem semeou meses de ternura na tela em um encontro poético em uma dimensão criada.

Uma história jamais pensada por Lígia.

Era azul da Prússia a tinta que repousava ao alcance das mãos, era azul que banhava as telas na fúria de uma mulher que foi ultrajada naquilo que as mulheres têm de mais profundo – a emoção.

Alguém amealhara sonhos com uma máscara zen. Mudo, ele se colocou como um bicho acuado, covarde.

 

“Cora descobriu teus e-mails... Pode chegar a qualquer momento”

 

Ligia estancou com uma lata de tinta vermelha nas mãos. Ridícula cena – pensou. Recuou, voltou à chuva, voltou às lembranças do poema de Lorca, fuligens de New York, aço, aço e angústia. Só podia chorar por ter sido tão tola e não ter percebido a máscara, a máscara, a máscara...

Caminhou tonta de cansaço e mágoa. No canteiro entre duas paralelas de uma via movimentada, tropeçou.

O corpo colhido pelo imenso caminhão blindado, desses que transportam valores. Homens com armas na chuva diante do corpo triturado e do rosto sereno e belo. Tela que nenhum pintor recriaria. O rosto intacto, mechas vermelhas dos cabelos como chamas claras espalhadas pelo asfalto, luz azul do olhar fixo em um espanto terno. Maio violento.

Cora coloca a pizza na mesa e apanha uma capa de chuva para chamar o seu companheiro – assim ela o chamava – para o jantar. Um pouco cansada de vez por outra ter que afastar uma fã deslumbrada que chegava para turvar seu casamento perfeito.

Nenhuma chance para o amor.

 









 

 

Bárbara Lia é professora de História, Poeta e Escritora. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance Cereja & Blues. Poemas publicados no jornal Rascunho, na Revista Etcetera e Revista Coyote nº10.  Revista Zunái, Germina Literatura, Ontem choveu no futuro, Blocos online, Cronópios Literatura e Arte, Livraria Pagu, Editora Ala de Cuervos. Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Mora em Curitiba há vinte anos.

www.chaparaasborboletas.blogspot.com

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