Toda transmutação alquímica é uma transmutação da alma e dos sentidos – entenda-se como verdade mística e surreal. Estendendo o seu significado à literatura, pode-se dizer que a literatura é em si um processo de transmutação alquímica. Ou seja, um duelo constante de opostos na via de uma transformação do próprio ser que elabora essas mudanças e que delas participa, o homem. O homem é, pois, um reflexo e um ato da mudança. O duelo n’alma humana, por sua vez, reflete a antiga dicotomia alma-corpo na Filosofia. A transmutação, creia-se, leva à manifestação do sublime, do sobrenatural, do divino e do raro no real. Trata-se, portanto, de uma busca por aquilo que somente a alma alcança e entende, uma busca incessante, vista num duelo interno de seu próprio ser. Um duelo, pois, espiritual.
A transmutação poética ocorre pela mudança do sintático para o semântico e vice-versa, isto na conexão de palavras supostamente desconexas, porque aparentemente não carregam em si um significado explícito, mas fechado, ou melhor, interno; uma relação dinâmica – assim se diria – entre as palavras substancialmente distintas, mas construídas numa relação frasal que constrói um significado múltiplo, elaborado pela imagem e pela ausência – o silêncio do espaço entre as frases. Creio, sobretudo, que o fazer poético, mesmo não desejando tal percepção de si mesmo na sua arquitetura feita por milhões de mãos e uma só, provoca tal impressão naqueles que a contemplam com os olhos da emoção intelectiva. Digo isto porque esta resenha mais se trata de uma impressão poética, do que propriamente de uma objetividade analítica da obra do autor. O que não significa que a impressão, subjetiva por natureza, impeça-me de entender a obra por inteiro, pelo contrário, creio que ela expande seus horizontes para uma relação (obra-leitor) extralingüística. O que permite esta extensão do objeto poético para um contexto além da página, além da intenção da palavra, além do pensamento original do autor, é a presença intensa da imagem e a ausência do sentido da imagem, gerando uma sugestão poética. Isto é, o poeta em toda a sua obra sugestiona o sentido e o não-sentido. Deste conflito interno na obra poética (figura do conflito do autor) ocorre o que chamei acima de transmutação poética – a evolução do signo poético para o estado anímico, um estado dialético em que a sugestão poética força a alma do leitor a elaborar o sentido do texto e a conflitar este sentido, uma impermanência que incomoda devido à forte estranheza do poema.
Victor Paes realiza, pois, uma obra trans-mutante, isto é, substancializa o aspecto mutante da poesia, característica esta do estado transitório do poema, o que amplia o significado simbólico. O livro, então, reinventa-se, assume uma dialética interna, ou seja, um diálogo constante e intenso entre as frases criando uma teia semântica.
“respirar é chamar o vento
mastigar é mistificar a sopa
cantar é cantar o silêncio
o outro é inventar-se”
Ocorre aqui a manifestação clara de um sujeito reflexivo, que pratica o ato e o sofre (embora subjetivo), este reflexo do sujeito sobre si mesmo levando-o a conceber-se de outra forma, a ver a si mesmo como simétrico, o que será a dualidade do ego.
Duelo é o título que nomeia cada capítulo dO óbvio dos sábios, o que me intriga. Vejo um duelo de vozes teatrais – parece que as frases poéticas assumem a função de diferentes vozes dialogando num espaço cênico, que seria o branco da folha, dando a entender serem elas aspectos distintos intercalados das impressões do poeta de sua vida e mundo –, um duelo de egos e um duelo de símbolos. Especialmente esta última, a dialética dos símbolos, reforça muito a intensidade poética, criando o que chamei acima de teia semântica, uma poesia de consistência fundamentada no fragmento simbólico, ou imagético.
“1
a cada piscar do vaga-lume
um pingo de sombra
2
na grama
1
perante um relâmpago
o gato mostra, enfim,
seu rosto de canecalon
(...)
2
(riste)
um pastor tropeça
à margem de seu jardim
e diz coisas do chão:
– a flor azul não existe por causa do céu
(...)
1
Para continuar fumando em velho, colheu
ventos durante anos com cataventos, para
quando lhe faltassem. E os guardava nos
arbustos do quintal.”
A fragmentação do poema em diversos símbolos distribuídos no espaço branco da folha elabora uma poesia não-linear; além disso, a articulação entre os símbolos poéticos proporciona uma estranheza na leitura, pois não há uma intenção poética consciente na formação dos poemas, mas o que se vê é o inconsciente desvelando-se em signos diversos, relacionados apenas pelo significante (a imagem), o que me faz pensar no conceito de inspiração, mas não posso afirmar – pois haveria de ser um preconceito – que Victor Paes tenha pretendido fazê-los assim. Desta desconfiança com a suposta ausência de intenção do autor na escrita dos poemas, atenho-me a uma nova hipótese contrária à nulidade intencional poética, passando a crer que a simples presença dos símbolos numa relação frasal objetiva somente expõe a presença do corpo do poeta, ou seja, não são poemas subjetivos voltados para a percepção do olhar, mas à sensação de pele: o poema é o corpo inteiro do poeta em todas as suas nuances. Como a sensação do corpo em relação ao mundo não é uma sensação ordenada, mas desvinculada de espaço e tempo, apenas voltada para a memória, que por sua vez, mescla na sua reconstituição do sensível fantasia e realidade. Creio que o poeta apenas imprime no papel a sensação do corpo, ou melhor, o modo como o corpo compreende o mundo. O papel, portanto, lhe serve de cenário, onde o corpo atua.
