14/6/2007
Conversas no Porto: Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís.
Apresentação: Aniello Angelo Avella
A presença italiana na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é bastante rica em quantidade e em qualidade.
Entre os vários filmes apresentados, Conversas no Porto: Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís. Dezembro 2005 destaca-se pela originalidade do assunto, pela beleza das imagens, pelo brilho dos protagonistas. Trata-se de um documentário realizado no mês de Dezembro de 2005, direção de Daniele Segre sob a minha supervisão artística, produção “Fondazione Libero Bizzarri” de San Benedetto del Tronto (www.fondazionebizzarri.org): esta cidade pequena mas muito viva seja nas atividades econômicas, seja no setor cultural, colocada na região Marche, província de Ascoli Piceno (Itália central), quis prestar, desta forma, uma extraordinária homenagem aos dois intelectuais portugueses, cuja fama é universalmente reconhecida. Em função de sua importância, o filme teve o patrocínio do Instituto Camões, da Embaixada de Portugal em Roma, da Universidade de Roma Tor Vergata, onde já funciona uma cátedra intitulada à romancista. Na mesma universidade, Agustina Bessa-Luís deve receber a láurea honoris causa no próximo mês de dezembro.
Conversas no Porto é um “certame” dialéctico entre a escritora e o cineasta que, como é sabido, estão ligados por uma relação dinâmica que nos apresenta uma série de complexos problemas teóricos no que diz respeito aos processos de intersecção entre as diferentes formas de criação artística. Não será esta a ocasião para aprofundar tais questões, é preferível dar a palavra, literalmente, aos dois gigantes da cultura portuguesa, que as vão discutindo de forma exaustiva ao longo do diálogo filmado.

Basta apenas lembrar, aqui, que o realizador foi “roubar” -segundo uma expressão por ele usada freqüentemente- a muitos escritores da literatura mundial, ao longo da sua extensa carreira (António Vieira, Camilo Castelo Branco, José Régio, Dostoievskij, Tolstoj, Paul Claudel, Madame de La Fayette, citando ao acaso). A partir do início da década de 80, importantes romances da Agustina tornaram-se argumento de obras de Oliveira, de Francisca até O Espelho Mágico (2005), baseado no livro A Alma dos Ricos.
Mestre do cinema, Manoel de Oliveira, que é o mais longevo diretor em atividade com seus quase 98 anos de idade, recebeu na Itália numerosos reconhecimentos, venceu duas vezes o “Leone d’Oro” e ganhou em 2005 a mais alta condecoração da República. O seu último filme, Belle Toujours, apresentado no festival de Veneza deste ano, despertou o entusiasmo da crítica e do público.
Agustina Bessa-Luís (1922), por sua vez, sempre teve uma ligação intensa com o cinema: desde a infância, o cinema foi para ela uma companhia tão importante como o livro e mais ainda, “o filme antecedeu a leitura: aos 4 anos, já ia ver todo o grande cinema” (palavras da própria escritora). Do ponto de vista italiano, será interessante recordar que Agustina não se cansa de dizer que tem “verdadeira paixão” por Pasolini. Alguém já disse que ela é a escritora portuguesa contemporânea que mais recorre às técnicas da linguagem cinematográfica, com travellings, flash-backs, muitos zooms. Ela fez sua estréia em 1948, publicando a novela Mundo Fechado; a consagração veio com o romance A Sibila (1954), definido “o segundo milagre” da literatura portuguesa do século XX (o primeiro seria Fernando Pessoa). Até hoje, ela publicou mais de 50 títulos e recebeu, em 2004, o Prêmio Camões, considerado uma espécie de Nobel da lusofonia.
O título do filme apresentado em São Paulo leva-me a fazer algumas breves considerações sobre as características do documentário, partindo do facto de que a conversa é uma modalidade de discurso que prevê uma contínua, constante interacção ou tentativa de colaboração entre os participantes. A semiótica define esta característica como “princípio de cooperação” (Grice, 1967).

