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Reunião dos escritores de São Paulo
por Ademir Assunção





 

Diógenes Moura, luzes da imanência
por Flávio Viegas Amoreira




No verso do reverso: as imagens da Fera Bifronte
por Susanna Busato




Escarnho: a inabalável harmonia do diverso
por Victor Oliveira Mateus




As alegres paixões tristes de Lupicínio Rodrigues
por Tiago Barros




Kafka e a marca do corvo
por Ovídio Poli Junior




Livros bons são assim
por Silas Corrêa Leite




Os ensaios radioativos de Márcio-André
por Carlos Felipe Moisés




A cidade implacável
por Márcia Denser




O poeta a domicílio
por Felipe Fortuna




Trinca dos traídos agora na tela da TV
por Jorge Sanglard




Jacob Pinheiro Goldberg - A poesia como fonte de vida
por Jorge Sanglard




Leite derramado
por Fernando Marques







 
5/10/2009 15:44:00
Livros bons são assim



Por Silas Corrêa Leite


                                                          “O pão que trago comigo/Não é pão/ 
                                                                      É fogo/O vinho que trago comigo não
                                                                      é vinho/É sangue/(...).  E todos hão de
                                                                      beber/Do fogo e do sangue” 
                                                                      Carlos Nejar, a Genealogia da Palavra




     Olhares Plausíveis 
                Gregório Bacic


O belo livro de contos modernos, “Olhares Plausíveis”, de Gregório Bacic, Editora Ateliê Editorial, SP, 2009, é um verdadeiro conjunto de retratos da própria urbana modernidade aloprada, com enfoques irônicos como se literais pontos de fuga do horror consciente da miserabilidade social do ser humanus... Humanus? Nessa espécie de narrativas como se num labirinto denso – entre surpreendentes e epigramáticos contos infantis para adultos – aqui e ali algo edipiano, retrazendo uma infância a uma irônica ótica adultizada, Gregório surpreende pela mão pesada e feroz, mas consciente. Desconforto existencial contra a vala demoníaca da mesmice envenenada do mundo contemporâneo em crise? Os contos são verdadeiros retratos da miserabilidade humana nesses nossos tempos tenebrosos.

Olhares plausíveis na ficção, portanto. Entre o imaginário contundente e o real inventado pra clivagens, os seres-refugos; para muito além dos refúgios historiais, um consciente escritor dizendo de inconformidades, incompletudes. E, ironicamente, provocações, despojos letrais. Na verdade, “gavnós” (merdas em russo), de todos os tempos e lugares sociais, tudo condensado no aqui e agora; liquidificador de convergências investigadas e situações de aceitações frívolas. Restolhos de luzes na ribalta de atos descontínuos.

O diferente é necessário, meio que berrando a alucinação humanista desses consumistas de tempos efêmeros.

Os contos, naturalmente, como se sem querer mas literalmente interligados, têm arames e costuras entre si. Como se um pequeno confeito-mosaico de romance-novela. A cidade grande (qualquer lugar-cidade), metrópole embrutecida com seus parafusos soltos nos arranjos descomunais de insanidades sistêmicas, que dão vernizes novos a podres velhos.  Estruturas sócio-afetivas sórdidas. Cada um, um sítio de si mesmo. Ilhado e perdido com poder aquisitivo e falta de crivo ético. Gregório Bacic entende do riscado e, ironicamente  com todo o peso literário que lhe é peculiar, coloca dedos em feridas aparentemente saradas apenas na estética formal. Tudo igual para não acontecer mudanças dentro do nada humano ou sensível. Quase um circo cênico, em que o autor coloca as tripas pra fora com mão de ourives, meticuloso, cirúrgico, mordaz.

Textos testemunhais enlivradas após olhares altamente críticos. A face das condutas e contudências insanas.

O mundo avançou para permanecer o mesmo”, escreve ele numa das orelhas que salta aos olhos. E o autor une joios perolizados e sombras de trigos imprestáveis. Destrincha situações de mesmices e permanências. As clivagens sociais que vão além das históricas dívidas impagas. O corte frio apontando pangarés, pequenos seres, seres fracotes, tudo muito denso no peso do olhar do autor. Somos todos iscas uns dos outros? O inferno são as iscas. O conto “Plausível” um verdadeiro achado (criado) é assutador até no que não diz, no implícito sem reticências. Não há sensíveis nas ruínas amorfas dos sentimentos neutros. É preciso dar nomes às fuligens plausíveis. O conto “Demônio Inerte” por si só daria uma cena instigante em texto de Bertold Brecht.

