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29/11/2006 23:30:00
Uma obra poética: O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios, do poeta léo mackellene.



Por Carlos Emílio C. Lima





         Quase certo que 2006 é mais um novo ano mágico para a literatura e a cultura brasileira, como chegou a ser e a se realizar o belo e ensolarado ano de 1956, ano de Corpo de Baile e de Grande Sertão: veredas, entre tantas outras inolvidáveis obras literárias que dele brotaram. Aquele ano foi inumerável, como está sendo esse. Primeiro porque neste ano em curso todos os livros que são lançados em gráficas de fundo de quintal de todos os lugares do país podem ser finalmente divulgados, resenhados, distribuídos eletronicamente, expostos em suas florescências primiciais, em seus primeiros estalos através dos grandes e consolidados sites literários da net. Não fosse uma revista literária eletrônica e instântanea com as ramificações plurais e afluentes múltiplos de Cronópios, por exemplo, e um livro como este O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios, de léo mackellene (é assim que sem espalhafato o poeta se escreve o seu nome, com iniciais minúsculas!) não teria vez e ocorrência nacional. Mas através daqui, neste momento ele se noticia, já não valendo mais aquela célebre frase do contista Moreira Campos (frase famosa e cultivada entre os poucos  que a conhecem) de que livro publicado na província era pedra jogado no fundo do poço. Era. O poço não está mais seco, ressoam os novos livros jogados contra a tona de água dos céus, esse poço imenso e infinito. Como a já antiga imprensa brasileira não cumpre o seu papel de elucidar e divulgar as diferentes manifestações culturais, literárias e artísticas desta ainda nação, os seus grandes nomes criadores contemporâneos, geograficamente simultâneos, alocados em todos os seus rincões, "desimprensa" mais interessada em manipular, estressar e ocultar a própria realidade do país e do mundo, é por aqui, através dos rizomas da Internet que iremos recuperando todas as paisagens apenas aparentemente perdidas, e iremos desfazer o desperdício de talentos e de mentes durante os mais de quarenta anos de concentração do poder literário nas mãos de uns poucos jornalistas-escritores, editores de suplementos já não mais literários mancomunados com os supervisores das editoras hegemônicas. Não cumprindo a crítica brasileira de papel-jornal e papel couché que ainda resta a sua mais que natural função de informar sobre tudo o que de inovador, belo e criativo brota das fontes e das frontes, não importa de onde venha, editora maioral, gráfica de pomar e arvoredo, de Botucatu ou Sobral é por aqui que o leitor brasileiro irá por diante acompanhar o movimento editorial, agora já não mais condicionado a fatores obsoletos como distância, pequenas tiragens, fronteiras ou grifes editoriais. O que for bom será filtrado, se infiltrará e ressoará como deve e merece. Em todas partes, por todas as novas direções e conexões. À Internet e a sites, suplementos literários como este Cronópios deve-se este maremoto agricultor, essa convulsão fertilíssima que demoliu as arcadas carcomidas dos velhos poderes literários. O que estava artificiosamente oculto e banido veio realmente à luz, através da luz eletrônica dos computadores sem fronteiras e sem  margens.

