O livro da amazonense, residente no Rio, Astrid Cabral, lançado sem alarde pela Thesaurus, chama-se Antologia Pessoal. Uma antologia organizada pelo próprio autor é por si um documento de reavaliação da obra. É claro que todo livro acaba por ser uma antologia. São os trabalhos que o autor selecionou. Ainda que ele pensasse numa obra de arte específica, ainda que - perdoem-me pela expressão - calculasse quais seriam os elementos ou estruturas que fariam parte da obra, visando ao fechamento de um conjunto específico, todo livro é uma antologia. No entanto, quando se trata de uma autora como Astrid Cabral, 72 anos, 60 dos quais ligados à literatura, o peso da palavra antologia é bem mais significativo. Uma antologia feita por ela é um balanço da trajetória de uma poeta pronta, detentora de uma obra consolidada. É claro que o percurso de todo artista só se completa quando sua atividade cessa e isso só se pode dizer depois de sua morte. Mas há um momento em que passa a ser tratado por seus pares como autor de uma proposta. Sua questão foi lançada, algumas tentativas de resposta foram dadas. Está em foco. Como um quadro que se observa, sua trajetória pode ser analisada. Por isso uma antologia de um autora do porte de Astrid Cabral é por si só uma antologia digna de nota.
O livro é dividido em duas seções: poesia e prosa. Na primeira encontramos poemas dos livros: Ponto de cruz (1979), Torna-viagem (1981), Visgo da terra (1986), Lição de Alice (1986), Rês desgarrada (1994), Intramuros (1998), Rasos d´água (2003), Jaula (2006) e Ante-sala (2007). Na segunda seção, dedicada à prosa, três contos do livro de estréia na Literatura, Alameda, de 1963. O livro conta também com registro iconográfico e uma introdução, onde a autora relata sua trajetória como poeta até os dias atuais.
Astrid Cabral, aos doze anos (por volta de 1948), misturava-se a um grupo de rapazes na Sociedade Amazonense de Estudos Literários. Muitos destes, mais tarde, integrariam o Clube da Madrugada, movimento que pretendia atualizar a poesia amazonense a partir do modernismo de 1922. Melhor acompanhada não poderia estar a poeta, cuja formação clássica e a criação fora do eixo Rio-São Paulo não impediu de estar em sintonia com a arte de sua época. O verdadeiro artista vai atrás dos acontecimentos. Suspeita das regras e da moda. Procura sempre o mais além e nessa procura vai construindo sua obra, sempre à frente. E é nessa vertente que ela seguiu como oficial de chancelaria para o Líbano e os Estados Unidos, em 70, através de concurso público. Na época em que prestou concurso para o Itamaraty já não morava em sua terra natal, e sim em Brasília onde lecionou na UnB e já havia publicado seu primeiro livro em prosa, Alameda, 1963. O primeiro livro de poesia só publicaria bem mais tarde, em 1979.
Astrid Cabral faz parte da geração 60, analisada no livro Sincretismo de Pedro Lyra (1995). As características desta geração, que engloba também Ivan Junqueira e Reynaldo Valinho Alvarez, entre outros, estão bem presentes na poética de Astrid. As raízes da poeta foram beber nos alagadiços de Manaus. Seus itinerários de viagem, suas experiências em família fazem-na uma lírica por excelência. Utiliza-se da palavra para expressar sua relação com o mundo e não se furta a trazer para dentro de sua poesia o dia-a-dia mais simples. É deste dia-a-dia que ela extrai o que a possa ligar com esferas metafísicas. Através deste laço ela se une ao leitor, que pode experimentar o que ela comunica. O movimento de utilizar-se do dia-a-dia para alçar questões como a morte, Deus e o nada é uma constante em sua poética. Estas características, que são frutos de uma dicção própria, são também comuns aos poetas de sua geração. Longe de ser algo que a insere numa massa, a presença destas marcas definem uma corrente poética bem clara em sua obra. A partir desta deixa, citemos versos do poema No umbigo do rio: (...) e o caudal sempre me enrolando brutal/sem que eu pudesse me desvencilhar./Pensei, em vez de flores quase eternas/vou colher agora a flor da minha morte/ no olho deste abismo, no umbigo do rio. Se a poeta Astrid um dia quase morreu afogada, não nos importa checar. Ela usa este artifício - real ou produto de sua imaginação - como boa amazonense, trazendo de sua memória momentos de rio, charcos, e afogamentos. Através deles nos leva a experimentar imensidões, mortes e encharcamentos num rito de passagem.
Alguns temas importantes em sua poética são a água, no que tem de metáfora e na presença física na cidade natal; o tempo; a identidade e Deus. No bloco água podemos mencionar o poema Navio-esquife: (...) Ao abraço de que foz/viajam as águas/ viajamos nós? (...) Eis que longe o porto/acende seu colar de luzes:/grinalda para os mortos/que no navio-esquife/ante-somos todos.
Na temática referente ao tempo, o poema Turvos estão os olhos: Turvos estão os olhos da poeira do tempo/ e do que viram entre véus de lágrimas/ou do que não viram senão entre cegos anseios,/ aves sem asa para o êxtase do espaço.(...); Reordenação do mundo: Ó traças,/ raça cúmplice da vida/ com perspicácia/ reconduzis páginas/ às folhas primárias./ A terra vos louva.
No tema Deus, citemos No colo do anjo: (...) Não sejas cega, menina./ O olhar de Deus tudo abarca./ Só os homens têm pálpebras; Identidade: Conhecer-se: (...) Mas por mais que nos olhemos,/ o eclipse sempre é total.
Alguns poemas trazem algo de prosa. Não como uma imprecisão, mas como a autêntica marca da autora que passeia entre as duas formas. É o caso de Fim da guerra. A presença dos poemas com esta característica é justificada pela existência da seção de prosa, na qual se destaca o conto Laranja de sobremesa. Conto contemporâneo, a despeito dos 45 anos que o separam de nós.
Os poemas de Antologia pessoal são, antes de tudo, relatos de uma vivente. Como as pinturas rupestres, Astrid vai deixando rastros de sua passagem por esta terra. Leia quem puder.
Além desta antologia, Astrid Cabral está em outra, editada pela Galo Branco, a ser lançada também sem muito alarde. Quem gosta de boa poesia, deve ficar atento.

Antologia pessoal
Autora: Astrid Cabral
Editora: Thesaurus, 152 páginas
(consulte usando a ferramenta de busca de livros
da parceria Martins Fontes - Cronópios)
Elaine Pauvolid é poeta, autora de Leão lírico, 2008, e ganhadora do prêmio Biguá, 2006, concedido pela SADE - Sociedade Argentina de Escritores, na Argentina. E-mail: epauvolid@gmail.com