Ser feliz é falta de remorso ou só consciência cínica?

Atas da ABREME”, um conto seguinte, é a figuração de um corte de caco de espelho sujo na alma das aparências; cada um, claro, com sua leitura subjetiva pondo ainda mais fermento na purgação. Até dói. O vinagre como a lágrima da alma destroçada na releitura. O conto  “A Olho Nu”, com retratos das disparidades da própria loucura humana. Ninguém é normal de perto e os loucos são perigosos para o sistema das aparências. Para o escritor, é como se não houvesse culpas e nem culpados, ele não julga e nem distorce, narra o horrendo. Há fatos. Teatro letral em 13 atos-monó-(Logus).

A fúria da literatura destrinchando vulgaridades em lampejos, contando de mediocridades existenciais contemporâneas, vergonhosamente atuais. Fotogramas dessa época de uma desordem econômica globalizando neuras. A degradação da grande massa populacional. Os insensíveis entre os incuráveis. Sangrias de todo tipo, pestes diversas. Pior, talvez, que os miseráveis, os irrecuperáveis... os aceitadores de mordaças e cabrestos...

Descobrimos a nós mesmos nos escritos alheios? A mediocridade humana dando literatura de primeira grandeza, é o que se lê no livro de Contos “Olhares Plausíveis”, quando Gregório acerta a mão e pinça lances, quadros cênicos, desde a falta de denodo da condição humana, feito um jogo de cena dando voz aos incompreendidos, aos limitados, aos aceitadores de tudo (os insensíveis), ao próprio embuste sócio-existencial da grande maioria da população entre operários, executivos, crianças, famílias em seus tantos descaminhos, inclusive e principalmente sócio-afetivos. Como desconstruções de seres abomináveis.

Cineasta, Gregório Bacic que criou e dirige o programa Provocações da TV Cultura de São Paulo, sob a direção do polêmico Antonio Abujamra, tem seu estilo todo peculiar, límpido, e ainda assenta na veia: “Às coisas que percebi; que vivemos numa época em que as tecnologias e os conhecimentos especializados encurtam tempos e distâncias, em que o mundo e as coisas mudam rapidamente para que... nada mude”.  Ferino e verdadeiro.

Quer mais? Só lendo o livro. Se a função do artista é dar retoques delatadores de seu tempo insano, testemunhar vicissitudes, desajustes neurais inclusive, Gregório Bacic aqui exemplifica a função da arte literária em alta qualidade. Depondo: a tecnologia em alta e o humanismo em baixa. Contundências. Pois é, tudo isso denota a própria contação diferenciada do autor. O ser humano perdeu a sua consciência de estar no mundo? Antonio Lobo Antunes disse: “Meu desespero estava na impossibilidade de me levantar e dizer “Não é isso!”.

Pois Gregório Bacic, já autor de “Peão Envenenado e Outras Provocações” (Escrituras Editora, 2002) com seus novíssimos e algo venenosos recolhes, detona uma crítica sociológica no que escreve com qualidade, como se com todas as letras reafirmasse Gay Talese “Há sempre uma parte da vida do escritor que é ser escritor. Não importa como viva(...) É a sensibilidade isolada do escritor, o estado de alerta, a separação – como escritor você se separa dos outros o tempo todo.”

As histórias que contamos passam a nossa consciência a limpo?

Olhares Plausíveis” tem esse enfoque específico: olhar o que parece que ninguém vê; (mas existe, acontece, dói), sentir a dor do outro e de alguma maneira escrevê-la com consciência, mas, também e principalmente com e por isso mesmo deixar que o leitor sinta, julgue e pense a respeito de tudo que se enquadra como colagens de cenas do cotidiano, meio Amodóvar, meio Glauber, sempre ele mesmo.

Com se com essas aberrações sobrevivenciais desses nossos tempos, ao narrá-las, tentasse provocar a própria consciência humana do humanus.  E mais não digo. Leiam o livro.

      Olhares Plausíveis
      Autor: Gregório Bacic   
      Editora: Ateliê Editorial, 108 páginas
       (consulte usando a ferramenta de busca de livros 
       da parceria Martins Fontes - Cronópios)
 




                                                 * * *



                                                               “Para os navegantes com desejo de vento
                                                                A memória é um ponto de partida” 
                                                                                                  Eduardo Galeano



   Cruzeiro do Sul 
     Urda Alice Klueger


Quando você toma para o entretenimento ler, de um romance historial de 400 páginas, como o belo livro CRUZEIRO DO SUL da sul-catarinense Urda Alice Klueger, você fica desde logo atiçado para a contenteza do deleite de um prazer de leitura a partir de uma obra literalmente de peso. Em se tratando de Urda Alice Klueger então, como o handicap todo dela, fina flor da chamada literatura brasileira contemporânea, você logo afina o seu voraz lado ledor com a harmonia salutar da preciosíssima escrita de gabarito dela. Especialista em história, Urda Alice é ainda mais, já autora de quatorze obras de alto nível.

