9/7/2009 17:38:00 Trinca dos traídos agora na tela da TV
Por Jorge Sanglard
Iacyr Anderson Freitas (divulgação)
O programa "Imagem da Palavra", da Rede Minas de Televisão (canal 12 da TV aberta, em Juiz de Fora), apresenta, no próximo domingo, 12 de julho, às 17h30, um especial sobre o premiado livro de contos "Trinca dos traídos", do escritor Iacyr Anderson Freitas. Estão programadas reapresentações na terça-feira, 14 de julho, às 13h30, e no sábado, 18 de julho, às 21h30. O premiado autor mineiro já publicou 17 volumes de poesia e três de ensaio literário, e recebeu a Menção Especial na 46ª edição do Prêmio Literário Casa de las Américas, em 2005, em Cuba, pelo seu primeiro livro de contos, Trinca dos traídos, lançado, em regime de co-edição, pela Nankin Editorial e Funalfa Edições. Dividido em três partes – ou três naipes: copas, ouros e espadas – o livro inclui 24 pequenas narrativas, todas elas marcadas pela temática da traição, em seus diversos níveis, e pela preocupação do escritor em compor relatos estruturados. Trinca dos traídos foi incluído na seleta lista de obras literárias de leitura obrigatória para os vestibulandos da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, em 2006 e, de acordo com o programa divulgado pela FGV-EDESP, o livro de Iacyr assume a condição de representante da contemporaneidade literária no Brasil, dentro do rol então elaborado pela instituição: “Buscando na contemporaneidade uma obra que a representasse, elegemos Trinca dos traídospelas peculiaridades estéticas que apresenta e, conseqüentemente, por sua originalidade literária. Nessa época pós-moderna em que os gêneros tangenciam-se nos limites até mesmo do improvável, esse livro consegue produzir efeitos de sentido graças a procedimentos narrativos inovadores sem que se mostre uma intenção de ser revolucionário. O autor, que antes de ser narrador é poeta e ensaísta, opta por pequenas tomadas narrativas com essenciais lampejos da existência”. Já na orelha do livro, o escritor Luiz Ruffato dá a pista para desvendar Trinca dos traídos: “é uma surpresa defrontarmo-nos com o ficcionista Iacyr Anderson Freitas, que se mostra por inteiro nesse volume de contos. Consciente do imenso abismo que separa os gêneros, o autor assume como prosador uma faceta nova, como se outra mão se nos apresentasse para guiar, outra voz se elevasse a clamar contra o absurdo da vida. O poeta não abandona o ficcionista, mas deixa-o livre para erigir universos próprios, onde a condição humana, matéria-prima de todas as suas preocupações, seja mais uma vez interpelada, agora sob outras formas. É curioso que, num momento em que apela, uma certa linhagem de prosadores, para a linguagem neonaturalista, quase jornalística, ou até mesmo mimética, pseudo-realista, Iacyr venha se apresentar vestido numa roupagem clássica, em tudo estranha e em tudo próxima. Uma escolha na qual se percebe sua urgência em transcender o instante e buscar o que realmente interessa, a essência da arte literária”. Como bem registrou o crítico André Seffrin, no antológico jornal O Pasquim: “Poeta consagrado, Iacyr Anderson Freitas publica seu primeiro livro de contos: Trinca dos traídos. Como Lúcio Cardoso, Iacyr é o ficcionista do estranhamento humano, das atmosferas opressivas e enigmáticas, das confissões veladas, dos mistérios que rondam a condição humana”. Numa outra vertente, o também crítico Wilson Martins, no caderno “Prosa & Verso” de O Globo, destacou que “o realismo de Iacyr Anderson Freitas não rejeita as regiões turvas da realidade” e apontou o autor mineiro como um expoente da linhagem que tem em José J. Veiga o pioneiro e o mestre. E o escritor Ronaldo Cagiano assegurou: “Domador de palavras, nesses contos de alta tessitura, Iacyr consolida com tranqüilidade sua posição entre os grandes nomes da literatura contemporânea”. A comissão julgadora do Prêmio Casa de las Américas, integrada pelo ensaísta Raul Antelo, pelo cineasta Eduardo Coutinho e pelo escritor Tabajara Ruas, ao elaborar o parecer final da premiação, teceu as seguintes considerações a respeito do livro Trinca dos traídos: “Se trata de 24 cuentos reunidos en tres naipes, 8 de copas, 8 de oros y 8 de espadas, que buscan un más allá de la norma, en evidente refutación de la ilusión referencial. Es una colección de cuentos de la más alta calidad, cuyo eje común es la temática de la traición, tratada de perspectivas diferentes, todas marcadas por fuerte tenor de originalidad. La elaboración del lenguaje y la experimentación en las técnicas narrativas revelan un autor celoso de su tarea literaria, vinculado a la más sólida tradición de la cuentística brasileña, cuyo marco referencial es