Café Literário Cronópios





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por Lucius de Mello




 

Escarnho: a inabalável harmonia do diverso
por Victor Oliveira Mateus




As alegres paixões tristes de Lupicínio Rodrigues
por Tiago Barros




Kafka e a marca do corvo
por Ovídio Poli Junior




Livros bons são assim
por Silas Corrêa Leite




Os ensaios radioativos de Márcio-André
por Carlos Felipe Moisés




A cidade implacável
por Márcia Denser




O poeta a domicílio
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Trinca dos traídos agora na tela da TV
por Jorge Sanglard




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por Jorge Sanglard




Leite derramado
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Anotações acerca de uma grande obra
por Cláudio Portella




A viagem ao oeste
por Denny Yang




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por José de Arimatéia Nogueira Alves




Dublin: dos deuses ancestrais à aurora da era moderna
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João Cabral: a poesia reta sobre pedras tortas
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Rita no pomar, um belo livro
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por Benilton Cruz




Astrid Cabral, uma obra completa
por Elaine Pauvolid




Sutilezas literárias de Chico Anysio
por Cláudio Portella







 
28/7/2005 21:41:00
O inédito de Clarice



Por Crib Tanaka



Some à curiosidade do ineditismo o nome de uma das grandes representantes da literatura brasileira e pronto: a atenção é imediata. Lançado na FLIP, Outros Escritos oferece momentos leves de deleite, principalmente para os que admiram a escrita de Clarice Lispector. Sob organização de Teresa Montero e Lícia Manzo, o livro traz textos divididos por fases da vida autora, todos devidamente precedidos de breves linhas, como um guia objetivo, contextualizando o leitor.

 

Em Clarice escritora iniciante – capítulo de abertura –, contos resgatados de jornais e revistas antigas mostram uma autora jovem, já apontando a subjetividade instigante, porém sem o refinamento perturbador que apresentaria depois, característico de sua escrita. Também já aparecem os questionamentos e tons confessionais das personagens femininas que percorrem sua obra, como em O Triunfo, primeiro texto seu a ser publicado: “Luíza acha-se sentada na cama, com um estremecimento por todo o corpo. Olha com os olhos, com a cabeça, com todos os nervos, a outra cama do aposento. Está vazia.” Em Trecho, prevalece a introspecção – marcante em seus romances e contos – que salta de um olhar inusitado para o interior da personagem: “(...) qual a atitude mental das moscas em relação a nós? E em relação à xícara de chá, aquele grande lado adocicado e morno? Na verdade, aqueles problemas não eram indignos de atenção. Nós é que ainda não somos dignos deles.” Neste conto, o cotidiano é levado a outras dimensões, onde situações e cenas corriqueiras ganham a desproporção do pensamento fugidio ao nosso controle, à razão linear.

 

O lirismo acompanha a escritora em seu ofício de repórter e redatora. Clarice Jornalista traz duas reportagens, onde descrições informais e sensíveis acompanham as notícias. Em “Uma visita à casa dos expostos”, ela discorre sobre um convento que abriga crianças abandonadas. O texto começa com a descrição do ambiente e passeia por diálogos com crianças e freiras, além de impressões do local: “Passamos o dia brincando no terraço. Agora mesmo uma vitrola toca “Lourinha, será a rainha deste carnaval” e os bichinhos minúsculos sambas... Não há dúvidas que, apesar de tudo, as Filhas de Caridade conseguiram ser mães.” As preocupações com o lugar da mulher na sociedade – também firmadas em seus romances – surgem em textos acadêmicos, elaborados quando ainda cursava Direito. Os conflitos de sentimentos e os olhares da sociedade aparecem em A pecadora queimada e os anjos harmoniosos – seu único texto teatral.

 

Conversas C/P. leva o leitor a tomar um chá com Clarice-mãe em sua sala, ao lado dos filhos, Pedro e Paulo. É fácil reconhecer nos diálogos pueris –  retratados como caderno de memória do convívio entre eles – o tom clariciano: o olhar sobre os filhos, a atenção para algumas frases, os lúdicos e sinceros devaneios. Ali estão anotados pensamentos próximos da realidade em suspenso presente nas obras da autora, conversas que facilmente podem ter inspirado contos, passagens: “(..) ele me disse, ao ouvir num disco uma mulher cantando, e disse com certo deslumbramento da descoberta: - Mamãe! A voz é feita de nada! Em outra, ocasião, ouvindo um disco sem nenhuma voz, no qual o violoncelo era o instrumento principal, ele me disse: - Gosto dessa música. Parece a voz da terra.”

 

Ainda fazem parte de Outros escritos, publicações como colunista feminina, tradutora e ensaísta, –  funções que permearam o ofício de escritora –, assim como três textos preparados para o Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, onde foi conferencista, incluindo o sempre comentado conto “O ovo e a galinha”.

 

Fecha o livro um depoimento de Clarice, gravado na sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, onde Affonso Romano Sant’anna, Marina Colasanti e João Salgueiro entrevistam a escritora. Entre declarações sobre a extrema ligação com seus filhos, o casamento e os jantares diplomáticos que tanto a enfastiavam, e os livros que escreveu em meio ao ambiente familiar, confessa ler pouco e exclama que “escrever é um fardo!”.  A sinceridade e a despreocupação com julgamentos são reafirmadas nesse bate-papo, revelando um lado íntimo, confessional. A sensação de incompreensão permanece, salta. Basta um mergulho para que tudo clareie. Outros escritos é um bom trampolim.








        Outros escritos

        Organização: Teresa Montero e Lícia Manzo

        Editora Rocco

        176 páginas

        R$ 30

 

 

 

 

 

 

 

 









Portraits de Clarice

 

 

Aprendendo a viver- imagens, lançado junto a Outros Escritos, traz fotos de Clarice, compiladas no acervo da família. As imagens são mais um mergulho nesse universo até então restrito da autora. Ao lado de cada foto, trechos de textos seus. O livro percorre desde sua infância até a década de 70. Portraits dividem espaço com Clarice esquiando ou em cenas simples como ela deitada na grama, fumando.








 

 

 

 

 

 

 








A curiosidade fica por conta da proximidade com o rosto com o qual muitos leitores não conviveram (Clarice faleceu em 77) e que pelo seu exotismo foi retratado por muitos, como o pintor Giorgio de Chirico.

 

 

Aprendendo a viver – imagens

Organização: Teresa Montero e Lúcio Ferreira

128 páginas

Editora Rocco

R$ 38,50

 

 

 

Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail: cribtanaka@uol.com.br

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