O belo romance Cruzeiro do Sul, Editora Hemisfério Sul Ltda, dá um gostoso sentimento de leitura com prazer, entrecortado com alguma ideia aqui e ali de volta às raízes, de volta as origens, quaisquer que sejam elas, num mesmo encantamento, e eu, não por acaso, um pé vermelho do sul criado em Santa Itararé das Artes, vesti-me de arrebatamentos, e de alguma maneira senti-me em casa. E vieram-me a mente as apreendências dos primeiros livros que li, todos de Érico Veríssimo também contando dos pagos sulinos, de igual feitio encantador.

George H. Lewis diz que “ assim como os pássaros tem asas, o homem tem língua”. Olha a história oral e o lado memorialista atiçado. Caetano cantou da mátria língua pátria. Lendo o romance Cruzeiro do Sul, você envereda pelos capítulos todos (e pode lê-los ao acaso, de que forma quiser), e quando vê está se derretendo todo pela gostosura do bem contar, do bem narrar, uma precisa contação que seduz, alicerçando continuações e paisagem que assomam à mente com desenvoltura. Escrever é tocar corações e mentes?

A fundação cultural sulista ali está inteira, plena, embonitada, paginando fatos, invencionices. Dos imigrantes da corte portuguesa em terras brasilis (ah esses brasis gerais); dos chamados silvícolas e ainda um lado antropológico no letral personalizando mestiços, mamelucos, autoridades religiosas, desde os campos gerais, da Vila de São Paulo aos pinheirais de Curitiba, entrando em terras náuticas de Santa Catarina, e assim na leitura vamo-nos, tomados pelo prazer de, bebendo as andanças e paisagens, vilas, acontecências felizes ou trágicas, cada uma das partes como o inédito destino dando sentenças ou salvando sonhos de povoamentos e colonização, entre descobertas e vivificações sociais.

A gente se esforça com paixão, durante anos, para imitar o que é, e mal chega a dar a entender a olhos experimentados o que tentou fazer”, disse Guy de Maupassant. Pois essa máxima não vale para Urda Alice. Você bebe do mundo ficcional dela, e vê ali a historiadora séria embonitando laços de ternura; vê a pesquisadora datando o confeito do historial todo com maestria, o que na obra Cruzeiro do Sul mais se afirma em Montaigne: “Só um leitor inteligente é capaz de descobrir nos escritos alheios coisas outras e lhes emprestar sentidos e aspectos mais ricos”. É isso: Urda Alice está mais para Proust e isso é um elogio e tanto que ela faz por merecer-se.

O sofrimento que vem de Deus (diz um personagem do livro). O sofrimento que vem do homem (explorando seu semelhante), o que Urda Alice tipifica muito bem no que abre ao contar, confirmando a antológica frase poética de Carlos Drummond de Andrade que diz que “toda história é remorso”.

Urda Alice não julga, apenas conta as versões, os enfoques, nomeia tim-tim por tim-tim, sempre tendo como pano de fundo a fundação desse verdadeiro sul-brasilis de tantas diásporas, de tanto fugitivos de guerras, de tantos aventureiros, piratas, e, sim, exploradores de toda sorte, inclusive da fé e da confiança alheia. Tempos em que a água bebia a onça.

Urda Alice Klueger escreve de um jeito que parece que tudo aquilo é conosco, como se, sim, ela fosse mesmo parte da familia (familia Brasil), como se estivéssemos ao redor de uma fogueira assando pinhões, ao redor de um fogão de vermelhão com tubérculos, mates e panelas com picumãs do tempo agarrado nelas, lampiões acesos nas cabeças, religando conversas fiadas, causos pra boi dormir, mais o encantamento de muito bem saber entreter com memórias passadas a limpo, entre o imaginado e o sentido, o pesquisado e o vivido, sempre a cândida criatividade dando pano pra manga, quero dizer, dando uma bela obra. 

