Café Literário Cronópios











Publique-se - Novos autores lançam mão de Internet para mostrar sua produção
por Crib Tanaka





 

Diógenes Moura, luzes da imanência
por Flávio Viegas Amoreira




No verso do reverso: as imagens da Fera Bifronte
por Susanna Busato




Escarnho: a inabalável harmonia do diverso
por Victor Oliveira Mateus




As alegres paixões tristes de Lupicínio Rodrigues
por Tiago Barros




Kafka e a marca do corvo
por Ovídio Poli Junior




Livros bons são assim
por Silas Corrêa Leite




Os ensaios radioativos de Márcio-André
por Carlos Felipe Moisés




A cidade implacável
por Márcia Denser




O poeta a domicílio
por Felipe Fortuna




Trinca dos traídos agora na tela da TV
por Jorge Sanglard




Jacob Pinheiro Goldberg - A poesia como fonte de vida
por Jorge Sanglard




Leite derramado
por Fernando Marques







 
4/5/2009 21:24:00
Leite derramado



Por Fernando Marques



A imensa, desmesurada atenção dirigida ao trabalho de alguns poucos artistas, no país, necessariamente limita, mutila a atenção que se poderia conceder a autores menos conhecidos, mas de conteúdo igualmente bom. Já se fez essa constatação episodicamente no que diz respeito à arquitetura, área onde grandes criadores, mesmo sem o querer, emparedaram gerações de colegas. Formula-se aqui, sem maior ênfase, algo no que muitos pensam, mas ninguém, ao que a gente saiba, tem a desfaçatez de sustentar: a oportunidade de uma reforma agrária, ampla, generosa e eficiente, nos latifúndios da cultura, no mercado dos livros, discos, peças, filmes. 

Tanta atenção dispensada a meia dúzia de personagens revela falta de imaginação e é, afinal de contas, cansativa e pobre. Os medalhões têm somente parte da culpa; a responsabilidade é coletiva, é nossa. Dito isso, admitamos que ignorar os lançamentos assinados por aqueles mestres tampouco seria razoável. A essa altura, deparamos com o quarto romance de Chico Buarque, de nome Leite derramado. Vamos ao livro.    

De saída, uma consideração genérica. Podemos supor que os relatos, em termos amplos, dividam-se em duas categorias elementares, conforme seus traços mais salientes: haveria, assim, romance de realidade e romance de imaginação. O hábil Leite derramado pertence à espécie dos livros de fantasia – embora fantasia vincada pelos fatos mais crus; integra o time dos romances onde a imaginação predomina. 

As narrativas do primeiro tipo preocupam-se em documentar minuciosamente os costumes, os episódios políticos, a vida amorosa; essa fidelidade aos fatos corresponde, é claro, a certas convenções de verossimilhança aceitas pela maioria dos leitores e críticos. Já o romance de imaginação parte de dados objetivos para se desenvolver no terreno da fantasia, e é do contraste entre a lógica de sonho e o senso do real (tacitamente partilhado por autor e leitores) que os relatos dessa espécie extraem sua graça – e eventualmente seu poder de iluminar, pela metáfora, a vida dita real.

No livro de Chico Buarque, opera a lógica noturna, lúdica, pela qual seres e coisas diferentes aproximam-se por qualidades comuns; as partes substituem o todo; o tempo é flexível, misturando estações, e o espaço deixa de ter peso material. Esses traços, que são os da elaboração onírica, mobilizam-se para atender aos caprichos, vontades, temores do narrador-protagonista Eulálio d’Assumpção, homem velho, centenário, que vive num leito de hospital e, à sua maneira meio tonta, simboliza a experiência histórica do país.

Eulálio, um dos elos na cadeia de gerações de uma família rica e tradicional, hoje arruinada, matraqueia como se falar fosse o remédio para se manter vivo. Ele nos conta de seus desejos – ter registradas as próprias aventuras, casar-se com a enfermeira ao sair do hospital –, mas sobretudo nos recorda os lances de sua vida, avançando sobre a dos ascendentes (que remontam ao século 19 ou a muito antes) e descendentes (que chegam a nossos dias). Lembrança constante é a de sua mulher, a adolescente Matilde, paixão em boa parte frustrada.   