Adotemos o conceito de cena, mas aqui um teatro clássico, e teremos, então, o narrador, o cenário, os personagens e a trama. A partir deste modelo, penso que nO óbvio dos sábios o narrador assume outra forma, tornando-se uma epígrafe poética que define a trama do capítulo; o cenário, já sabemos, é o papel branco; os personagens são os vários símbolos frasais que o poeta constrói, divididos em “espaços numerais”; a cena é o titulo de cada capítulo, que é espacializado e sub-tematizado – diz-se, o subtítulo centraliza a situação dos poemas.
Narrador – epígrafe poética:
“a cidade é proibida
(antena de si mesma)
a cidade é contada
pra não amanhecer invertida
no meio da cidade
um quintal de terra
e um sino enterrado nele
tem dentro só mais uma badalada”
Personagens:
“2
cumprimentos
1
boa tarde nem resposta, cócoras
2
cumprimentos
1
a tarde
de seus muitos sóis
atravessa o parque
toma um balanço
e anoitece...”
Cena:
“Duelo 2 – Na esquina
(duas manhãs coincidem)”
Re-insiro a idéia de mutabilidade do poema, aproveitando o conceito de trama e cenário: o corpo do poeta é agora o corpo do poema e sua atuação no espaço do papel é o devir poético. Assim, cada mudança de voz e símbolo e des/articulação entre eles realiza a mutação do poema para-além do espaço físico do livro, motivando uma estranheza, que caracteriza a abertura da obra para um estado polissêmico, no qual o leitor é quem decide o significado do poema. Embora eu acredite que haja um autor-personagem maior que seu poema no livro. Quero dizer que a leitura do poema – penso que o livro inteiro é um único poema – não é suficiente para captar a voz interna e espiritual de Victor Paes; é preciso esmiuçar os signos poéticos nas suas íntimas partes, buscando um som maior, uma voz uníssona ressonante, aquilo que os físicos chamam de “som de fundo”, para entender a mutação do poema como uma revelação da dualidade do poeta. Por exemplo, no capítulo “Duelo 3 – No telhado” o poeta procura desvincular-se do passado, do sentimento de ausência na ânsia do re/novo e do imediato.
“uma roça de parafusos
(o barro mais sangüíneo
de cada golpe restaurar uma enxada)
esmerilhar a faca:
cada fagulha, outra faca impossível
e o tétano espalha por aí
homens de ferro
2
reformar a casa é abri-la
pra tentar descobrir outra dentro
1
não eram os discos de seu vinil
basta lembrar:
antigamente
a vida chiava
2
quando se esquece o quintal
súbito
uma parede
1
(chegar)
arrancar a casca de madeira dos móveis
expor-lhes as sombras
que guardam
(todas as sombras são uma
dentro
ao meio-dia)”
Percebe-se, a exemplo deste trecho acima citado, a dualidade do poeta, característica do seu conflito, e, pelas frases grifadas, o pensamento central de renovar-se e esquecer. Não implica aqui se há uma verdade ou não no que afirmo quanto ao sentimento do escritor, porque sabemos ser impossível alcançar o estado do espírito do autor no momento em que escreveu sua obra, mas antes, descrever estruturalmente minha impressão acerca dela.
Por último, transcrevo a epígrafe do último capítulo, “Tempo 2”, para reafirmar minha impressão acerca da dualidade do poeta como trama de seu livro:
“O elenco sentado no cais espera vir da água o ator que subirá de seu duelo com um monstro marinho. Talvez ele traga para máscara o rosto do monstro em uma vara de marmelo. Talvez traga pedaços de sua couraça para rejuntes do cenário.
Até esse dia, o mar do teatro era um espelho do céu do teatro. O mar era tão plano, que não havia banhos nem pesca, pois não se sabia como atravessar sua superfície. Então, algumas companhias construíram cenários e representavam sobre ele.
Até que um dia um ator recebeu, em cena aberta, em um pergaminho entregue com um gesto de Kabuki, o desafio de um monstro marinho e as instruções de como descer até ele. Seria uma briga ensaiada, mas foi tão violenta, que a parir daí existiram as ondas e as tempestades”.
Seria, pois, o livro um duelo entre o autor e seu monstro, tendo como cenário a folha em branco? Sinto que o autor não pretende vencer seu monstro, porém duelar com ele por um tempo indeterminado, e no cenário desta luta “ondas e tempestades” se formarão para embelezar a cena. Um duelo entre o anseio de ser além do corpo no devaneio e o corpo que desejar ser mais corpo. É este duelo que se converte na fórmula alquímica da transmutação dos elementos, aqui transmutação poética – presença do duelo interno do ator-monstro/corpo-alma, ou seja, duelo de egos. A única maneira que o poeta encontra de encantar este duelo é desejar o devaneio, representado na frase “acordar sob uma surra de mariposas”.
Depois desta análise, ainda não consigo situar em um gênero a poesia de Victor Paes, mas também não penso ser necessário, pois já superamos esta fase do gênero; prefiro dizer que O óbvio dos sábios é um livro único e de uma qualidade literária bastante interessante e que deve ser levado a sério. Mas ainda, é óbvio, não podemos dizer qual é a importância do livro para o momento histórico da literatura contemporânea brasileira, haja vista que o autor está iniciando sua trajetória. Esperemos o que Victor Paes nos reserva. Acredito, pela qualidade do seu recente livro, que irá ainda muito nos surpreender.