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3/5/2005 21:42:00
Letras liricamente áridas de João Filho



Por Crib Tanaka







                           Encarniçado

                              João Filho

                              Editora Baleia

                              (www.editorabaleia.com.br)

                              148 páginas

 

 

João Filho veio ano passado ao Rio de Janeiro, lançar seu primeiro livro: Encarniçado. O lançamento foi informal: na Dantes (sebo, na época, localizado no Leblon), alguns leitores se reuniram, ouvindo o bate-papo que reuniu em volta de uma pequena na mesinha redonda, João e os escritores-mediadores Sergio Sant’anna e Lois Lancaster.

 

Quem já leu as prosas e versos em cadência de João sabe que há uma linguagem própria, uma melodia árida construída por ele. O estilo torna-se rapidamente evidente e inconfundível. Diálogos e pensamentos arretados, narrados com sotaque, ganham cor terra através de vocábulos criados pelo autor, que, volta e meia, tem estilo comparado a Guimarães Rosa, uma de suas referências.

 

“azuretei. Se fica...gambé paga-pau; se pica...Pelanca pega. o corpo, claro, cambaio. queres o quê... depois da sova?!”

 

Se no início há um estranhamento ao deparar-se com as novas palavras, logo acostuma-se. Em poucas páginas, já não há dificuldade em decifrar as histórias velozes e fortes que o livro – dividido em 22 contos – traz.

 

“é. bem dizia minha santa’puta’mãe que sem cérebro não há dor. da vez do Coveiro’Caminhoneiro que já tinha enterrado’tantos. tinha seu dito que dizia que saudade e sujesta só aqui tem (...)”

 

Quando perguntado sobre a violência constante nas páginas de Encarniçado, João diz que “é impossível morar em Bom Jesus da Lapa e não ter visto um assassinato na vida” e emenda:  “quando trabalhava na venda do meu pai, cansei de ver açougueiro brigando com puta, correndo atrás, com facão...”

 

“quando bruscas, amparavam as buças com as mãos, esperneando, e um rubro reinava maculando as coxas, a virilha. isso quando a cadela era branca. se roxa? Quase sempre a roxa desindica ofensas. Há do mais castiço pistilo, dessas do nariz naufragar. Cristalina foi uma. Sarrei de saco imberbe e também desmamado. (...) de Cila cultivei o grelo, cogitando uma ceva-decepagem, isto é, engordar o grelo pra na hora-da-ceifa- orgulhar-se do cultivo (...)”

 

“A gente põe muito da gente no que escreve. Sempre parte de nosso ponto de vista, nossa opinião sobre alguma coisa, pro bem ou pro mal. A gente põe muito do que vê”, conclui ele.

 

Já publicado em diversos sites e revistas, atualmente, João assina uma coluna no site Patife (www.patife.art.br) e mantém o blog Hypperghettos (www.cabezamarginal.org/joaofilho).




Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail:cribtanaka@uol.com.br

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