Ele se dirige à enfermeira, à filha, ao médico ou, ainda, pensa em voz alta supondo interlocutores. Fortuitamente, além de tagarelar com essas companhias reais ou imaginárias, o dono das memórias dirige-se a “vocês” (nós, leitores?), membros de uma platéia indeterminada, a qual por momentos é a dos companheiros de enfermaria, que sequer o escutam.  

Se o esquema formal do livro, determinado por seu argumento, é aproximadamente esse, deve-se ressaltar, por outro lado, o fato de o arranjo estar a serviço de material fictício calcado na realidade. A matéria narrada provém das relações entre poderosos e pobres, patrões e empregados, brancos e negros, sem prejuízo de as memórias do velho Eulálio subverterem as leis do real e mesmo as do verossímil, todo o tempo.    

O protagonista se vê abandonado e tenta articular pensamentos para assegurar alguma sobrevida ou, quem sabe, a possibilidade de permanecer, de durar para além da morte (o que lhe seria permitido pelo desejado registro das memórias). A exposição fragmentária dessa existência leva a repassar constantes da vida brasileira em várias fases: a Primeira República, a Belle Époque, os anos 1940 com o Estado Novo, o período autoritário a partir de 1964, além da crônica de costumes, poeticamente enlaçada às vivências de Eulálio.

O autor desta vez não parte de protagonistas populares, como fez nas suas peças teatrais, especialmente Calabar (com Ruy Guerra), Gota d’água (com Paulo Pontes) e Ópera do malandro, escritas de 1973 a 1978. Em Leite derramado, um homem proveniente das elites – ainda que seja, entre elas, pouco mais que figurante – e seus familiares fornecem o fio para o passeio pela história nacional, marcada por prepotência e mesquinhez. Diga-se que, se Eulálio foi sujeito abastado, habitante de casarões, sofre hoje todas as mazelas da pobreza. Os eventos aparecem com certo humor, elemento importante, embora não onipresente.

Em verdade, os protagonistas dos dois primeiros romances de Buarque, Estorvo, de 1991, e Benjamim, de 1995, vinham da classe média. Já no livro de 2003, Budapeste, a questão social não é a que mais importa, substituída pela reflexão leve, lúdica, acerca dos poderes e ciladas da linguagem, tema ligado a uma história de amor.

Tanto no bonito mas superestimado Budapeste quanto no romance recente, vale reparar no artesanato de enredo e de estilo, capaz de imprimir unidade e maleabilidade aos dois livros. Budapeste, nos seus jogos conceituais e verbais quase gratuitos, corre o risco de parecer frívolo (embora não se limite a isso). Já em Leite derramado, o humor, equilibrando-se entre leveza e densidade, torna fluente a leitura sem que as situações narradas cheguem a perder virulência.        

O livro de Chico Buarque merece, é claro, a larga atenção que tem recebido – não por ser do Chico, mas por ser bem escrito, a exemplo de outros livros que talvez a gente não leia. Voltando ao mote do início, não se trata de pretender restringir nada: a questão é de ampliar o repertório. Vamos deixar de jogar só no certo. Vamos democratizar esse negócio.

 

 

 

 

[Artigo originalmente publicado no suplemento Pensar, do Correio Braziliense]

 

 

 

 

 

Fernando Marques é jornalista, escritor e compositor, doutor em literatura brasileira pela Universidade de Brasília. Publicou Retratos de mulher (poesia; Varanda, 2001), (teatro; Perspectiva, 2003) e o livro-disco Últimos - comédia musical em dois atos (Perspectiva, 2008). Autor da comédia A quatro (encenada em Brasília, em 2008). E-mail: fmarquesfreitas@terra.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Fernando Marques no Cronópios.