Andava pela rua e a canção a acompanhava. Os outros transeuntes não pareciam ouvi-la, caminhavam em passos apressados. “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Seu destino ainda não era certo, não sabia se iria conseguir chegar. “Se tenho coragem de tomar banho pelando, imagina do que sou capaz”, pensou num tom de quem queria deixar claro de que estava segura de sua decisão.
Despejava sorrisos largos por cada metro por que passava. Nem sempre eram bem aceitos. Alguns a olhavam com a dureza de quem precisa de um tempo para aceitar o inesperado. As crianças gargalhavam, misturando suas crueldades infantis com curiosidade. A mendiga da esquina, esticou a boca repleta de dentes podres e piscou o olho.
“É promessa de vida em meu coração”. O mar nunca tinha estado tão azul. Parecia que o céu tinha lhe dado este presente. Não que ela fosse acreditar em suas próprias ilusões. Sabia que todos poderiam até saber, que aquele era o dia do seu aniversário e que era pisciana, mas a certeza de que não se importariam era maior. Ninguém tinha tempo a perder com bobagens astrológicas. Suas vidas tinham que ser uma sucessão imediata de fatos para que fizessem algum sentido. O ideal é que pouco se tenha tempo para pensar, pois é o pensamento que induz ao erro. É antinatural ficar racionalizando as coisas. Os bichos não perdem tempo com idéias tolas e vivem seus destinos pela intuição. Pouco erram. Vão aonde devem ir. “Só vou parar quando meus pés não mais agüentarem, ou quando chegar ao fim do caminho”, disse para si mesma, decidida.
Procurava, com cada passo, sua verdadeira libertação. A brisa soprava em seu rosto, levemente, enquanto seus cabelos misturavam-se incoerentes. Já sentia abandonados seus sentimentos antigos, já confortáveis. Por quilômetro percorrido, ia tornando-se uma santa. Seus pequenos detalhes sujos, como a mania de roer unhas e as mentiras que contava para a prima rica, tinham se tornado parte do passado. Estava tão limpa e pura quanto um bebê que acabou de nascer.
Tinha nos quadris, talvez por influência rítmica da canção, um movimento tão gracioso quanto os da Garota de Ipanema. Nunca tinha sido garota de nada. Viveu uma vida que foi arrumada contra ela. Até antes de sair de casa, tinha sido difícil para alguém guardar em mente seu nome. Era mais uma no meio de infinitos irmãos. Tentou evitar, durante toda a vida, que perguntas existenciais viessem à sua mente. Preferia não saber quem era, a ter a dor de mais uma decepção.
“É pau, é pedra”. Sempre amou aquele colar de pérolas que tinha no pescoço. Dizem que pérolas, quando não usadas, tornam-se envelhecidas. Suas pérolas eram a única coisa verdadeira que teve. Sempre lhe fizeram companhia. Não ficariam velhas, se dependesse dela. Logo, iriam juntas para o lugar de onde vieram.
Não mais se incomodava com os risinhos insolentes que percebeu durante o caminho. “É promessa de vida em meu coração”. Seu corpo completamente nu se arrepiou todinho de excitação. Estava perto de experimentar o começo de tudo. ”É o fim do caminho”. O fim para ela representava um novo começo, uma nova chance. Respirou fundo e pulou, do alto do morro, em direção às águas azuis de março, que fecharam sua vida e o verão.
Renata Belmonte, 23 anos, nascida em Salvador e graduada em Direito pela Universidade Católica de Salvador, é uma das mais promissoras contistas da atualidade. Tinha apenas 21 anos quando ganhou o Prêmio Braskem de 2003 para autores iniciantes, com o volume de contos Femininamente. Desde então vem despertando a admiração dos leitores. Nesta entrevista, concedida ao estudante Thiago Lins*, Belmonte fala de sua preferência pelo conto, de suas escolhas temáticas, influências e de novos projetos.
Thiago: Vamos começar por uma questão básica: como foi que você se envolveu com literatura e quando e por que motivos começou a escrever?
