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por Cláudio Portella







 
18/5/2005 23:26:00
Cotidiano, sintaxe e transcendência



Por Leonardo Gandolfi










É no cenário múltiplo da recente poesia brasileira que Danilo Monteiro apresenta-nos o seu Hoje outro nome tem a chuva (Azougue Editorial, 2004). Como se trata de um debut, é mais do que normal certa pluralidade nas direções. No entanto tal variedade neste livro não parece apontar necessariamente para a dispersão, mas sim para algo de concentrado.

E este é o primeiro mérito de Danilo: a precisão na forma que, por vezes, é torrencial, profusa, mas que, mesmo assim, não abre mão do controle tanto sintático como imagético da subjetividade. A maioria dos poemas é em prosa. No entanto, mais do que poemas em prosa, o que se vê são versos submetidos a uma justificação gráfica na mesma linha. Recurso que questiona e abre, sem grandes crenças, outras possibilidades para o gênero. O início do primeiro poema mostra isso (vide as barras presentes já no próprio livro): “ela dorme/ dança/ nasce. penso que tudo o mais que me acontece é o ping-pong entre testemunhá-la e compreendê-la.” Em prosa ou não, Danilo sabe que o poema é um lugar de releitura do mundo e reordenação dos fatos. É pela e na poesia que se cruzam planos que, noutros lugares, não fariam sentido. Em Hoje outro nome tem a chuva, a linguagem se reconhece enquanto realidade nem autônoma nem dependente, mas crítica e lucidamente subjetiva:

 

A palavra pessach me lembra pêssego

E da distância entre o desejo e a feira

e do caminho entre a boca e a polpa

e do abandono de tornar-se pêssego

para o deleite disto que devora as consciências

 

Daí também o poema do mangustão: “A casca dura, agora aberta pelo meio, parece uma caixinha de jóias. Mas o que guardar lá dentro, se o bem da polpa é não permanecer? Eu fico com esta caixinha de jóias na mão, sem saber o que guardar.”

         O segundo mérito de Danilo Monteiro seria, por essa operação de linguagem, fazer confluir, num movimento inseparável, certa representação do cotidiano com algo de religioso: aquilo que transcende ou, como escreve o próprio poeta, o que é “numinoso”. Na poesia brasileira, por uma herança modernista, o cotidiano e o coloquial nunca aceitaram bem a convivência com o religioso, tanto que um poeta como Jorge de Lima aproximou-se por diversas vezes do tom épico. Mas em Danilo, o transcendental e o religioso permitem o pequeno, o comezinho, o diário. Até porque o sagrado aqui não é cristão nem hindu ou budista, mas sim e somente o ritualizante. Ou seja, incorpora-se apenas o gestual religioso da linguagem.

No posfácio do livro, Bruno Zeni já nos fala de uma sagração. E tal caráter sagrado, embora Danilo evite a metalinguagem, incide freqüentemente sobre o poema e sua força de nomeação: “na convulsão do ser intuindo a chegada do numinoso, no grito esférico que alcança, fui agraciado com um novo Nome”. O que interessa ao poeta aqui são as possíveis leituras litúrgicas do cotidiano, sem deus, diabo nem crença específica. O que em seus versos quer ser transcendente é a própria sintaxe da poesia. Em outras palavras, transcendental é o caráter instaurador da linguagem, é a forma e a força com que se olha para o mundo – coisa que Danilo sabe fazer: “Será necessário uma nova linguagem para dar contas de seus prodígios.”

         Por esses e outros méritos, Hoje outro nome tem a chuva é um livro interessante. Adjetivo que não abona no entanto certa banalidade ou facilidade (que se querem líricas) com que o poeta conduz alguns momentos. Risco que, para estrear bem, parece, valeu a pena correr.




Leonardo Gandolfi publicou alguns textos na ZunáiEt Cetera e no Suplemento Rascunho. Junto com Rodrigo de Souza Leão e Franklin Alves edita o blogue http://pesa-nervos.zip.net

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