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30/10/2005 23:49:00
La muert du fou



Por léo mckellene






 
 

 

as pedras tem amores escondidos
os marinheiros buscam suas roupas velhas no varal dos amores
os marinheiros perdidos de muito tempo
seguem em jangadas que arrastam toda a saudade
(...)
éramos crianças na construção das jangadas
mardônio frança

 

Fui eu. Eu matei o amor. E não reconheci a letra da minha mãe na carta que ela me mandou com a conta do cartão de crédito dela pra eu pagar. Não reconheci a letra da minha própria mãe. Parecia era outra pessoa.

Passei boa parte dos quatro primeiros meses e dos meses seguintes repetindo, repetindo e repetindo isso pra todo mundo que eu via. Há avanços que se parecem com atrasos e atrasos que se parecem com avanços. Agora pago as contas da minha mãe, empresto cheques a meu pai. Comprei um computador, alguns livros que, sei, nunca lerei, um sofá, um ventilador de teto, um microsistem; sou professor de uma universidade e moro longe, bem longe de casa.

Vi seus olhos pousados nos meus. Vi seu rosto sob as escadas de ferro em espiral, na quarta casa em que moramos em menos de dois anos. E eu dentro do carro sorrindo, pedindo que ela deixasse daquilo, que eu logo, logo estaria de volta.

Pra acalmá-la, lembro de ter escrito um poema que recitei ao telefone enquanto pegava o ônibus pra algumas horas de viagem.

e quando  meu espírito de ir

de tanto ir

encontrar o  teu de ficar

e de tanto ficar

sentires necessidade de voltar a ir

que vá!

Pois sei

(ou aprenderei)

que indo podes ficar

e que eu

¾ deves saber ¾

posso ir

em apenas ficar

Isso já vai pra lá de um ano.

Ela sabia. Entendia o que acontecia. Sabia. Eu não. Nunca soube. Só percebi quando me vi levando pra casa do Kleber todos os livros, meu sofá-cama.

Bem que ela não queria deixar eu levar o sofá-cama que havíamos comprado fazia poucas semanas. Colchão D33. E eu achava que era porque ela queria o sofá só pra ela. Egoísta. Um ano depois, Kleber comprou um igualzinho, quando já estávamos num outro lugar, pra pôr no quarto dele. É que ele gosta de dormir na cama e na rede, na rede e na cama... hum! Passa a noite toda pulando de um pro outro, achando que vai mudar alguma coisa. Hehe! No fundo, no fundo, é uma tentativa, sempre, de ficar diferente, de mudar de lugar. De negar o que ele é quando está na cama. De mudar o que ele é quando está na rede. Uma hora na rede, de repente na cama.

Na última casa em que moramos, ela tinha esperança ainda de que eu voltasse. Eu, sempre canalha, me sentia eufórico num novo lugar, com outras pessoas, com outros sabores, outras canções, lábios mais frescos... e aqui, mais uma vez, eu me traio... repetia e repetia outra vez para todos, A euforia só distrai e desarma, e tomava um trago de whisky com Del Rio. Eu, completamente desarmado, completamente distraído, continuei...

Numa noite em que eu visitava pela milionésima vez o bar dos casulos luminosos, e achando tudo muito novo, tudo muito novo, ela me ligou, numa noite em que a lua pegava fogo no céu. Gigante, perto, dourada. Ligou pra me oferecer a lua. Ligou para me dar de presente a lua. Ela estava só, do outro lado. Eu acompanhado aqui. Ela só tinha a mim pra ouvi-la, para tê-la. Eu não estive ali. Atendi o celular. Queria que eu fosse até um telefone público, a ligação interurbana era mais barata assim. Eu, bem sentado, Não, fala daí mesmo. Ôôô, vai. Não, o que é? Me ofereceu a lua e eu tive a indignidade, a canalhice, a miserabilidade de sorrir satisfeito e de dizer ¾ pasmem! ¾ Só isso?

Só isso. Eu havia tido a coragem, a covardia, de perguntar, Só isso?

Mas as coisas envelhecem e hoje quase não saio de casa.

Lembro do rosto dela quando eu disse que viria de vez, que tudo acabaria de fato, que eu já não a amava mais.

Lembro do seu rosto retraído. Lembro do que me falou. Em momento algum me culpava. Mas eu sabia, eu matara o amor.

