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27/1/2007 17:08:00
Moleque metido à besta, mas genial



Por Reynaldo Bessa


Comecei Marcelo Mirisola por Joana, a contragosto. Depois vieram: Bangalô, O azul do filho morto, notas de arrebentação, o herói devolvido. Enquanto lia todos esses, um título de um de seus livros não me saía da cabeça. Gosto de títulos. Saía para comprá-lo, mas acabava sempre voltando com um outro. Não o achava. Estava esgotado. Era Fátima fez os pés para mostrar na choperia. Que porra de título é esse? Do que se trata realmente esse livro? Ficava me perguntando. Imaginava, Fátima: bela e saltitante, soprando as unhas das mãos e dos pés enquanto seus olhos negros e ligeiros conferem o relógio e desarrumam o guarda-roupa, atrás do vestido, a calcinha e os sapatos certos. Uma nova choperia no bairro? Um convite de um rapaz que ela estava muito interessada?A noite da primeira foda? O que o autor havia aprontado agora? Estava curioso.

 

Fátima fez os pés para mostrar na choperia, reeditado pela editora estação liberdade, é o título do primeiro livro do iconoclasta Marcelo Mirisola. Estão ali 30 contos escritos por um moleque de apenas vinte e poucos anos. Brindemos!

Num desses dias em que eu precisava urgentemente de um bom livro, Fátima...Caiu-me às mãos. Junto com ele, recebi também a incumbência de resenhá-lo. Isso quer dizer falar sobre Marcelo Mirisola. O Inclassificável MM. Tarefa nada fácil.

 

Maria Rita Kehl, no prefácio de Fátima..., se esforçou bastante. “Há meses venho tentando entender o que foi que eu gostei tanto nele, como é que ele escreve, o que é que ele faz – de maneira a poder orgulhosamente apresentá-lo aos leitores.” Comparou-o com Dalton Trevisan, Henry Miller, Céline, mas desistiu. No meio de todos esses, - eu acrescentaria ainda umas gotas de John Fante e Bukowski. - Só sobrou Mirisola. Que bom! Pois é justamente nesse “não-sei”, que reside o grande barato desse autor descoberto a pouquíssimo tempo. É nessa loucura toda que tá a caverna do coelho, quer dizer, de MM.

 

Não há como falar dos livros de Mirisola sem falar em Mirisola e vice-versa, não há como separá-los. É como tentar tirar o bonequinho da caneta bic sem danificar os dois.

 

Há muitas estórias em Fátima... e apenas uma. Uma e muitas outras. Como uma espiral: Um ponto de partida e uma chegada sem fim ou nenhuma chegada. Onde está o ponto de partida?. Dá a impressão que podemos ler os contos de trás pra frente. Tudo rolando e nada acontecendo. Acontecendo tudo e nada rolando. Que porra é essa? Quando se está lendo um dos contos tem-se a impressão de estar lendo várias estórias e quando se termina o livro, fica a sensação de que se leu apenas uma. Miríades de sereszinhos, sofrendo, gritando, gemendo, se envaidecendo, copulando e se arrependendo dentro de uma camisinha. A camisinha, aqui, essa vidinha filha da puta, mais ou menos que a gente pensa que engana. Que pensa que empurra com a barriga.

Ilusão, marasmo, solidão, desdém, vertigem, tristeza, mas lá no fundo um lampejo de esperança, mesmo que ferida, agonizando. Ficamos cara a cara com a banalização da vida cotidiana e o culto ao mundanismo. “Condomínio Grand Royale meia calabresa, meia muzzarela. TV. Fátima Bernardes. A classe média vestida de taierzinho. Que dá tesão. Dá vontade de abrir um negócio próprio. Que dá vontade de dar dois tiros na garganta”. (Fátima fez os pés para mostrar na choperia) Não há escapatória, salvação. Quando você acha que ele agora vai dar uma respirada, vai pegar leve é quando a coisa vai ficar mais difícil. Sem chance. “Um dia depois do outro é uma indecência...é uma tripudiação. Quem disse que amanhã vai ser diferente?” (Quem disse que resisti 30 anos?)

