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14/8/2009 14:34:00
O poeta a domicílio



Por Felipe Fortuna



      Como para o caramujo, que vai deixando um rastro viscoso por onde passa, a casa de Armando Freitas Filho pesa. Casa que o protege e o vicia; casa que o enclausura, mas, por força das circunstâncias, também o faz mover-se  – e se desloca no tempo e no espaço. É assim, contraditória e aconchegante, temível e habitável, a casa que o poeta constrói não apenas no poema “Quintal”, mas também na sua mais recente coletânea, Lar, (Companhia das Letras, 133p., R$34), com poemas marcadamente autobiográficos. No entanto, não há novidade quanto ao que se passa dentro de casa, pois muitas vezes o invólucro é aparente ou o exterior invade, nem que seja pela linha telefônica.
     
Em outros momentos o poeta já falou de si e dos seus: sobre o pai, pode-se ler, justamente, “Pai” (“Me arranco do seu espelho / gago até a medula”), do livro Cabeça de Homem (1991). A figura paterna ressurge em alguns versos e poemas de Lar, – e, assustador, no poema “No Espelho”:

Por baixo da carne, meu pai
        
me invade. (...) 
         
No rosto, meu olhar encara
        
a transfusão do invasor.

      Assim, existe no autobiografismo de Lar, a repetição de temas e assuntos de livros anteriores: a referência à gagueira, a recordação da mãe e do pai, os numerosos poemas para Ana Cristina César, a percepção da morte – nunca esquecendo que é de Armando Freitas Filho a seguinte evidência, “A vida vem com a morte implícita”, verso inicial de “Deposição”, do livro Fio Terra (2000). 
      Notável mesmo, em Lar,, não é tanto a reordenação do seu repertório, a título de autobiografia, mas sim a revelação de que, formalmente, este é um dos livros menos ousados do poeta. Agora já se está longe da experimentação existente no período que tem início com De Corpo Presente (1975) e segue até 3x4 (1985), que abarca a fase luminar de Armando Freitas Filho. Em Lar,, muitas vezes os recursos eficientes inseridos naqueles livros são reutilizados à exaustão, como nos versos “no país de passes e impasses perfeitos”, “espremidos no instante da estante”, “a cifra de sua esgrima e enigma”, “o upgrade e o dégradé”, “o pensamento / se ergue, sibilando, silabando”. Nada disso alcança o efeito possivelmente tentado de surpresa, que se ajusta inteiriça ao discurso, como ensinara Carlos Drummond de Andrade em, por exemplo, “A Flor e a Náusea”: “Melancolias, mercadorias espreitam-me.O que resolutamente se mostra no livro mais recente do poeta é o desajuste entre o discurso da autobiografia e sua expressão em versos. Aqui – e ao contrário do que preconizara Jean-Paul Maulpoix, citado por Vagner Camilo no prefácio ao livro –, a autobiografia não é nem elíptica, nem feita apenas de aparições e circunstâncias, nem, muito menos, de epifanias. O que os poemas de Lar, comportam, muitas vezes, é o processo cumulativo de anotações e de registros rápidos, aparentemente sem qualquer outro tratamento. Considere-se, por exemplo, o longo e prosaico trecho de um dos poemas da “Primeira Série”:

A verdade não estaria no óbvio empate
        
mas na vitória da surpresa genuína
        
quebrando a aparente harmonia das metas
        
da combinação simétrica dos reflexos
        
do medir de forças acabando
        
na morte para valer de um ou outro time
        
com que jogo: alter, alternado, neutro?

      Marcadamente descritivos e com a mesma difícil realização aparecem, por exemplo, os poemas “Subir a serra depois de fechar a casa, “Sangue” e a última estrofe de “Pelo Retrovisor”.
      Simultânea ao embate do poeta com a vida e com os seus obstáculos se insere a longa purgação – igualmente encontrável em outros livros – da influência de Carlos Drummond de Andrade na sua poesia, a maior de um grupo de poetas maiores. Recorde-se que uma das partes constitutivas de Boitempo (1968), a autobiografia em versos do poeta mineiro, está intitulada, justamente, “Morar”, e se abre com o poema “Casa”. É nesse incômodo domicílio que se comunica, mais do que a influência, a interferência do poeta de Menino Antigo (1973), como se estivesse a todo momento preparada para dar um bote. Carlos Drummond de Andrade é a força latente de muitos dos poemas de Lar,, como sugere “Bandeira em 33 Rotações”: ao descrever a voz de Manuel Bandeira no lado A de um disco de vinil, o poeta sabe que sua fruição profunda acontece “enquanto no lado B, CDA, mudo / aguarda a vez com sua voz súbita.” Esse lado B é todo aparente em Lar,, e cria enorme tensão. Pode estar na forma de um soneto, composição raríssima em Armando Freitas Filho, como acontece em “Escritório Irritante”, alusão respeitosa ao conhecido “Oficina Irritada”. O enfrentamento com o poeta maior atinge grau máximo no poema “Cara a Cara”, onde a comparação literal de dois rostos – o do adolescente e admirador, repleto de espinhas, e o do escritor consagrado, “sem marca / na carne de mármore” – estabelece todo o psiquismo da ansiedade: “e por mais sujo que seja quero / fugir e ficar com o rosto igual.
     
Fugir e ficar. O que o poeta oferece, “sem a certeza / de alcançar o dia imaculado”, é o gesto de adoração e rejeição que toca a existência por inteiro: na fala, a “emissão gaga da voz”; no lugar do amor à mãe, o flagrante torpe a evidenciar “a prova da dor de nós dois”, como no poema “Gravador”; e assim sucessivamente, em contrapontos duros que constroem a casa onde habita o poeta. Pois o espaço de Lar,, onde poderia predominar a harmonia, é transfigurado pelos conflitos: contra a família, contra o próprio rosto e a elocução fragmentada, contra os livros e seus autores irritantes de tão bons. A confissão, ao que parece, atingiu o seu nível ideal, mas o poeta ainda luta para que a poesia alcance o mesmo patamar. 

*Publicado no Caderno Ideias & Livros, Jornal do Brasil, 8 de agosto de 2009.




         Lar,
         Autor: Armando Freitas Filho    
         Editora: Companhia das Letras, 133 páginas
           (consulte usando a ferramenta de busca de livros 
           da parceria Martins Fontes - Cronópios)
 




Felipe Fortuna nasceu no Rio de Janeiro, em 1963. Mestre em Literatura Brasileira (PUC/RJ), é poeta e ensaísta, e vem colaborando regularmente na imprensa brasileira. Publicou Ou Vice-Versa (1986), Atrito (1992) e Estante (1997), poemas; A Escola da Sedução (1991) e A Próxima Leitura (2002), crítica literária; Curvas, Ladeiras - Bairro de Santa Teresa (1997) e Visibilidade (2000), ensaios. Traduziu a obra integral da poeta francesa Louise Labé no volume Amor e Loucura (1995). Diplomata, atualmente trabalha em Londres. Em 2005, publicou um novo livro de poemas, juntamente com os três anteriores, no volume Em Seu Lugar (Editora Francisco Alves). E-mail: felipefortuna@felipefortuna.com  

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