Irredutível, o presente é sempre irredutível, principalmente quando você acha que está feliz. Acha. A felicidade é frágil, delicada, e é como as moscas, tem vida curta. Tirei minhas coisas de lá, enquanto ela chorava. Separei os meus discos preferidos, enquanto ela chorava. Encaixotei meus livros, enquanto ela chorava. Roubei alguns dela que, eu sabia, ela demoraria a descobrir. Irredutível, sempre irredutível. E ela chorava, ela chorava.

Tínhamos um gato. Escuro, o nome dele.

Estávamos indo pra casa numa noite, antes de tê-lo. Ela, com um livro da Clarice nas pernas, no ônibus, A maçã no escuro. Um gato preto ela queria. Escuro, eu disse olhando pro livro, O nome dele vai ser Escuro. Ela sorriu e me beijou. No dia seguinte, cheguei em casa do trabalho, lá estava o Escuro. Lindo, lindo. Pequeno, peludo. Dormimos na casa ainda sem móveis. Carpete verde do quarto do meu avô no chão, travesseiro da casa da mãe dela na cabeça. Sem roupa e abraçados. Escuro zanzando perto da gente, ronronando lindo. Lembro bem dela dizendo no meio da noite, Parece um trator! E nós nos ríamos como duas crianças que conversam sem sono antes de dormir.

Depois disso,veio uma gata, Pra fazer companhia ao Escuro, dizia ela. Ela sempre tinha um bom argumento na manga. E me convencia de tudo. Sempre. E eu, cúmplice, deixava. A nova gata era a Chiquita, da Chiquita bacana do Caetano. Lembro que tínhamos um mini-quadro do Caetano na ante-sala. Não. Outro Caetano, não esse. Chiquita foi embora quando saímos da terceira casa. Foi pra casa de uma tia dela. Soubemos depois, que Chiquita fugira. Partiu como eu partira. Buscando uma coisa que não sabia bem o que era. Talvez o Escuro, talvez a lucidez. Chiquita era uma gata assustada. Arisca. Muito arisca. Não que fosse autoconfiante como todo gato o é. Independente. Não, não. Ela era diferente. Tinha medo. Muito medo. Tanto medo que chegava a sujar o tapete verde; e lá ia eu lavar puuuuto da vida quando chegava do trabalho ainda na primeira casa.

Dizem que viemos pra esse mundo pra um momento único de felicidade. Um momento que não se repete. Um momento do qual todas as outras formas de estar bem, de ficar bem terão sido no final tentativas vãs de aproximação desse momento. Mas ele é único. Um momento que tem pra todo mundo, nem que seja por um segundo. E pra poder chegar pra todo mundo, não pode ser muito demorado, não. Só a felicidade possível. Uma gota de prata necessária como prova de que existimos realmente, de que tínhamos vivido; pra que quando a gente chegasse às margens do rio do esquecimento que tem depois que a gente morre, a gente pudesse lembrar pela última vez, enfim. O mínimo possível era o máximo pra nós. Dizem que viemos só por esses momentos.

Os quatro primeiros meses foram assim. Sim, eu sei, a memória nos trai, mas digo que o que nos trai é viver. Não é o passado que nos ilude, é o presente. O passado é sempre o que falta, o que somos.

Trepávamos na chuva, no quintal de cimento, em cima da pia de lavar roupa. Uma área de serviço bem pequena. No almoço, salada judaica que ela fazia, com repolho e geléia de morango que eu não soube comprar e havia trazido era geléia de mocotó sabor morango. Haha! Acabou com a receita, ela disse pra visita daquele dia. À noite, fumávamos um baseado, eu ainda podia, ainda não era noiado, e jogávamos xadrez de pedra sabão que roubamos do irmão dela, ou jogávamos tarô pra gente mesmo ou pra algum amigo que por ventura estivesse ali. Todo dia tinha gente lá em casa, todo dia. Amigos que ainda são amigos. Amigos que se perderam ao longo do caminho. Amigos que se foram para sempre, nesse outro momento primo da vida em que se pode dizer, aqui sim, Nunca mais. Amigos que se tornaram inimigos de mal entendidos, desses que sempre haverão de existir.

