13/04/2007 00:10:00
Norma Sexonora
Por Fernando Guimarães
A sedimentação de uma teoria do verso, cada vez mais esquecida por quem quer escrever poesia, e uma visão biforme dela. A contraposição entre elementos masculinos e femininos de maneira imperiosa, dada pela separação dos versos agudos, graves e esdrúxulos, dos tipos de cesuras e de pés. Tudo isso em função do sexo.
O Sexo do Verso tem sua linha-mestra ali, bem clara (ao menos para mim): a musicalidade e a visão da poesia como contraste/união dos gêneros sexuais. O realce dado à dualidade masculino/feminino chama a atenção de quem lê para a dimensão real do estudo de Glauco e para a preocupação dele em normatizar à sua maneira o material poético que, apesar da dúctil, necessita de moldes complexos e coerentes com o que o artista busca expressar.
A introdução nos dá o tom do que nos espera ao longo do tratado, explicando a escolha de usar a obra do erudito Manuel Cavalcanti Proença como base de seu escrito. O vácuo de uma teoria poética atual foi preenchido, e parece-me que da melhor forma, pois o que se pode ler no site de Glauco é um diálogo com a teoria convencional lusófona e seu questionamento gerador de novos conceitos, dando fôlego também aos antigos.
Apesar de basear-se de maneira firme no tratado de Proença, Mattoso usa de sua experiência e altera ou mesmo retira elementos que supõe artificiais na concepção poética do general reformado, como a utilização de notações musicais que pudessem afastar alguém que não teve contato prévio com a música clássica. Eventuais correções à obra de Proença dão-se por meio de cotejos entre o que Glauco considera correto e o que julga convenção forçada, comparando a "naturalidade sonora" de suas análises com os gostos dos tratadistas anteriores a ele – e obviamente introduzindo suas próprias idiossincrasias.
O trabalho de pesquisa minucioso, associado às convicções pessoais de Glauco, gerou o tratado, de grande valia para quem é neófito na esfera das musas. O destaque para a questão do ritmo, assim como seu desdobramento na configuração de duas modalidades poéticas – a feminina e a masculina – têm valor central; sua mistura permite uma nova leitura do verso, um intercâmbio sensual entre o átono e o tônico, uma visão atual do que é ouvir poesia.
Passamos por um momento em que a maioria dos versos compostos é cada vez mais destituída de algo que lhes dê um lastro rítmico – mesmo que alguns trabalhem outras formas de ritmo, como a espacialidade no interior do poema, mas há uma grande parcela de incautos no que se refere a um conhecimento de norma poética –, o tratado de Glauco chega no momento certo.
A preocupação com uma poesia valorativa do soneto em suas variações e possibilidades rítmicas é bem marcada, podendo ser vista já na Advertência dentro de Centopéia e comprovada ao longo de sua lida poética retomada nesta fase, coroada pelo Sexo no Verso; a diferença é que sua teoria se volta para a questão dos gêneros dentro dos poemas.
A elaboração de um tratado de maneira tão rigorosa como essa mostra o caráter sempre inovador do que Glauco escreve. É preciso lembrar o quanto ele criou em sonetos, forma que para alguns parece anacrônica – embora não compartilhe de tal opinião; vejo-a como forma atemporal, pois não se fia necessariamente a sentimentos específicos, como a elegia, nem a um conteúdo uno e narrativo, como a epopéia. Essas formas é que soam datadas e, por isso, encontram-se em delicada situação –, mesmo que ela seja de grande versatilidade rítmica.
O caráter mnemônico de seus versos é calcado na forma do soneto e seus desdobramentos sonoros. Algo que chama a atenção no tratado é o cuidado com as possíveis maneiras de se ler um poema, e isso está bem demonstrado nos tópicos sobre os números distributivo, absoluto e relativo. A poesia de Glauco, diferentemente da majoritariamente feita hoje, é elaborada para ser declamada. A plenos pulmões. Por isso, para mim, O Sexo no Verso tem muitas importâncias: como documento, como instrumento de aprendizado e como chave para o mundo rítmico e sonoro de Mattoso – quem já o viu declamando um poema sabe do que falo.
Com mais esse escrito, Glauco Mattoso firma-se como o vate danado que já fez de tudo, e tudo bem-feito. Só falta agora esse tal de pós-maldito compor um poema-prosa, já que prosa poética já está manjada. Evoé, Glauco Mattoso!
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Serviço:
GLAUCO MATTOSO INAUGURA SÍTIO DEDICADO À TÉCNICA POÉTICA:
http://normattoso.sites.uol.com.br
O poeta Glauco Mattoso, que já elaborou uma "Teoria do soneto", acaba de criar um sítio exclusivamente voltado à arte da versificação e às normas que cercam a criação poética, desta vez abrangendo outros formatos além do soneto, tais como o haicai, a trova, a glosa decimal e a sextilha cordelística.
O sítio equivale a um exaustivo tratado de versificação, para o qual serviram de fonte diversos tratados alheios, que GM comenta e completa com aspectos até o momento desconsiderados pelos esticólogos. O principal diferencial deste novo tratado é o foco nas questões de gênero. Ao contrário das abordagens feministas, porém, GM não se preocupa apenas com o sexismo no âmbito temático, mas envereda pela dialética machista/feminista no próprio conceito das normas de versificação, donde o título "O SEXO DO VERSO: MACHISMO E FEMINISMO NA REGRA DA POESIA" que a obra levará quando publicada na forma impressa.
Para acessar a íntegra do livro, entre em:
http://normattoso.sites.uol.com.br
Paralelamente ao lançamento do sítio, GM ministra um ciclo de palestras na biblioteca temática Alceu Amoroso Lima (rua Henrique Schaumann, 777) nas quartas-feiras de abril/2007, cuja sinopse é a que se segue. Aos interessados no tema sugere-se dar divulgação do evento, pelo que o poeta agradece.
Outros endereços virtuais de Glauco Mattoso:
Para a "Teoria do soneto", acesse o tópico "O ensaísta" em:
http://glaucomattoso.sites.uol.com.br
Para uma antologia nacional de sonetistas, entre em:
http://planeta.terra.com.br/arte/PopBox/sonetario
Para conhecer a parte sonetística da obra do poeta, acesse:
http://sonetodos.sites.uol.com.br
Para uma versão em inglês da vida e obra de GM, acesse:
http://formattoso.sites.uol.com.br
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O SONETO QUE NÃO DEFORMA E SUAS MIL E UMA UTILIDADES
Neste ciclo de palestras, o poeta Glauco Mattoso fará uma exposição, didática sem ser dogmática, sobre aquele que foi e continua sendo o mais aperfeiçoado molde para um poema: o soneto. Ao contrário de outras oficinas ministradas pelo autor, estas sessões não terão caráter de laboratório de criação, e sim de retrospectiva do soneto na língua portuguesa, a fim de demonstrar sua "receita" de composição e suas múltiplas possibilidades formais e temáticas ao longo do tempo. A propósito da "receita", o poeta terá oportunidade de recapitular a
elaboração de seu mais recente trabalho: um exaustivo tratado de versificação intitulado "O sexo do verso: machismo e feminismo na regra da poesia", no qual a sexualidade extrapola a questão de fundo para revelar-se na própria forma do poema. Do público não se esperam prévios conhecimentos técnicos nem se exigirão tarefas práticas: apenas será aberto um tempo para perguntas e respostas após cada palestra.
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Fernando Guimarães é paulistano e tem uma certa afeição virginiana a normas. fernandofcg@yahoo.com.br |