Por Bárbara Lia

Eu sempre vou ter a sensação de estar dançando frevo em cima de cacos de vidro toda vez que ler um poema, ou um livro de Luiz Felipe Leprevost. É uma dança que faz sangrar. Que captura com o ritmo, te coloca em euforia, e quando você menos espera sangra, dói. Mesmo doendo, o ritmo te conduz a continuar, a rasgar a planta do pé, pois é um instante entre o êxtase que leva ao giro empunhando a sombrinha colorida, e a dor que penetra o teu pilar, o teu pé.
Ode Mundana captura em ritmo de frevo, o livro que o poeta lançará no próximo mês, contém um único poema, e toda a veia mordaz de Luiz Felipe Leprevost.
O meu primeiro contato com este poeta há quase um ano atrás trouxe a certeza: quando um autor lê muito ele alcança níveis de produção literária acima do comum. Quando eu digo ler não é aquela leitura que segue uma única rota. Quem admira os concretistas lê os concretistas, quem admira qualquer escola literária segue por ela, ignorando todo o leque que se abre, de toda Poesia e Literatura. Na primeira conversa com Luiz Felipe eu descobri que ele é um ávido leitor e carrega esta ânsia de ir direto à fonte, ler e descobrir, descobrir e ler. E ainda assim, não sofrer influência e não tentar esta forma de escrita – a da imitação.
A linguagem vertiginosa de Luiz Felipe é única, e nos leva para dentro do furacão.
Como disse Jaques Brand na apresentação do livro Tornozelos Deitados:
– Luiz Felipe, aliás, tem residência no olho do furacão.
Na apresentação de Ode Mundana, publicação da Editora Medusa, de Ricardo Corona, Marcelo Montenegro inicia assim a apresentação:
– Eis o louco – Luiz Felipe Leprevost. Curitibano solto no Rio de Janeiro – “Gávea 200 condomínio mais 68 IPTU põe cama e está pronto para morar” – como “um pingüim perdido do bando” Eis o cara que deixou os dedos pingarem “como velas” e teve “lágrimas crescendo no lugar da barba”...
Antes de Ode Mundana os livros de bolso da Kafka – Tornozelos Deitados e Cecília roendo as unhas - já traziam a poesia em forma de enredo de peça teatral. A veia de ator saltando para as páginas, que poderá causar estranhamento apenas para aqueles que seguem os manuais e enclausuram a liberdade. Os livros de Luiz Felipe Leprevost são peças teatrais, enredos poéticos que podemos seguir como um vídeo-clipe.
No próximo Festival de Teatro de Curitiba será apresentada a peça de sua autoria – Tua passividade me embrutece – pura poesia jorrando em um diálogo de Ele e Ela, tecido por um Narrador interpretado pela estupenda atriz Claudete Pereira Jorge. “Tua passividade me embrutece” remexe os músculos da alma com um diálogo homem-mulher onde o amor é o foco, os encontros, os desencontros, mágoas, tentativas, todas as loucuras que carrega este – vírus – que nos coloca mesmo em estado terminal. O amor.
“O que fazer se simpatizamos mais com furacões do que com esperanças?”
Tua passividade me embrutece será dirigida por Sheylli Caleffi e terá no elenco – Claudete Pereira Jorge (Narrador), Sheylli Caleffi (Ela) e Adriano Buchardt (Ele):
Em Gélida icebergs flutuam nos olhos das pessoas que circulam pela Rua do Pingüins Tristonhos, chamada também de Rua XV, a principal e mais famosa rua de Gélida. É bastante fácil identificar o perfil do cidadão gelidence. Fica-nos claro que são todos eles Gelados. Porem ser assim Gelados os faz saudáveis. Ao contrário do que acontece com alguns poucos rebeldes de Gélida que sofrem preconceito por terem se infectado com uma grave doença, cuja nossos cientistas nomearam de Amor.
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Descubro ao iniciar este texto a infinidade de possibilidades e desdobramentos que os livros de Luiz Felipe trazem. Alguém que se divide entre Curitiba e Rio de Janeiro, onde cursa Artes Cênicas na Cal – Centro de Artes das Laranjeiras, e quando aqui aporta nos brinda com seus recitais e performances. Em Março vai nos brindar com o lançamento de Ode Mundana, dentro do Festival de Teatro de Curitiba, e com a peça que vai estar na programação do Festival.
Para perceber o quanto o poeta pode ser lírico e profano, melhor apresentar sua poesia, suas vertentes, sempre fortes.
Quando Luiz Felipe apresenta suas performances, e sacode a platéia com o vento forte da poesia, penso que é disto que necessita a Literatura, menos debates infrutíferos, mais sangue vivo, menos soro em corpos moribundos. A vida urge, o tempo acelera, e é preciso escrever com toda a força que nos resta, com todo o amor, mesmo que malditos, rasgar o ventre da mesmice, retirar a poesia viva e deixar que ela emita o grito recém-nascido, enchendo os pulmões de ar...
...
ainda este colchão aí no assoalho geme a
melodia em falsete
das unhas de Cecília contra a seda
de minhas costas, omoplata de pavão ferido
ai as extremidades da voracidade de Cecília
seu tesão fortalecido porque fragilizado
por minhas mãos a cada soco
ai que alucinações de semente de árvore
de vegetal quando eu chovia esperma, gordura
quente
e vela derretida na barriga de Cecília
ai como nos lapidamos com estiletes, garfos
e facas de churrasco
como dois escultores
e doemos na dança do ciúme e nos
contaminamos
com tantas doenças e suamos tantos
diamantes, tanto petróleo
e como nos bronzeou o fogo do fôlego um do
outro
este movimento de gesso molhado, este ferro
maciço
de estátua amputada
quem dera, quem dera nesta madrugada
acender na demência do corredor dos olhos
furados de Cecília
que ardiam águas fundas repletas de tubarões
e submarinos, corredores de castelo mal-
assombrado
quem dera
quem dera beber outra vez o sangue
da cumbuca açucarada
daqueles tornozelos deitados
Tornozelos Deitados – pg. 9 e 10 (Kafka Edições Baratas)
entre teus dentes sustenidos
ontem morrerei
no abandono de continuar te amando
teus brincos, bambaleantes torres
de onde a lua inebriada de sons e girândolas
despenca gota a gota
ontem morrerei na harmonia de tuas lágrimas
na inhaca lagunosa de tuas constelações
morrerei
e minha focinheira foi o vaso de tuas primaveras
confessadas no que jamais fiz
encontrar alaúdes na soleira do fim, não encontrei
não vi alçar da sonolência os alçapões
nem tuas favelas verdejaram cheiro e luminosidade de colina
tuas pálpebras de impalpável jardim comeram a luz
das anêmonas, quando ontem morrerei
Ode Mundana – pg. 18 (Editora Medusa)
Bárbara Lia é professora de História e Escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. - na Internet - Revista Zunái, Germina Literatura, Cronópios, Blocosonline, Editora Ala de Cuervo, entre outros. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance Cereja & Blues. Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Mora em Curitiba há vinte anos. Blog, www.chaparaasborboletas.blogspot.com