         Este primeiro livro do poeta léo makellene de densificadas 56 (olha de novo o número mágico ressoando sua claridão!) páginas numa extrovertida e branca edição quase artesanal, olho d’água da linguagem em elevadíssimo estado de altura, renova com um grande sopro de tom, emoção, canto e idéia, a poesia brasileira. Trata-se mesmo de um milagre. Em tempos de Internet, de literatura distribuidamente eletronicamente para todos os pontos sensíveis possíveis do universo o quase opúsculo com seu tamanho informal, sua refrescante volumetria, traz o nome e o símbolo gráfico de uma editora como se desenhado por pequenas antenas  de seres voláteis que apreciam habitar insetos temporários: editora Mangues & Letras mas não traz o local de impressão. Em tempos rizomáticos, de não-lugar, de instantaneidade editorial, de distribuição literária automática essa não indicação de local de edição é poeticamente recebida com um sorriso de fábula e compreensão, um "sorriso de dentes" e adiantes... Agora todos habitamos o mesmo lugar em expansão e incontroláveis reconexões. Pelo menos, no campo da nova literatura e da nova política. Como seguindo aquele velho hábito dos cidadãos gregos e romanos, de repente todo mundo saiu da cidade e foi morar na colina em frente, ficando o déspota a governar sozinho as ruas, praças e casas agora vazias. Foi o que aconteceu com o antigo poder literário. Ao fechar-se sobre si mesmo, orquestrado por pequenos grupos, em rígidos esquemas de compadrio e por  basear-se em apenas alguns nomes, banindo todo o resto, ocasionou  essa migração. Já que os poetas e os escritores, romancistas e contistas não tinham liberdade de expressão e nem de espaço na chamada  grande  imprensa a  partir da erradicação do soneto nos anos sessenta dos suplementos  literários todos então viemos através dos blogues e dos sites, recentes jornais e revistas literárias a morar e a habitar no trânsito em transe da Internet. O esquema literário concentracionista anterior perdeu o solo debaixo dos pés. Aliás, já não havia mais solo para ele. Tudo mudara com nossa evasão coletiva. Fenômeno cultural e literário de grandes consequências e acarretamentos.

          Portanto, este livro ficaria restrito ao Ceará caso não existisse a Internet, Cronópios, Corsário, Famigerado etc. O poeta (o que sei que jamais seria o caso, mas vale apenas como exemplo) devido a pouca repercussão poderia até esmorecer, ou escrever menos, afastar-se em demasia dos laboratórios arbóreos da palavra em estado de condução de inesperado e de fluidez permanente por causa da pouca ou nenhuma repercussão. Claro, suportaria o silêncio estéril, a falta de justiça crítica, o anonimato graças aos afetos e afinidades eletivas que suas palavras fecundariam. Seus poucos leitores densos não seriam nenhum. Pronunciariam o tesouro ao ler e reler este livro mágico. Eu mesmo, esta madrugada em que escrevo estas linhas simplérrimas, já o li e reli três vezes e não me canso de querer relê-lo mais e mais, cada vez mais, palavra por palavra, em suas escalas de tom e aspersões. Fui borrifado por um um frisson noveau. Um portal abriu-se de uma só vez. Não há mais retorno.

         Poderia escolher qualquer trecho desses versos para exemplificar o que estou aqui sem nenhum temor declarando, verazes versos imantados de verbo, noite, nervuras, vastidão, íntimas enseadas, os quais só podemos comparar às produções poéticas mais autênticas  de um Walt Whiitman, um Francisco Carvalho, um Fernando Pessoa via Álvaro de Campos, um Cesário Verde, um Nietzsche. Aqui não tem brincadeira, joguinhos maneiristas literários. Aqui a espessura estrelada da vida retorna com seu trono silencioso de trovões com sede. Qualquer palavra sobre este livro de léo mackellene será diminuição, mera aproximação frente ao incomparável, ao não domável, não conformável, não-adjetivável, ao inconquistável. Com certeza este livro não é feito de tinta e de papel. Nele circula o sangue de silêncio da noite. São reintroduzidos, renovados, ditirambos com folhagens. A palavra escrita volta a ser dança com as possibilidades infinitas das muitos feixes de futuros.

         Um livro que desperta. Refocalizando, com sua exata presença, todo um panorama cultural que ainda ressoa suas dormências estéticas, suas estesias pós-modernas finiseculares, suas colagens sem abismos. Acaba o torpor engendrado pelo furacão da chamada civilização (civilização?) das imagens sem raízes, cessa a hipnose, é isolada a literatura que imita a literatura.

 

          "Professores de gramática chamarão de metáfora

           o que para nós é transmutação, antropomorfização

           inclusive do tempo."