Num sábado, ouvíamos o Freqüência Beatles, da Rádio Universitária. Especial de não sei quantos anos do lançamento de Imagine do Lennon. E tocava, “give a chance for a peace”. Nós, na rede vermelha, como numa jangada. Um na ponta e outro na outra, balançando alto e alto e mais alto. Nós cantando alto quase gritando Give a chance for a peace e chorááávamos como dois abestalhados, porque a música era bonita e porque estavam todos loucos lá fora, todos loucos lá fora. Éramos cúmplices. Só nós dois estávamos certos. Só nós dois estávamos sãos. Só nós dois sabíamos amar. Só nós dois, só nós dois...

Roubávamos livros nas maiores livrarias da cidade. Éramos a dupla perfeita. Bianca dizia que nos tinha por espelho. Confesso que ela conseguia mais, muito mais do que eu. Roubar nos sebos é que era o desafio. Numa dessas descobri Bachelard e ela conseguiu a sua primeira Torá, em hebraico, da direita pra esquerda e tudo.

Salvaríamos o mundo depois disso. Éramos o casal escolhido.

Mas a intimidade dilacera todas as belezas. Ela é um segredo íntimo da natureza das coisas. Toda intimidade viola a beleza das coisas. Toda beleza é intocável. Deve ser apenas contemplada. Nada em profundidade pode ser belo. Não é permitido. A beleza é um segredo íntimo e egoísta da natureza de todas as coisas. Além dela, a vida termina...

 

Escuro sumiu faz algumas semanas. Cinco talvez. Talvez mais. Terá morrido. Terá sido apanhado por alguém. Terá sido preso pela carrocinha. Dizem que nesses casos, eles fazem sabão com os animais. Era um gato lindo. Um gatão deeeesse tamanhão. Persa, peludo e preto. Seja como for, era, sem dúvida, o nosso último elo material.

 

Ela voltou a morar na casa da mãe, como é de costume em casos assim.

Eu continuo aqui. Continuando... continuando... continuando...

Na algibera, ela. O resto é nada.

 

Quando termina a viagem de barco, o timoneiro recolhe as águas todas no pote, devorador de luas e de estrelas, pra que não pudéssemos voltar, pra que não pudéssemos voltar através das lembranças, através das jangadas.

Mas mesmo quando seca um rio inteiro, resta sempre uma última gota de prata. Dentro dessa gota, a saudade, memória acumulada, o tempo pesando num segundo, eternidade doendo.Dentro dessa gota, a saudade, a história recontada, a vida revivida. Dentro dessa gota, a semente de tudo o que virá...

 

 

 

 

Tudo se regerá numa orquestração de causas e efeitos. Prodígios se realizarão quando as coisas mostrarem a luz de seu segredo. Saberemos porque o mundo se regia pela ordem dos acasos e que não havia, portanto, nenhuma desordem. Todas as coincidências revelarão seu mecanismo até então nunca sequer entrevisto. O mundo, dessa vez, será a conquista de seus segredos numa secessão que levará a completa felicidade das espécies sobre a terra

Carlos Emílio Barreto Correa Lima

 

 

 

Caminhou calmamente até a água com os pés descalços e a calça jeans, dobrada até a canela, encharcada até a altura dos joelhos. O peito nu exibia os pêlos para a noite, como se ela precisasse revê-los. Agachou-se sem se importar com a calça e mergulhou a mão onde trazia a saudade. Abriu. Deixou que ela fosse. Deixou que a saudade voltasse pra casa, pro fundo do mar.

Caminhou calmamente até a água com os pés descalços e a saia longa, colorida, a barra encharcada grudando dos tornozelos também molhados. Os seios trazia-os cobertos por uma camiseta branca, protegidos do frio da noite, como se ela não os devesse tocar. Agachou-se sem se importar com a saia e mergulhou e procurou com a mão o que sabia ser saudade. Encontrou. Apertou entre os dedos. Colocou a saudade de volta em casa, dentro do peito, do lado esquerdo.

 

Port. Saudade > Esp. Añoranza > Cat. Añorar > Lat. Ignorare > Port. Ignorar
Saudade é não saber o que o outro ta sentindo.

 

 


















 

Leo Mckellene é poeta e contista. Mora em Sobral, interior do Ceara onde leciona literatura na Universidade do Vale do Acarau. 

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