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Sutilezas literárias de Chico Anysio
por Cláudio Portella







 
30/7/2006 18:06:00
Os amantes por Inês Pedrosa



Por Crib Tanaka

 

                            A Instrução dos Amantes

                            Inês Pedrosa

                            Planeta - 167 páginas





Na adolescência surgem sentimentos novos: o contato com o sexo oposto, os desejos, as dúvidas e inseguranças do desconhecido. Sobre as novidades e os laços gerados nesta época da vida gira o livro A Instrução dos Amantes, da portuguesa Inês Pedrosa.

 

A história inicia-se em um funeral, – a autora usa a morte em seus três livros lançados por aqui, porém sempre de forma inquietante e diferente –, onde a causa do suicídio levanta pensamentos além da questão física. É durante o momento fúnebre que Cláudia descobre-se apaixonada por Dinis. “Se Cláudia fosse uma rapariga dada aos delírios românticos próprios da sua idade, teria escolhido um outro cenário para princípio de paixão. Mas Cláudia trazia os ânimos desprevenidos, e deu-lhe para entorpecer por Dinis no funeral de Mariana”.

 

A partir desta paixão, começamos a entrar no universo de um grupo de amigos, onde disputas marcam o território geográfico e afetivo. Enquanto os meninos brigam pelos espaços externos e pela atenção das meninas, as relações de poder e submissão que a paixão desperta vêm à tona. “Nessa noite os rapazes descobriram duas coisas: que a Cravo e Canela se chamava Cláudia e que Ricardo Luz passava a ser o chefe do grupo. Aperceberam-se desta mudança de vida no breve minuto que mediou entre a saída de cena do Traficâncias, praguejando agarrado à braguilha, e a entrada fulgurante de Ricardo, com a beleza do bairro ao colo, desfeita em lágrimas”.

 

As competições e conquistas no universo feminino é quase sempre velada, vez ou outra sussurrada em segredos, confissões e armações. A traição, o orgulho, o ciúmes e a decorrente inveja que surge com as possessividades percorrem o livro, enquanto a personalidade de cada personagem é construída. “Não tenho imaginação, confessava ela, com uma inveja simpática, quando lia os poemas de Teresa. “Onde é que tu vais buscar estas coisas?” Depois ria-se: “Que grande romântica que tu me saíste!” O rosto de Teresa iluminava-se, e começava a pensar na grande tragédia amorosa que ia criar para si.”

 

O orgulho masculino e a idéia da virilidade através da força, típicos de uma fase da adolescência são explorados também: “No seu modo sereno, Isabel voltou costas, sem querer chorar. Filipe nunca gritara a uma mulher sem que ela retribuísse com lágrimas esse esforço. As lágrimas de Isabel agiam sobre ele como um certificado de habilitações. A ausência das lágrimas o havia de enlouquecer. Filipe não tardaria a confessar-se completamente dependente delas. E nunca percebeu que foi essa dependência subitamente visível, mais do que todas as pobres infâmias mil vezes repetidas, a causa das mudanças que depois vieram”.

 

Inês faz questão de que seus livros não sejam traduzidos, o que desperta curiosidade em sua escrita. Alguns termos podem a princípio “soar” estranhos, mas logo acostuma-se ao sotaque português. Recém-lançado no Brasil, A Instrução dos Amantes aparece nas prateleiras brasileiras após Fazes-me falta e Nas tuas Mãos, mas é na verdade o segundo romance da escritora, de narrativa firme e envolvente, capaz de prender a atenção com a simplicidade engenhosa de diálogos reais e quase audíveis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail: cribtanaka@uol.com.br

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