Neste caso, os dois protagonistas do disurso demonstram uma forte vontade de entender e de se fazer entender, na tentativa de ultrapassar e interpretar as diferenças e as distâncias das respectivas posições, muitas vezes divergentes, sobre questões estéticas, filosóficas e existenciais. Trata-se, portanto, de um alto nível de “cooperação”, que reduz ao mínimo os riscos de fragmentação e de dispersão.
O diálogo desenvolve-se a partir de blocos, cujos temas são debatidos segundo um modelo “binário” (documento e invenção, crónica e história, passado e presente, Saudade e Utopia, Europa e América, Portugal e Brasil, etc.); cada segmento do diálogo é encerrado por algumas imagens da cidade do Porto, que ajudam a recriar o húmus cultural do qual se alimenta a criatividade da escritora e do realizador.
É sabido que o diálogo é um género literário muito antigo, cujo completo desenvolvimento artístico foi alcançado pelos gregos com resultados extraordinários na poesia dramática, nomeadamente, na tragédia. No que diz respeito à filosofia, sabemos da grande importância e complexidade epistemológica que Platão atribuía ao diálogo, considerando-o o instrumento principal na busca da verdade, um procedimento que permite recompor os elementos dispersos até alcançar a unidade e desta forma a Idéia: as figuras e as situações definem-se, através da dialéctica, como sinais de algo significante.

Na Conversazione, como o espectador poderá ver, são muitas as referências à Grécia e à sua cultura. Não é por acaso. Para quem se formou na cultura clássica, o diálogo entre os dois intelectuais portugueses evoca uma tradição que abrange Luciano de Samosata, Cícero, a Consolatio de Severino Boezio, as obras de Jerônimo e Agustinho; no âmbito da Renascença italiana lembramos apenas o Secretum de Petrarca, Gli Asolani de Pietro Bembo, Il Cortegiano de Castiglione, L’Arte della Guerra de Niccolò Macchiavelli, até chegar aos Dialoghi dei Massimi Sistemi del Mondo de Galileo Galilei. No Iluminismo o diálogo ganha nova vida com Voltaire e Montesquieu e, no século dezanove, as Operette Morali do italiano Giacomo Leopardi constituem um exemplo importantíssimo deste género.
Voltando ao documentário, a sombra de Platão entrevê-se várias vezes nos raciocínios desenvolvidos por Agustina e Manoel; nomeadamente, na conversa entre os dois, após o momento da divisão (diáiresis), vê-se claramente a tendência para recuperar o princípio unitário (synagoge) ou, segundo as palavras de Plotino, “uma marcha inversa”, que da análise tende a voltar ao princípio e portanto à Unidade. E talvez seja este o sentido da Saudade, à qual os dois intelectuais dedicam no filme uma importante reflexão.
Concluindo, Conversazione a Porto é um exemplo paradigmático de intersecção entre os géneros: o cinema abrange o diálogo filosófico e literário, na perspectiva da “mistura” que já foi definida como “antropologia cultural on the road”.

P.S. O filme está disponível em DVD. Informações no site da Fondazione Libero Bizzrri (www.fondazionebizzarri.org)
Aniello Angelo (Nello) Avella é titular de "História da Cultura dos Países de Língua Portuguesa" na Universidade de Roma "Tor Vergata" (Roma 2). Responsável científico pela "Cátedra Agustina Bessa-Luís", com o patrocínio do "Instituto Camões". Sócio correspondente do "Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", integra o conselho editorial da "Revista do IHGB" e de outras publicações científicas como "Margens-Márgenes", "Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani", "Sincronie" etc.. No ano de 2003 recebeu a "Medalha Tiradentes" da Assembléia Legislátiva do Estado do Rio de Janeiro. Responsável por numerosos convênios com universidades e entidades de pesquisa, entre as quais (no Brasil) UERJ, UFMG, UNESP. Autor de ensaios e livros publicados em italiano, português, espanhol, alemão, seus volumes mais recentes são: "Teixeira de Pascoaes e o Saudosismo", "La Passione del Mestre de Avis secondo Fernão Lopes", "Parola Immagine Utopia. Scritti in onore di Manoel de Oliveira", "Dal Pan di Zucchero al Colosseo. Intellettuali brasiliani a spasso per le vie di Roma e dintorni". E-mail: nelloavella@alice.it |