Renata: Sempre fui uma menina diferente, estranha, aérea, deslocada. Parecia que eu não pertencia a lugar algum. Enquanto meus primos gostavam de correr, nadar, pescar, eu queria ficar quieta, sentada. Costumava achar a infância um verdadeiro tédio, me perguntava quando seria o momento em que as coisas iriam realmente acontecer. Em um verão calorento do início dos anos noventa, descobri que minha casa da ilha ficava defronte de uma biblioteca. E assim começou a minha história como leitora. Fui seduzida pelo universo das estórias infantis e, com o passar do tempo, passei a escrever peças de Natal. No entanto, apenas identifico o meu primeiro momento como escritora, aos dezesseis anos. Uma poesia que escrevi acabou sendo escolhida para figurar na prova de literatura da quarta unidade. Foi uma felicidade tão grande que entendi que aquilo era o que gostaria de fazer pelo resto de minha vida. Acho que escrevo como tentativa de escapar desse mundo incoerente que se apresenta. Necessito pertencer, compreender, estabelecer um espaço fantástico com regras que me pareçam lógicas.
Thiago: Sua estréia na literatura se deu em 2003 com o livro de contos “Femininamente”, um dos vencedores do prêmio Braskem daquele ano. A opção pelo gênero conto foi pessoal?
Renata: Sim, sou absolutamente apaixonada por contos. Quando escrevi meu primeiro, “Em cima da estante de vidro”, percebi as diversas possibilidades que o gênero apresenta. Como tenho uma tendência a falar de pessoas e não de acontecimentos, a narrativa curta se mostra a melhor opção, posso dizer apenas o que considero realmente importante, sem precisar fugir do meu objeto de interesse. Ganhar o prêmio Braskem com Femininamente foi uma grande surpresa, o aval que necessitava para assumir a literatura como projeto de vida. Antes do concurso, tinha apenas alguns contos publicados pela Internet. Sabia que continuaria escrevendo, mas não tinha certeza da qualidade de meus textos. Sou advogada e me sentia muito insegura por não ter formação na área de letras.
Thiago: Na orelha do livro, Moisés Dantas assinala que seus contos tratam de “closes íntimos e pungentes: o ser humano, sua paisagem e sua tautológica condição de nômade em busca da satisfação de aceitar-se como tal”. Como assimilou essa definição? Corresponde realmente às suas propostas temáticas?
Renata: Assim como eu, meus personagens buscam compreender, sentir-se parte de algum lugar. Moisés pretendeu em sua orelha sintetizar a estranha condição de existir nesse mundo pouco explicativo, misterioso. Acho que ele captou com precisão a idéia, pois descreveu o tema de maneira singular. Escrevi a orelha do livro de Vanessa Buffone, As casas onde eu morei, e sei como é árdua a tarefa de encantar, convidar o leitor a entrar no universo proposto pelo autor. É necessário tomar o livro como se fosse seu, caso contrário, corre-se o risco de fugir da atmosfera proposta.
Thiago: Um dos contos que mais me chamou a atenção foi “Fim do caminho”, uma história de suicídio. Qual foi a motivação para escrever este conto? Foi difícil escrever sobre um tema tão pesado?
Renata: Fim do caminho foi escrito em uma madrugada. Estava com uma dor de cabeça terrível, infernal. Resolvi escrever algo que pudesse me distrair, tomar a minha atenção por inteiro. Considero Fim do Caminho um lindo conto e, ao contrário do que se possa imaginar, ele fluiu tão bem que o suicídio final acabou sendo tratado com a leveza pretendida. Lembro-me que, quando o conto se definiu, me senti muito feliz por ter dado voz àquela mulher tão reprimida, carente de atenção do mundo.
Thiago: Como você vê a literatura na Bahia? Quero dizer, na relação escritor-leitor e também na diversidade de artistas e de propostas estéticas? Você tem acompanhado o que tem sido publicado?
Renata: Coisas interessantes têm sido publicadas. Neste ano, Mayrant Gallo, José Inácio Vieira de Melo e Vanessa Buffone apresentaram livros de incontestável qualidade. Ainda posso dar como exemplo a coleção Inéditos da Fundação Casa de Jorge Amado: Tom Correia L., Pablo Sales, Adelice Souza, Fabrícia Miranda e Alejandro Reyes são alguns dos novos escritores que admiro. Acho a Bahia um lugar rico, plural. Muitas são as nossas possibilidades temáticas e estéticas. Não raro leio livros em que Salvador é tratada como uma cidade suja, escura, violenta, facilmente confundida com metrópoles como São Paulo. Já outros preferem a visão mítica, enfatizando nossos aspectos culturais mais marcantes como o candomblé e o carnaval. Essas propostas, quando bem realizadas, possuem valor. Apesar das evidentes dificuldades do nosso mercado editorial, percebo que muitos artistas têm encontrado seu espaço. Revistas literárias como a Iararana, projetos culturais como o Malungos e o Poesia na Boca da Noite, facilitam o acesso a esses novos talentos.