Machado de Assis, frecuentemente aludido en la obra de manera intertextual. Trinca dos traídos es un libro denso, bello y cuidadosamente construido, de un autor relativamente novel pero cuya obra se viene proyectando con vigor.” Sobre Trinca dos traídos, o escritor Júlio Polidoro escreveu: “Sem permitir qualquer concessão ao lugar-comum, às soluções fáceis, Iacyr mergulha no mar de si, calcado em sólida formação intelectual e, do oceano da sua experiência, ele recolhe pérolas de grande beleza e originalidade”. Ainda segundo Polidoro, “nessa ‘trinca’, as orações são atalhos para vias mais amplas. Múltiplos caminhos que se alastram pelos sítios interiores. Da memória e do imaginário. Caminhos que remetem a todos e a lugar algum. Caminhos de desencanto e de dor ante o inevitável. Mas há uma esperança, amarga embora, e uma ternura. Que persistem muito além, no limiar de outras histórias”. O escritor e professor de literatura, Jorge Pieiro, ressaltou que, de Iacyr Anderson Freitas, digamos que se ele não traiu a poesia, tentou mostrar que sabe escrever também em prosa. Deu-nos uma prova. Mas também soube trair, soube blefar. A nós, leitores, cabe escolher a sorte nessas cartas e descobrir, com ele, ou tentar, contra ele, o blefe, já que cartas não blefam por si. O pesquisador e professor Nonato Gurgel afirmou que “uma polifonia e visibilidade engendram este ‘tratado de traições’. Os sons e as imagens do broto renascido, do escritor que escava, do homem sondado pelo verbo da rua, do velho que dialoga com a dor ou da professora que trama traduzem os ritmos e as cenas de múltiplos espaços onde a subjetividade se constrói: um casario antigo, o sinal no asfalto, o quarto da casa em reforma. Nesses espaços alguns narram a partir de um centro fixo. Outros são narradores visivelmente em trânsito ou vozes narrantes procurando: haja gerúndio para tanto hoje. Existem aqueles que sequer se anunciam, de renascidos que são, e por isso podem ‘tanger delicadamente a fala’. Esses, os narradores de Trinca dos Traídos e sua visibilidade acesa para a escritura dos fatos”. Uma das mais expressivas vozes poéticas brasileiras do final do século 20 e do início do século 21, Iacyr Anderson Freitas comemora, em 2009, o 27º aniversário de publicação da sua obra de estréia, Verso e palavra, vinda a lume em 1982. Portanto, são quase três décadas de intensa criação poética e a reunião de sua poesia em três volumes é outro momento de celebração literária. O autor lançou os dois volumes que completam sua obra poética reunida e comemorou a concretização de um projeto tão sonhado. Intitulados Quaradouro (Nankin/Funalfa, 224 p.) e Primeiras Letras (Nankin/Funalfa, 216 p.), estes dois livros são frutos de um longo trabalho de revisão. Também editados com o apoio da Lei Municipal Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, esses dois volumes dão seqüência ao premiado A soleira e o século, publicado em 2002 e considerado o primeiro estágio do conjunto tripartite destinado a englobar toda a poesia do autor do premiado livro de contos Trinca dos traídos. Detentor de diversas premiações literárias de âmbito nacional, tendo obtido, inclusive, e por duas vezes, o primeiro lugar em poesia no Concurso Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”, em 1990 e em 1993, Iacyr conquistou também, com “A soleira e o século” – então considerada a melhor obra poética publicada em língua portuguesa –, o primeiro lugar no “Premio Internazionale Il Convivio”, em 2003, promovido pela Accademia Internazionale Il Convivio, sediada na Itália. Sua obra já foi traduzida para diversas línguas, tendo sido divulgada em países como Colômbia, Espanha, Malta, Argentina, Estados Unidos, França, Chile, Itália e Portugal. Iacyr faz questão de revelar o grande embate do escritor: “Nós vivemos o inexprimível nas palavras. Nós vivemos aquilo que não conseguimos exprimir, mas temos que traduzir isso em palavras”. E assegura: “Qualquer escritor desconfia da linguagem, por achar que a linguagem é menor do que a realidade ou até que a linguagem é uma forma de reduzir a realidade. Essa relação é ambivalente, afinal, o escritor tem uma paixão pela base acústica da linguagem e por certas articulações de fala, mas conhece bem as limitações das articulações e os seus limites”.
Trinca dos traídos é tema do programa Imagem da Palavra Rede Minas - Canal 12 da TV aberta, em Juiz de Fora Domingo, 12 de julho, às 17h30 Reapresentações na terça-feira, 14 de julho, às 13h30, e no sábado, 18 de julho, às 21h30.
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil. E-mail: jorgesanglard@yahoo.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Jorge Sanglard no Cronópios.