 

          Este livro surgiu, de um certo modo, ou é o mais presente reflexo de um racha estético, literário e filosófico entre duas tendências, ou melhor entre uma tendência até agora dominante, majoritária na literatura brasileira, nitidamente mais visível nas transmutações na poesia urdida pelas novas gerações e uma inclinação, uma tangente que só há pouco começa a lançar suas sementes de fagulhas silenciosas pelo labirinto da cena contemporânea. O livro de léo é o segundo livro, menos torrencial que o de Nuno Gonçalves, é fato, e mesmo imantando por outras fontes e possibilitando outras consequências, desse crescimento poético em seu nascedouro, um dos primeiros arremessos de "uma rebelião de florestas", de um verdadeiro motim poético de parte da juventude literária atual. Ele me parece, em termos de Ceará e, principalmente, em escala brasileira, um divisor de fluidos. Há outros poetas, além de Ivaldo Ribeiro Filho (este foi o primeiro a publicar quase recentemente o seu marcante Chão Visitado) por essas praias, cidades, várzes e serras aqui nesse motim de árvores que caminham, todos eles em vias de publicarem seus primeiros livros: Ylo Barroso, Marcelo Bittencourt, Uirá dos Reis, Deynne Augusto Mardônio França, Chico Viera, Reinaldo Pimenta, Ayla Andrade, a maioria deles reunida em torno da efluente revista eletrônica Corsário, também campo de proliferação de literatura cinética Este livro de léo mackellene define, em termos de poesia brasileira, e instala, inevitável, um acontecimento que merece ser vertiginosamente analisado. 

            Se eu fosse irresponsável não diria que me parece que léo mackellene é o novo trânsito de certas micro-encarnações de Goethe. O famoso insight  botânico que notabilizou  Goethe aqui reaparece:

 

           "Todas essas espécies de árvores que existem,

             a leucina,

             a palmeira,

             a mangueira,

             a perfeita ,

             não são outras árvores

             são as mesmas

             a mesma espécie arbórea.

             É sempre a mesma árvore

             Que respira e observa

             A caminhar,

             Como um único organismo,

             Pela terra inteira."

 

A idéia é extraordinária. Sem limites . E há uma outra  passagem desse livro inesquecível que remete a ideograma goethesco que induzo o leitor a descobrir quando vier a ter acesso completo às suas paginas desse poeta mimetizador de aforismas semi-diluidos num fluxo poético renovado, reinventor. O poeta encoraja o fluxo dos novos rios:

 

             "É preciso amaldiçoar aqueles que trasformaram em

               literatura

               a  poesia.

               Traíram-na."

 

    Isso sintetiza toda uma discussão emparelhada na encruzilhada entre uma poesia que aboliu o discursivo e se retocou de cortes sem abismos e uma que se reinaugura assim, trazendo a coisa preciosíssima da emoção de volta, e, de roldão, as visões, e que também reultrapassa a intertextualidade, e que adere cola invisível entre as palavras num misto de fala, escrita, sonho, cinema. canto e poesofia:

 

          "Alta noite,

          as árvores caminham

          caminham como grandes almas

          como grandes arcas,

          repletas de seres noturnnos e fantásticos.

 

          Alta noite,

          as  árvores  se desenraizam

          e banham-se nas águas dos rios

          cantando em festa.

 

          Depositam em cada canto

          os seus grãos.

 

          Acordai alta noite

          e verai:

          à tua janela vazia

          caminhando,

          escondendo-se nas esquinas,

          clandestinas, lá se vão

          grandes árvores na escuridão.

          Não vão em bandos, como um rebanho.

          Vão sozinhas,

          Cada uma, cada uma." (...)

            

O eu poético reencontra seu sulco com seu arado de ecos. Sua metametafísica. Suas árvores tribais com suas lendas rituais. Aparições...

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances A cachoeira das eras, Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. E-mail: carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br 

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