 

Borges já havia dito: “Quando um escritor é jovem, de algum modo sente que o que vai dizer é bastante tolo, óbvio ou lugar-comum, então tenta ocultá-lo sob uma ornamentação barroca, por trás de palavras tiradas dos escritores do século 17” pronto, é só isso, MM não seguiu essa máxima, saiu do fluxo. Fez uma literatura como há muito deveria ter sido feita.Teve culhões. Um relato honesto, sem rodeios. Sem frescuras, pra não dizer, pompa. Como disse Bukowiski se referindo a John Fante: Ouro no lixo.

Fátima tem momentos geniais com coisas aparentemente heterogêneas, isso ocorre no conto (Taradinho – pág 96) “É um coitado – diziam os transeuntes que oravam em louvor a Nossa Senhora da Esquiva, protetora dos chuviscos, das transmissões com caráter experimental e do canal 37-UHF da TV Joaçaba Ltda. O Que significa isso? Uma combinação impensada? Genial? O que?. É de novo a caverna do coelho de MM.

Há também em Fátima, expressões, frases que outros escritores, me parece, costumam jogar fora por achar demasiadamente insignificantes, - Borges aqui de novo - sem sentido. Mas para o autor de Fátima...“nenhum sentido” é apenas uma coisa vista de outro ângulo. É mais ou menos como um catador de lixo que no final do dia, esculpe um belo trabalho com o que recolheu das ruas, e aí ficamos "como eu não pensei nisso antes?” E assim você vai devorando, comendo Fátima e se perguntando por quê? Necessitamos do insuportável?

 

No conto (Adeus Rua Butantã) me senti o próprio motorista da Marajó 85.

Por diversas vezes, enquanto lia Fátima..., sem querer, girei o livro pra esquerda e pra direita na intenção de jogar o carro serra de Santos abaixo. Me senti feliz por não estar casado com a mulher no banco de passageiro da Marajó. “subimos a serra de Santos cheirando merda de criança. Minha senhora (reparem no “minha Senhora” O que é isso? Deboche, cansaço? Desdém? Sarcasmo, sei lá.) recém-acendeu o cigarro de baixo teores. A fumaça corta um pouco o cheiro da merda e dá uma pontinha de tesão ao sair de fininho pelo quebra-vento.........As crianças choram. Ela acende outro cigarro. As crianças enjoam. Meu saco na “zorba”. O carro fede merda e as fraldas...onde estão as fraldas?Antes que ela fale ”esquecemos na casa da mamãe” O Diego está assado. Eu não queria este nome. A mãe disse para não se afastarem dos adultos ...Porque eu nunca havia reparado nos pés da minha senhora. Poderia ter evitado tudo....” Agora o terrível observador MM em ação.

 

Fátima é um sopro de doçura e mau-hálito, de carência e escárnio, de tensão e humor, o ácido, é claro! “O senhor quer saber com o que eu “mexo”? Com a sua filha, naturalmente. Falando sério ? (e aqui a gente acha que ele vai consertar a situação. Imaginem a cara do velho.) Quer dizer...eu vivo de pequenas fraudes e de golpezinhos inconseqüentes. Nada que possa privar Lelé da minha companhia por mais de dois meses metido na cadeia” (Quero Lelé feliz)

 

Não se engane, Fátima foi escrito por um moleque de vinte e poucos anos e metido a besta (palavras do próprio Mirisola no início de Fátima...) mas não é um livro fácil, simples ou coisa que o valha. Mirisola é mestre na arte de confundir. Algumas viagens são só de ida. Você se pergunta o tempo todo. Quem é quem aqui?. Onde é esse lugar? Isso são contos? Crônicas? Cartas? Talvez, quem sabe, até um romance? Isso aconteceu ou foi sonho?