Meninos portugueses da gema aqui aprendendo a serem guris, piás, curumins. Os exóticos estrangeiros entre os colonizadores tendo que sobreviver a todo custo entre pagãos de algum modo; o configuramento de viagens, empreitas e travessias em terras virgens sendo desbravadas por colonos sofridos em pé de guerra com a sobrevivência emergencial possível e necessária, de ocasião, e ainda curiosos, aventureiros entre tantos outros personagens que vão e vem, chegam e mudam, alteram o espaço, partem, correr atrás de prejuízos, ah dura sobrevivência, os personagens todos saltam aos olhos, verossímeis, sedutores, verdadeiros, reais. Cativantes. Muito prazer de ler. Bonitezas.

Construções detalhadas. Roupas, pessoas, lugares, situações. Pinceladas de ocorrências que se sucedem e costuram o novelo de situações, entrelaçando, registrando os campos, como retratos de uma época que já se perdeu na névoa do longe, as agruras, os índios, as criações, as ilusões, prosopopéias, uma obra que é um verdadeiro achado, um suntuoso celeiro de matizes a comporem o corpo ficcional todo, entre linguagens bem colocadas, colheitas com detalhes, sentimentos aflorados, rudezas sobrevivenciais, e, ainda, tudo bem sortido no letral com garbo.

A personagem Isabel cativante. A história de Marixem como um achado. A igreja, os adensamentos, os povoados, lavouras, tudo contado como conhecimento que marca, toca, fica com a gente, fica bulindo com a imaginação de quem é de alguma sentido atrelado à escrita-leitura.

Livro bom é assim. Há trechos de verdadeira prosa poética com você se sentindo dentro de você, feito um quintal, um bosque, um lugar uma familia, uma amizade, um reaparelhamento interior de revisitança em encantamento.

Getulio era mais imaginoso, mais sonhador, e era ele quem inventava a maioria das brincadeiras novas. Eles eram crianças simples, sem livros de história, sem gravuras bonitas, sem brinquedos coloridos, mas se viravam. Áurea trazia de casa uma algaravia de historias que iam desde a magia dos duendes e das fadas alemãs até as cruéis histórias da Moura Torta, aquela personagem emigrada de Portugal para o litoral de Santa Catarina já fazia tempo e que continuava forte e viva na tradição oral(...)” Pg. 371

Cruzeiro do Sul é um romance grande também em qualidade. Daria um belo filme, minissérie ou até uma baita novela, Viegas Fernandes da Costa, Escritor e Historiador na orelha da obra afirma o que eu assino embaixo: “Obra de maturidade da autora (Cruzeiro do Sul), narra a saga de um povo construído na diversidade étnica e na luta com as adversidades(...). Com profundo lirismo e humanismo, Urda nos tece o mural de um povo plural(...) mas também nos faz acreditar na força do ser humano quando carrega em si o sonho da vida(...)”.

Ernest Hemingway dizia que o mundo quebrava as pessoas, mas elas ficavam mais fortes nos lugares onde elas foram quebradas. Deve ser por isso que o sul do Brasil, desbravado e erguido galhardia por imigrantes e filhos destes, é a região mais desenvolvida sócio-culturalmente do Brasil.

O romance Cruzeiro do Sul tem esse registro pari-passu das andanças de povos de outras terras, começando depois de 1500 e terminando bem depois de 1985. Com um final (que pode ser continuação de) que é triste, amargo, mas que também é fim de algum tempo para recomeço de uma outra nova época ou geração, tempo de mudanças, talvez uma outra contação futural, que a labuta continua e nem sempre há final feliz na vida daqueles que se aventuram por outras plagas, com o espírito lusonauta de conhecer, construir, deixar o sal da lágrima de Portugal em berços explêndidos de muitas madeiras, minérios, águas, sementes e açúcares.

Os sofrimentos que fizeram o Brasil, o sofrimento que fazem hoje, muito além do sul do Brasil com os excluídos sociais, os sem teto, sem terra, sem amor, os minhocos; filhos da terra sonhando uma Pasárgada, uma Onira, um Eldorado que parece estar mesmo dentro de cada um de nós, como uma história de sedução e conquista.

O maravilhoso mundo mágico da escrita de Urda Alice, dando uma idéia de como pode ter sido a colonização do Brasil florão da américa católica, com sua colonização de exploração, com sua mistura de raças, crenças, mas mantendo a língua-mestra com a qual Urda Alice Klueger criou um clássico.

      Cruzeiro do Sul
      Autor: Urda Alice Klueger  
      Editora: Hemisfério Sul, 408 páginas
       (consulte usando a ferramenta de busca de livros 
       da parceria Martins Fontes - Cronópios)
 




Silas Corrêa Leite – Itararé-SP, é poeta, letrista e compositor. Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design – Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
E-mail:
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