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16/2/2006 23:25:00
Frevo no vidro



Por Bárbara Lia
















Eu sempre vou ter a sensação de estar dançando frevo em cima de cacos de vidro toda vez que ler um poema, ou um livro de Luiz Felipe Leprevost. É uma dança que faz sangrar. Que captura com o ritmo, te coloca em euforia, e quando você menos espera sangra, dói.  Mesmo doendo, o ritmo te conduz a continuar, a rasgar a planta do pé, pois é um instante entre o êxtase que leva ao giro empunhando a sombrinha colorida, e a dor que penetra o teu pilar, o teu pé.

Ode Mundana captura em ritmo de frevo, o livro que o poeta lançará no próximo mês, contém um único poema, e toda a veia mordaz de Luiz Felipe Leprevost.

 

O meu primeiro contato com este poeta há quase um ano atrás trouxe a certeza: quando um autor lê muito ele alcança níveis de produção literária acima do comum. Quando eu digo ler não é aquela leitura que segue uma única rota. Quem admira os concretistas lê os concretistas, quem admira qualquer escola literária segue por ela, ignorando todo o leque que se abre, de toda Poesia e Literatura. Na primeira conversa com Luiz Felipe eu descobri que ele é um ávido leitor e carrega esta ânsia de ir direto à fonte, ler e descobrir, descobrir e ler. E ainda assim, não sofrer influência e não tentar esta forma de escrita – a da imitação.

 

A linguagem vertiginosa de Luiz Felipe é única, e nos leva para dentro do furacão.

Como disse Jaques Brand na apresentação do livro Tornozelos Deitados:


– Luiz Felipe, aliás, tem residência no olho do furacão.

 

Na apresentação de Ode Mundana, publicação da Editora Medusa, de Ricardo Corona, Marcelo Montenegro inicia assim a apresentação:

 

– Eis o louco – Luiz Felipe Leprevost. Curitibano solto no Rio de Janeiro – “Gávea 200 condomínio mais 68 IPTU põe cama e está pronto para morar” – como “um pingüim perdido do bando” Eis o cara que deixou os dedos pingarem “como velas” e teve “lágrimas crescendo no lugar da barba”...

 

Antes de Ode Mundana os livros de bolso da Kafka – Tornozelos Deitados e Cecília roendo as unhas - já traziam a poesia em forma de enredo de peça teatral. A veia de ator saltando para as páginas, que poderá causar estranhamento apenas para aqueles que seguem os manuais e enclausuram a liberdade. Os livros de Luiz Felipe Leprevost são peças teatrais, enredos poéticos que podemos seguir como um vídeo-clipe.

 

No próximo Festival de Teatro de Curitiba será apresentada a peça de sua autoria – Tua passividade me embrutece – pura poesia jorrando em um diálogo de Ele e Ela, tecido por um Narrador interpretado pela estupenda atriz Claudete Pereira Jorge. “Tua passividade me embrutece” remexe os músculos da alma com um diálogo homem-mulher onde o amor é o foco, os encontros, os desencontros, mágoas, tentativas, todas as loucuras que carrega este – vírus – que nos coloca mesmo em estado terminal. O amor.

 

“O que fazer se simpatizamos mais com furacões do que com esperanças?”

Tua passividade me embrutece será dirigida por Sheylli Caleffi e terá no elenco – Claudete Pereira Jorge (Narrador), Sheylli Caleffi (Ela) e Adriano Buchardt (Ele):

 

 

Em Gélida icebergs flutuam nos olhos das pessoas que circulam pela Rua do Pingüins Tristonhos, chamada também de Rua XV, a principal e mais famosa rua de Gélida. É bastante fácil identificar o perfil do cidadão gelidence. Fica-nos claro que são todos eles Gelados. Porem ser assim Gelados os faz saudáveis. Ao contrário do que acontece com alguns poucos rebeldes de Gélida que sofrem preconceito por terem se infectado com uma grave doença, cuja nossos cientistas nomearam de Amor.

...

 

Descubro ao iniciar este texto a infinidade de possibilidades e desdobramentos que os livros de Luiz Felipe trazem. Alguém que se divide entre Curitiba e Rio de Janeiro, onde cursa Artes Cênicas na Cal – Centro de Artes das Laranjeiras, e quando aqui aporta nos brinda com seus recitais e performances.  Em Março vai nos brindar com o lançamento de Ode Mundana, dentro do Festival de Teatro de Curitiba, e com a peça que vai estar na programação do Festival.

Para perceber o quanto o poeta pode ser lírico e profano, melhor apresentar sua poesia, suas vertentes, sempre fortes.

 

Quando Luiz Felipe apresenta suas performances, e sacode a platéia com o vento forte da poesia, penso que é disto que necessita a Literatura, menos debates infrutíferos, mais sangue vivo, menos soro em corpos moribundos. A vida urge, o tempo acelera, e é preciso escrever com toda a força que nos resta, com todo o amor, mesmo que malditos, rasgar o ventre da mesmice, retirar a poesia viva e deixar que ela emita o grito recém-nascido, enchendo os pulmões de ar...

 

...

ainda este colchão aí no assoalho geme a

melodia em falsete

das unhas de Cecília contra a seda

de minhas costas, omoplata de pavão ferido

ai as extremidades da voracidade de Cecília

seu tesão fortalecido porque fragilizado

por minhas mãos a cada soco

 

ai que alucinações de semente de árvore

de vegetal quando eu chovia esperma, gordura

quente

e vela derretida na barriga de Cecília

ai como nos lapidamos com estiletes, garfos

e facas de churrasco

como dois escultores

 

e doemos na dança do ciúme e nos

contaminamos

com tantas doenças e suamos tantos

diamantes, tanto petróleo

 

e como nos bronzeou o fogo do fôlego um do

outro

este movimento de gesso molhado, este ferro

maciço

de estátua amputada

 

quem dera, quem dera nesta madrugada

acender na demência do corredor dos olhos

furados de Cecília

que ardiam águas fundas repletas de tubarões

e submarinos, corredores de castelo mal-

assombrado

 

quem dera

quem dera beber outra vez o sangue

da cumbuca açucarada

daqueles tornozelos deitados

 

Tornozelos Deitados – pg. 9 e 10  (Kafka Edições Baratas)

 

 

entre teus dentes sustenidos

ontem morrerei

no abandono de continuar te amando

 

teus brincos, bambaleantes torres

de onde a lua inebriada de sons e girândolas

despenca gota a gota

 

ontem morrerei na harmonia de tuas lágrimas

na inhaca lagunosa de tuas constelações

 

morrerei

e minha focinheira foi o vaso de tuas primaveras

confessadas no que jamais fiz

 

encontrar alaúdes na soleira do fim, não encontrei

não vi alçar da sonolência os alçapões

nem tuas favelas verdejaram cheiro e luminosidade de colina

 

tuas pálpebras de impalpável jardim comeram a luz

das anêmonas, quando ontem morrerei

 

Ode Mundana – pg. 18 (Editora Medusa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bárbara Lia é professora de História e Escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. - na Internet - Revista Zunái, Germina Literatura, Cronópios, Blocosonline, Editora Ala de Cuervo, entre outros. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance Cereja & Blues. Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Mora em Curitiba há vinte anos. Blog, www.chaparaasborboletas.blogspot.com

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