Thiago: Em “Femininamente” há inúmeras referências à música popular brasileira, ao pop-rock internacional e ao cinema, uma constante na prosa mais recente, pelo menos no Brasil. Por que lançar mão deste recurso, ele é gratuito ou implica em algum ganho estético, e, neste caso, qual seria?
Renata: Quando comecei a escrever Femininamente, tinha dezenove anos. Nesta época, estava muito envolvida com arte em geral, foi uma fase de descobertas estéticas das mais diversas. Queria dividir, brindar meus novos conhecimentos. As referências presentes nos contos demarcam este momento de minha vida. Gosto muito de música, pintura e literatura. Acho que a existência destes elementos enriquecem o texto, trazem sonoridade e beleza. No entanto, no novo trabalho que estou desenvolvendo, tenho tentado encontrar o extraordinário nas próprias palavras. Nada pode ser mais delicioso do que a busca da forma perfeita, o eterno jogo de possibilidades que a literatura nos oferece.
Thiago: Fale um pouco de suas leituras pessoais. Aquelas que a motivam a escrever, aqueles autores que contribuíram para seu estilo e visão de mundo. Tecnicamente, o que eles lhe ensinaram?
Renata: Aos dezessete anos, conheci Clarice Lispector e considero este o mais mágico dos meus encontros. Povoam ainda a minha estante: Marguerite Duras, Lewis Carroll, John Fante, Milan Kundera, Kafka, Julio Cortázar, Virginia Woolf, Caio Fernando Abreu, Helena Parente Cunha, Silvia Plath, José de Alencar e Bukowski. Todos os autores citados participam ou participaram da minha trajetória como escritora. Durante a adolescência, gostava de alternar grandes clássicos com livros da chamada geração beat. Acho que a diversidade das minhas leituras me permitiu o desenvolvimento de um estilo pessoal, pouco pautado em padrões pré-estabelecidos, estáticos. Escrevo de forma livre, quase inconsciente. Raramente, começo um conto sabendo exatamente o seu final. Não quero dizer com isso que ignoro as necessidades formais. Estou sempre em busca da melhor maneira de contar minha estória. Acredito que meus autores prediletos são como amigos queridos que, apesar da distância, sempre estarão comigo aonde quer que eu vá. Tenho um enorme sentimento de gratidão por todos, eles acompanham meus dias, me viram crescer, abriram as portas para esta experiência única que é a escrita literária.
Thiago: O que você tem escrito? Os contos estão mudando ou seguem a mesma linha?
Renata: Estou terminando um livro de contos e pretendo começar um romance.Percebo algumas mudanças em meus textos, conseqüência natural de novas leituras e do meu amadurecimento como escritora.Mas não posso dizer que os novos contos fogem radicalmente daquilo que já escrevi. Meu leitmotiv continua o mesmo: o humano e suas múltiplas divisões.
Thiago: Se Renata Belmonte estivesse começando agora, o que ela faria de diferente?
Renata: Teria, desde cedo, assumido minha vocação. Perdi muito tempo com inseguranças bobas, tinha vergonha de publicar. Achava que meus textos só tinham valor para mim, acreditava que ninguém se interessaria pelo que escrevo.Desde o lançamento de Femininamente, venho experimentando a enorme felicidade de ver meus contos ganharem novos mundos, rumos. Sinto muito prazer em dividir meus contos. Se não tivesse sido encorajada a participar do Braskem, acho que continuaria sendo a minha única leitora.
Thiago: É difícil conciliar a vocação de escritora com a profissão de advogada? Algum conflito com você mesma ou com a família, os amigos?
Renata: Não é nada fácil conciliar as duas profissões. Ambas exigem muita dedicação, diversas leituras. Constantemente, fico angustiada, perdida entre as duas realidades. Sou pisciana e isso só agrava a situação (risos). Meus pais, apesar de felizes com as minhas conquistas, olham com um pouco de desconfiança para a atividade literária, têm medo de que eu passe por dificuldades, acham que devo permanecer nas duas profissões. Concordo com eles. Infelizmente, no Brasil, é muito difícil se sustentar com uma carreira artística. Por isso, vou tentando aproveitar o que há de melhor nas duas atividades: a possibilidade de conhecer o comportamento humano, nas mais diversas situações.
*Thiago Lins é estudante de Letras Vernáculas da UEFS.
Publicações de um autor no Cronópios
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