O Autor-personagem, por todo o livro, carrega um saco cheio de brinquedinhos que ele adora presentear: muito sexo, perversão, cinismo, canalhice, sarcasmo Deboche e tarará...vai por todas as páginas distribuindo-os a putas, travestis, mulheres que não sabem mais trepar, meninos retardados, idiotas, burgueses, casamentos sem futuro, e quem mais perdeu o rumo. Mas nesses brinquedinhos há também espaços para lampejos de espanto, fragilidade, lirismo, sei lá... “Faz quanto tempo que você não dá umazinha? Caí na gargalhada para não cair da cadeira” (Relato de uma breve história de sacanagem).

 

O conto de nº 19 é a própria confusão e Mirisola consegue confundir ainda mais, pedindo logo no inicio compreensão. (é necessária a compreensão) Como compreender um novo inquilino que aluga um quarto no qual já existem vítimas do inquilino anterior? Desde que cheguei o quarto permanece fechado. Habitam vítimas do antigo inquilino... Degolei-o. Pensei na órbita dos olhos ou coisa que o valha...mais sangue, eficiência, precisão, hematomas e depois toda a vida, toda a breve existência morta no vaivém lúcido e visionário da minha rola. (Perfil do Consumidor) Por diversas vezes quis abandoná-lo, mas não consegui. Fui até o final e vi o assassino (aconteceu realmente um crime ali?) fechar a porta do quarto e rescindir o contrato. Será que T.S Elliot estava certo quando afirmou que o ser humano não tolera muita realidade? Mirisola não esconde nada. Mostra tudo doa a quem doer.

 

Como disse no inicio comecei Marcelo Mirisola por Joana...e esse livro foi escrito por um autor de quase quarenta anos, mas Fátima... é sem dúvida nenhuma um livro brilhante. Já tem muito Mirisola ali: toda sua esfuziante liberdade, nenhum medo e todos eles juntos, A tecla solta, o serial-killer dos clichês, O furacão arrancando os telhados das casas e expondo suas mazelas diárias, o grande e terrível observador. O cara que chora numa cabine de telefone. O cara que ama até a medula, mas ninguém quer acreditar, o fogo, o vazio, a desesperança e uma coisinha que sempre fica lá no fundo pra te trazer de volta, mas que eu não sei o nome, nem sei como explicar. No final ficamos com aquela sensação de vertigem e contentamento, amor e ódio,inquietação e inércia, desejo e desdém. Um cheiro de confusão no ar. Como um beijo de batom num espelho quebrado...xi!

 

Se ele não tivesse escrito mais nenhum livro já teria valido Fátima... que bom que ele escreveu outros e outros. Que escreva mais. Aos vinte e poucos anos, mesmo metido a besta, Marcelo Mirisola já era o escritor genial. Agora ele está com quarenta anos. O leitor tem idéia do que o aguarda? Relaxe e simplesmente leia-o, devore-o. Você não vai acertar na resposta. Afinal de contas estamos falando de um dos maiores escritores da atualidade. Que Marcelo Mirisola não lhe seja leve...

 

 



 

 

 

Serviço:

Fátima fez os pés para mostrar na choperia
Marcelo Mirisola
144 pp. 
Editora Estação Liberdade (www.estacaoliberdade.com.br/

Aos 40 anos, o iconoclasta Marcelo Mirisola, novo morador de Copacabana, faz um balanço de sua carreira literária ao relançar Fátima fez os pés para mostrar na choperia, seu primeiro livro, lançado pela Estação Liberdade em 1998. Em texto inédito para esta segunda edição, Mirisola declara sentir saudades “do garoto de vinte e dois, vinte e três e vinte e quatro anos que escreveu esse livro”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Reynaldo Bessa é cantor, compositor, violonista e escritor potiguar. Tem 04 Cds lançados e alguns contos publicados. É também idealizador e editor do Jornal www.otoque.com.br. (site dedicado à música independente brasileira) E-mail: contato@reynaldobessa.com.br Mais sobre Reynaldo Bessa: www.reynaldobessa.com.br

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