Rita no Pomar (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008), de Rinaldo de Fernandes, é, com certeza, uma das grandes alegrias recentes da literatura brasileira. Livro sedutor, é conduzido com grande habilidade pela narradora – e, é claro, pelo autor –, num clima de história simples, possuído de uma leveza que nem sempre se encontra em obras deste porte. E, mesmo assim, sofisticado. Sofisticadíssimo. Realiza aquilo que chamo sempre de simplicidade com sofisticação: ou seja, o narrador conta como se estivesse num fim de tarde tranqüilo, entre amigos, enquanto o autor recorre a estratégias renovadoras e reveladores, a desafiar críticos e estudiosos.
A técnica do fluxo da consciência, por exemplo, exige uma atenção especial e um cuidado redobrado. Até porque é, quase sempre, confundido com o monólogo interior – coisas inteiramente diferentes. O fluxo foi a última grande criação de Joyce, e diferente, plenamente, do monólogo em Ulisses, por exemplo. Rinaldo de Fernandes sabe disso e criou o texto através da ambigüidade André e Pedro, que são a própria ambigüidade de Rita, tão complexa em seu labirinto interior, repleto de silêncios, lapsos, onomatopéias, aliterações, cortes e vazios. O monólogo interior é o primeiro momento em que o autor solta o personagem e o deixa livre para narrar, daí o espírito de liberdade, que promove o movimento fragmentário do texto.
O fluxo da consciência, sobretudo em Rita no Pomar, vai ainda mais adiante com o cruzamento entre diários, contos, reflexões. Isso é importante: não é apenas fragmentar a narrativa, o que vem sendo feito por muita gente, mas estabelecer um clima daquilo que se chama barulho interior, sobretudo com rimas, aliterações e onomatopéias. Não basta apenas fragmentar, isso é próprio do monólogo. É preciso ir adiante, muito adiante, estabelecer esse conflito narrativo que empresta uma musicalidade à narrativa, produzida pelo espírito inquieto da personagem.
Além disso, toda a história realiza-se em poucas páginas, algo para ser lido na paixão de uma manhã ensolarada, talvez um pouco de tarde. Esta é a alegria do grande narrador. Daqueles que compreendem a necessidade do denso e do forte, feito quem lê, por exemplo, Morte em Veneza, de Mann, ou Sylvia, de Gerard de Nerval. Densidade posta nos nervos e leitura com a respiração presa na garganta.
Belo livro. Sem dúvida: belo livro.

Rita no Pomar
Autor: Rinaldo de Fernandes
Editora: 7Letras, 104 páginas
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da parceria Martins Fontes - Cronópios)
Raimundo Carrero é escritor pernambucano. Já obteve o Prêmio Jabuti e é autor, entre outros, do romance O amor não tem bons sentimentos (São Paulo: Iluminuras, 2007). E-mail: rcarrero@bol.com.br